A relação recente do Benfica com a Liga dos Campeões pauta-se por duas constantes guerras civis: de um lado, o confronto entre as ambições e o inevitável pragmatismo desportivo; do outro, o conflito entre a adaptação a uma realidade mais confortável e as importantes mais valias financeiras. Se Luís Filipe Vieira e Rui Costa falam de e sublinham um alegado projeto europeu, Bruno Lage faz poupanças na Europa por privilegiar a Liga; se muitos adeptos, logo à partida, acabam por preferir uma queda para a Liga Europa porque a probabilidade de sucesso se torna mais elevada, os mesmos muitos reconhecem a importância dos milhões que entram nos cofres a cada vitória, cada golo e cada fase.

No fundo, e numa associação de sentido lato, a relação recente do Benfica com a Liga dos Campeões faz lembrar o antigo provérbio Cherokee que defende que todos nós temos dois lobos dentro de nós — um bom e um mau — e que o que ganha é aquele que escolhemos alimentar. No Benfica, Bruno Lage tem alimentado o lobo que olha para a Liga dos Campeões como mais um jogo a meio de semana que torna difícil a recuperação física para as partidas do fim de semana. O que não impede que a estrutura do clube alimente o lobo que vê a competição europeia como o ganha-pão que dá resultados financeiros positivos ao final do ano e que permite uma margem orçamental que não obriga a vender. Nenhum dos lobos é necessariamente somente bom e nenhum dos lobos é necessariamente somente mau: mas dificilmente conseguem coexistir.

Ficha de jogo

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Benfica-Zenit, 3-0

Fase de grupos da Liga dos Campeões

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Antonio Mateu Lahoz (Espanha)

Benfica: Vlachodimos, Tomás Tavares, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo, Gabriel (Samaris, 81′), Taarabt, Pizzi, Cervi (Seferovic, 81′), Chiquinho, Carlos Vinícius (Caio Lucas, 89′)

Suplentes não utilizados: Zlobin, Jardel, Nuno Tavares, Jota

Treinador: Bruno Lage

Zenit: Kerzhakov, Osorio, Ivanovic, Douglas Santos, Karavaev, Erokhin (Sutormin, 65′), Barrios, Ozdoev (Smolnikov, 61′), Shatov (Mak, 89′), Azmoun, Dzyuba

Suplentes não utilizados: Vasyutin, Kranevitter, Musaev, Vorobyov

Treinador: Sergei Semak

Golos: Cervi (47′), Pizzi (gp, 58′), Azmoun (ag, 80′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Douglas Santos (17′ e 57′), a Gabriel (19′), a Ozdoev (43′), a Erokhin (55′); cartão vermelho a Douglas Santos por acumulação (57′)

Esta terça-feira, na Luz, os lobos tinham uma oportunidade para estarem de acordo. Já eliminado da Liga dos Campeões, o Benfica precisava obrigatoriamente de ganhar ao Zenit para ficar em terceiro no grupo e seguir na Liga Europa: a vitória chegava caso o Leipzig vencesse o Lyon mas, em cenário de empate ou derrota dos alemães com os franceses, os encarnados precisavam de ganhar por 2-0 ou por uma diferença de três golos para não deixarem desde já as competições europeias. Ora, a já confirmada saída da Liga dos Campeões reduz a exigência teórica, já que a Liga Europa não deixa de ser a segunda competição europeia, mas garante a Bruno Lage a simpatia dos adeptos que querem voltar a ver o Benfica no panorama continental; e a vitória subjacente a essa mesma passagem garantia ao clube um encaixe financeiro global de quase 50 milhões de euros, um valor recorde, por concentrarem a quantia destinada a Portugal face à ausência do FC Porto. Os dois lobos, com uma oportunidade de coexistirem.

Bruno Lage cumpriu a sua quota-parte e colocou em campo a mesma equipa que na passada sexta-feira goleou o Boavista para a Liga: com Chiquinho e Vinícius na frente, com Gabriel, Taarabt, Pizzi e Cervi no meio-campo e Tomás Tavares a render o lesionado André Almeida. Raúl de Tomás, Gedson e Florentino ficavam de fora da convocatória e o Benfica recebia o Zenit com Caio Lucas, Seferovic e Jota enquanto opções ofensivas. Os encarnados entraram melhor, com Taarabt a assumir o primeiro remate da partida logo ao terceiro minuto, e o Zenit não teve grandes pudores em colocar-se atrás da linha da bola, a dar espaço à primeira fase de construção portuguesa mas a não descurar a densidade defensiva no último terço.

O melhor período do Benfica apareceu à passagem do primeiro quarto de hora: Vinícius recebeu um grande passe de Grimaldo mas viu Osorio bloquear-lhe o remate (14′), Pizzi atirou por cima à entrada da grande área (16′) e Chiquinho rematou na diagonal mas ao lado da baliza de Kerzhakov (17′). Tudo isto no espaço de três minutos. Adivinhava-se o golo encarnado na Luz, sensação agudizada instantes depois com um livre direto de Grimaldo, mas a verdade é que o Zenit conseguiu aguentar a pressão adversária até aos 20 minutos e sacudir o sufoco a partir daí, esticando mais a equipa sem nunca colocar em causa a organização defensiva. Dzyuba e Azmoun, os dois elementos mais adiantados, desempenhavam a primeira fase de pressão mas na hora do ataque eram rapidamente apoiados pela linha de quatro que tinham nas costas — até porque os laterais, Douglas Santos e Karavaev, abriam nos corredores para deixar o espaço interior aos médios, Shatov e Erokhin, que procuravam combinações e jogadas de entrosamento.

