Começamos este texto com um mero exercício lógico que tem como ponto inicial Jorge Jesus e chegada Madrid. O treinador português, depois de conquistar em 24 horas a Taça dos Libertadores e o Campeonato do Brasil pelo Flamengo, títulos que o clube não vencia há 38 e dez anos, respetivamente, assumiu o sonho de poder orientar uma equipa que se lhe permitisse lutar pela Liga dos Campeões. Depois, foi deixando outras pistas. Por exemplo, que prefere Espanha e Itália a Inglaterra. Olhando para a realidade transalpina, a Juventus é a única equipa que tem já o plantel montado para o sucesso europeu e Sarri acabou de chegar; em Espanha, Zidane parece ser intocável, ao passo que o Barcelona tem outros nomes pensados para a sucessão de Valverde. Sobra um. 

Apesar da saída de nomes como Godín, Lucas Hernández, Rodri ou Griezmann, o Atl. Madrid fez um investimento a sério para dar o salto com João Félix, Marcos Llorente, Trippier, Renan Lodi, Felipe ou Herrera, que se vieram juntar a um plantel com várias referências. Chegados à última jornada da Liga dos Campeões, a equipa jogava ainda a passagem aos oitavos sem margem de erro e encontra-se a oito pontos dos líderes Barcelona e Real (ainda com um jogo em atraso entre ambos). Diego Simeone pode continuar a ser um ídolo no Wanda Metropolitano mas o “Cholismo” atravessa uma fase complicada. A redenção, essa, tinha um português na frente.

A era Simeone nos colchoneros permitiu que a equipa conseguisse desafiar o impossível e conquistasse um título entre o domínio de Barcelona e Real Madrid, além de ter permitido chegar a duas finais da Liga dos Campeões. A fasquia da exigência aumentou, os resultados não acompanharam esse acréscimo. E se é certo que, em termos defensivos, a equipa tem mantido a habitual eficácia, tem entroncado no ataque o principal problema, até pelo problema físico de Diego Costa. João Félix, após mais de um mês de ausência por lesão, voltou como suplente utilizado em dois jogos, foi titular com o Barcelona, fez todo o encontro com o Villarreal. Não marcou e o Atl. Madrid também não ganhou. Esse era o grande desafio para a receção do Lokomotiv Moscovo.

“Com 19 anos, além de suportar o peso dos 126 milhões com que foi contratado ao Benfica, os seis primeiros meses no Atl. Madrid foram um multimaster para João Félix (…) O consenso generalizado por todos no clube para não carregar em demasia a mochila de pressão da jovem estrela passou para segundo plano. A lesão de Diego Costa e a seca goleadora colocaram à frente da sua idade o preço e as virtudes que justificaram a transferência milionária”, analisava esta quarta-feira o El País. E o português chegou-se à frente.

Com um início diabólico, o número 7 ganhou uma grande penalidade logo aos dois minutos que Trippier acabou por não transformar com defesa de Kochenkov (um lance polémico pelo adiantamento claro do guarda-redes na altura em que o inglês marcou o castigo máximo) e teve um remate de fora da área ainda dentro do primeiro quarto de hora (12′) antes de aproveitar mais um penálti para inaugurar o marcador… deixando Kochenkov colado ao relvado (17′). Álvaro Morata ainda marcou mas o golo foi anulado (26′) e seriam dos pés de João Félix que iriam surgir as últimas duas oportunidades para o Atl. Madrid, sempre dominador no jogo.

O conjunto de Simeone estava na frente e não demoraria a ficar com o apuramento quase garantido com o 2-0 aos 54′ pelo antigo central do FC Porto Felipe, a aproveitar um canto marcado por Trippier e com cruzamento de Koke para o desviou oportuno do brasileiro. Mais de dois meses depois, João Félix voltou aos golos, ganhou um penálti e foi o melhor em campo com uma das melhores exibições desde que chegou a Madrid. Numa altura em que o rei Simeone estava em perigo, o príncipe chegou-se à frente. E o Atl. Madrid segue para os oitavos.