“Todas as noites, minha Avó, achando-se o menino que eu era, e que por vezes ainda sou, deitado já, agasalhava-me amoravelmente, e abria a porta do armário sempre fechado com chave que só ela guardava. Ia buscar o cartuchinho de cor creme, atravessado por caracteres que diziam “Regina”, e retirava dele uma pastilha de chocolate”.

Assim começava o discurso de Mário Cláudio, já depois de impor o escapulário e o anel e de receber o livro, símbolo de sabedoria. É Doutor Honoris Causa pela Universidade do Porto no ano em que comemora o 50.º aniversário de vida literária.

Aquele que é um dos “escritores portugueses mais reconhecidos” da atualidade e um dos que “mais tem trabalhado a condição de ser português'”, como se pode ler no texto da proposta de atribuição do doutoramento, foi sentimental no discurso e voltou à infância. E “ao vasculhar o sótão das memórias fantásticas”, associa o sabor da distinção ao “galardão” que a avó lhe oferecia ao deitar.

Pseudónimo literário de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, Mário Cláudio admite que o sentimento dominante é, sobretudo, “gratidão pelo reconhecimento do trabalho desenvolvido ao longo dos anos. E nesse reconhecimento, está também um estímulo para fazer aquilo que ainda me for possível fazer”, garante, em jeito de promessa.

Marcelo Rebelo de Sousa esteve presente na cerimónia, numa “homenagem pessoal e nacional”, porque admira “desde sempre” o escritor que considera ser “um dos grandes escritores portugueses vivos”.

Mário Cláudio tem mais de 60 obras publicadas em 50 anos, no género ficção, mas também poesia e teatro, para além de muitos livros de crónicas, ensaios e traduções. Entre a vasta lista de prémios ganhos pelo escritor estão o Pessoa, em 2004, o Prémio APE de Romance e Novela (1984) e o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1985).

Natural do Porto, reconhece à cidade não só o sítio onde nasceu como aquele ao qual tem dedicado parte da obra literária. E talvez por isso, depois de vestido o traje azul, da cor da Faculdade de Letras, se comparou ao pássaro azul que guarda o rio Douro.

“Eu envergo este traje que me aproxima de um guarda-rios, ave azul que passarei a reivindicar como irmã, habitual na enseada do rio Douro que corre aos pés do meu Burgo”.