“Encontrámos pessoas mortas, algumas ainda a morrer, outras vivas…” —  conta Mark Law, piloto de um helicóptero comercial, que resgatou com a sua  equipa 12 vítimas da erupção do vulcão da ilha de White, na Nova Zelândia. Law explica ao The Guardian que passou uma hora no terreno, a procurar sobreviventes e a tentar auxiliar todos os vários feridos graves, mesmo tendo em conta o pilar de cinza que cada vez ia crescendo mais e mais em cima dele.

Não tendo a certeza de que os serviços de emergência chegariam a tempo à ilha na Bay of Plenty devido aos receios de problemas de segurança, Law tomou a iniciativa e decidiu pôr a sua vida em jogo para salvar as várias dezenas de pessoas que estavam perto do vulcão no momento da erupção. “Ouvimos dizer que eles [serviços de emergência] não iam logo para lá”, explicou o piloto de 48 anos que há dez lidera uma empresa de passeios aéreos sobre o vulcão Whakaari.

Law, que tem dois helicópteros AS350 Squirrel, nem tinha previsto nenhum voo para o dia da erupção. Tudo mudou quando, a cerca de 48km da costa, viu uma pluma de cinza a levantar-se da ilha. “Pensei que aquilo não estava com muito bom ar e falei com um dos meus pilotos”, explicou. “Contactámos um amigo pescador que nos confirmou que estava a acontecer um episódio vulcânico considerável. Isso foi o suficiente para nos convencer a ir para lá.”

O neo-zelandês pegou num dos Squirrel e o seu colega, Jason Hill, ficou com o outro — em 20 minutos estavam a caminho da ilha e pouco depois chegaram ao local. “Parecia que estávamos a correr em cima de pó talco”, explicou o piloto. “Estava a ser muito difícil respirar em condições, não tendo máscaras de gás ficámos com alguma falta de ar… Até que a adrenalina assumiu controlo. Preferimos quebrar umas regras e salvar vidas em vez de ficar só sentado a pensar naquilo que poderíamos ter feito.”

“Muitas pessoas não conseguiam falar. A única palavra que se ouvia era o ocasional ‘socorro'”

O cenário que encontrou deixou Law, um antigo soldado que já tinha visto muitos cadáveres, muito abalado:

As queimaduras eram horríveis. Muitas pessoas não conseguiam falar, estava tudo muito silencioso. A única palavra que se ouvia era o ocasional ‘socorro’. As pessoas estavam cobertas de cinza e pó. Quando tentávamos pegar nelas a sua pele ficava-nos nas mãos”

No total, este piloto e os seus colegas conseguiram transportar cinco pessoas em cada um dos helicópteros, mais duas numa outra aeronave privada que se juntou a eles. Depois de 40 ou 50 minutos passados na ilha levaram as vítimas para o hospital de Whakatāne e para a base aérea do mesmo sítio, de onde alguns foram logo transportados, também por meios aéreos, para várias unidades de queimados um pouco por toda a Nova Zelândia.

Depois disto Law quis regressar imediatamente e apanhar as oito vítimas que ainda tinham ficado para trás, isto enquanto a polícia ainda aguardava pela autorização dos peritos para lá regressar também. Não o autorizaram a ir. “É só burocracia”, clamou. “Ia para lá agora mesmo recuperar os corpos, se me dessem autorização.”

A primeira-ministra Jacinda Ardern entretanto já louvou o trabalho das equipas de resgate: “Esse pilotos tomaram uma decisão incrivelmente corajosa tendo em conta as condições extremamente perigosas que tinham pela frente, ao tentar resgatar as pessoas”, explicou em conferência de imprensa na passada terça-feira.

Entre a comunidade de Whakatāne há uma crescente sensação de frustração, quase raiva, perante a demora nas operações de resgate.