“Proibi toda e qualquer imagem do outro jogo com o Bayern. Sim, já vi o jogo algumas vezes. Eu, o meu staff e os analistas da equipa. Tentámos ver todos os aspetos mas nem uma imagem foi mostrada aos rapazes. Nada. Vamos virar o foco para nós e não para o Bayern”. São muitos os casos dos treinadores que “jogam” com imagens, capas de jornais ou declarações dos adversários para criarem aquilo que os ingleses descrevem como leverage, a vantagem possível dentro de um jogo com um sem número de variáveis que não se controlam. Mourinho é um deles. Ou melhor, era: percebendo que teria mais a perder do que a ganhar ao recordar a histórica goleada dos germânicos em Londres ainda com Pochettino no comando, fugiu a todo o custo a esse pesado desaire.

“Vamos tentar continuar a desenvolver o nosso modelo de jogo, com diferentes estruturas, fases e jogadores. Mas fica a certeza de que tentaremos jogar o nosso futebol e desenvolver os nossos princípios de jogo, estando focados apenas em nós. Cheguei a meio da época, sem quatro, cinco ou seis semanas para trabalhar e conhecer os meus jogadores. Assim, teremos de fazer tudo enquanto jogamos. É importante para mim que os jogadores percebam que sou alguém aberto. Acho que os rapazes precisam de mim e o meu trabalho é ajudá-los”, acrescentou.

Sem nomes de peso como Aurier, Vertonghen, Dele Alli ou Harry Kane, além dos lesionados Hugo Lloris, Vorm, Ben Davies, Winks, Ndombele ou Lamela, o Tottenham jogava em Munique apenas pelo prestígio (até porque no caso dos clubes ingleses o prémio financeiro da vitória não é assim tão relevante como por exemplo para as equipas portuguesas) mas tinha como principal foco limpar a imagem deixada no jogo da primeira volta da Champions e consolidar o caminho feito desde que José Mourinho assumiu o comando, onde perdeu apenas por uma vez quando regressou a Old Trafford. Em paralelo, tinha na Allianz Arena o jogo das novas oportunidades, com nomes menos utilizados como Walker-Peters, Foyth ou Sessegnon poderem reclamar mais minutos.

Contra a equipa pela qual, de acordo com o seu ex-jogador Bastian Schweinsteiger, estava sempre a perguntar (uma frase que surgiu em destaque quando o nome do português surgiu na corrida à sucessão de Niko Kovac), Mourinho acabou sobretudo por ver mais uma página histórica da Champions ser escrita: num encontro onde o Bayern foi sempre melhor apesar de ter terminado com o ponto negativo da lesão de Coman (que pelas imagens pode ser grave – logo ele que, na última paragem longa, tinha deixado em aberto a possibilidade de deixar o futebol caso voltasse a sofrer um revés desses), o Tottenham ainda conseguiu empatar na primeira parte mas teve poucos argumentos para contrariar o poderio dos bávaros, que selaram a melhor fase de grupos de sempre.

Coman, com um remate cruzado na área após jogada de envolvimento do Bayern, inaugurou o marcador ainda dentro do primeiro quarto de hora (14′), antes de Sessegnon empatar aproveitando um erro de Boateng para atirar colocado e sem hipóteses para Neuer (20′). Os visitados controlavam, conseguiam tirar capacidade de saída dos ingleses e voltaram a passar para a frente em cima do intervalo, com Müller a concluir na área uma jogada com ressaltos à mistura (45′). Na segunda parte, Coutinho, que andou todo o jogo à procura do primeiro golo nesta edição da Liga dos Campeões, fixou o 3-1 final que valeu a sexta vitória na fase de grupos aos germânicos com a melhor diferença entre golos marcados e sofridos na história da Champions.

“Se pensasse apenas em mim, teria trazido todos os melhores jogadores e entraria na máxima força. Não sou egoísta, estou a pensar na minha equipa. Tomei as opções certas”, comentou José Mourinho no final.