Um programa que coloca frente-a-frente ex-membros do Estado Islâmico e as suas vítimas é hoje um dos maiores sucessos da televisão iraquiana. Realizado por um canal televisivo estatal, em parceria com os serviços secretos e as forças de segurança do país, o programa dá a oportunidade às vítimas, em grande parte mulheres que foram vendidas como escravas sexuais pela organização terrorista, de confrontarem os seus agressores, que surgem no ecrã algemados e com o uniforme da prisão vestido.

Segundo o jornal espanhol El Mundo, que no ano passado acompanhou a história de Ashwaq, pertencente à minoria religiosa yazidi  e que foi violada por elementos do Estado Islâmico, o programa contou recentemente com a participação desta mulher, que ainda adolescente sofreu dezenas de violações.

“Tinha cerca de 14 anos quando fui sequestrada pelos terroristas do Estado Islâmico. Chegámos à Síria à meia-noite. Estávamos preocupadas e não sabíamos o que seria de nós, se seríamos assassinadas ou não. Ainda assim, o facto de estarmos juntas deu-nos uma certa segurança. Pensámos que morreríamos ou viveríamos juntas. Mas logo nos separaram, a todas as raparigas com mais de nove anos”, lembrou Ashwaq no programa.

A jovem foi entregue como presente a Abu Humam, que a viria a violar repetidas vezes. “Ele chegou a prometer-me que me deixava sair em liberdade, mas depois violava-me três vezes por dia e batia-me três ou quatro vezes por dia. Eu era uma criança, não sabia de nada.” Também entrevistado no programa, Abu Humam reconhece: “Levei-a nessa noite e violei-a no dia seguinte, mais ou menos. Ela não queria, mas bati-lhe até ela aceitar. Depois daquele dia, fomos ao juiz e registei-a oficialmente com o meu nome.”

Quando colocados frente-a-frente, Abu Humam mantém-se em silêncio e cabisbaixo, enquanto Ashwaq o questiona: “Olha para mim. Porque me fizeste isto? Porque sou yazidi? Tinha 14 anos quando me violaste. Olha para mim. Tens sentimentos? Tens honra? Tinha 14 anos. A idade da tua filha, do teu filho ou da tua irmã. Destruíste-me a vida. Roubaste-me todos os meus sonhos”.

O programa é apoiado pelo próprio governo iraquiano, que desde o início das emissões facilitou o contacto entre o jornalista que apresenta o espaço e os ex-militantes do Estado Islâmico presos, segundo explicou fonte oficial do governo do Iraque ao El Mundo.

Foram raptadas 6.700 yazidis pelo Estado Islâmico, 3000 continuam em paradeiro incerto.