Até ao intervalo, Sardar Azmoun ainda teve uma grande oportunidade para abrir o marcador (20′), naquela que foi mesmo a melhor ocasião criada pelos russos, mas nem Benfica nem Zenit conseguiram marcar. Os encarnados não foram capazes de capitalizar os 20 minutos de controlo e ascendente que tiveram — onde registaram cinco remates contra nenhum do adversário — e perderam ímpeto e discernimentos nos instantes finais da primeira parte. A posse de bola não tinha seguimento no último terço, onde faltava discernimento e critério na última decisão, e os erros de transição e os passes falhados logo na fase inicial da construção começaram a tornar-se frequentes. Na ida para o intervalo, o Leipzig estava a ganhar o Lyon, o que queria dizer que o Benfica só precisava de um golo para chegar à Liga Europa — mas era precisamente esse golo que estava a faltar.

Na segunda parte, Bruno Lage não se apressou a fazer alterações — mesmo depois de Seferovic ter estado a aquecer durante os últimos minutos da primeira parte — e o Zenit apresentou-se mais esticado no terreno, com mais espaço entre os jogadores e menor intensidade defensiva, o que abriu caminhos ao setor intermédio encarnado. Enquanto culminar de uma entrada inequivocamente superior à do adversário, o Benfica acabou por conseguir chegar à vantagem por intermédio de três dos jogadores que estavam em maior evidência.

Gabriel, que já tinha estado muito ativo na primeira parte, apareceu encostado à linha no corredor direito para descobrir Vinícius. O avançado brasileiro soltou Pizzi já na grande área e o internacional português cruzou de primeira para a zona da pequena área, onde Cervi só precisou de encostar (47′). Com o jogo na mão e os 16 avos de final da Liga Europa a um passo, o Benfica ficou perto do segundo golo através de um grande remate de Gabriel (53′) e estava a encostar por completo o Zenit às cordas, com Taarabt em destaque na ligação entre o setor intermédio e o mais adiantado. O médio marroquino realizou uma exibição acima da média, sempre muito disponível para aliar a ajuda ofensiva às tarefas defensivas e com elevada “nota artística”, registando dois túneis a jogadores russos que vão estar com certeza na compilação dos melhores momentos desta jornada europeia.

O aumentar da vantagem portuguesa — que não só tranquilizava a equipa como oferecia uma margem de erro em relação àquilo que não podia ser controlado, já que eram os dois golos que abriam espaço a um empate ou uma derrota do Leipzig — chegou através de uma grande penalidade. Grimaldo cruzou na esquerda e Douglas Santos interrompeu o lance com a mão: na conversão, já depois de o lateral da equipa russa ver o segundo amarelo e deixar o Zenit reduzido a dez elementos, Pizzi bateu Kherzhakov (58′). Com menos um elemento, o Zenit tirou um médio para colocar outro, refrescando a transição, e tentou ir à procura do golo que poderia obrigar o Benfica a marcar mais dois. Com menos um, com a equipa desorganizada e pouco equilibrada, os russos ficaram perto de sofrer o terceiro golo, por intermédio de Cervi (64′) e de Vinícius (72′), mas também proporcionaram a defesa da noite a Vlachodimos com um remate à meia volta de Azmoun (77′).

Numa altura em que o jogo tinha perdido algumas características e o Benfica tentava a todo o custo manter a vantagem de dois golos que garantia a presença na Liga Europa, Azmoun acabou por fazer autogolo na sequência de um canto e descansou as bancadas da Luz (80′). Ainda assim, e depois de ter estado a perder durante quase toda a partida, o Lyon acabou por empatar em casa perante o Leipzig e tornou sofridos os últimos minutos do jogo, já que bastava ao Zenit um golo para agarrar a vaga na segunda competição europeia. Lage trancou a baliza com a entrada de Samaris e ainda deu minutos a Seferovic e Caio Lucas, segurando a vantagem de três golos até ao apito final.

O Benfica fica no terceiro lugar do Grupo G — Leipzig e Lyon, por esta ordem, seguem para os oitavos de final –, despede-se da Liga dos Campeões mas continua nas competições europeias através da Liga Europa. Pizzi, recorrentemente criticado por não apresentar na Europa o nível exibicional que faz a diferença nas competições internas, esteve em destaque na noite desta terça-feira, assistiu Franco Cervi para o primeiro golo e marcou o segundo, registando desde já a temporada mais goleadora da carreira quando ainda estamos em dezembro (leva 16 golos em todas as competições). Mas foram também as prestações de Cervi, Taarabt eGabriel que catapultaram o triunfo europeu do Benfica, numa exibição globalmente positiva que deixa boas perspetivas para a restante campanha encarnada nas competições europeias.