Com as atenções mais viradas para as eleições no Reino Unido, esta quinta-feira, 12 de dezembro, a estreia de Christine Lagarde na liderança do Banco Central Europeu foi relegada para segundo plano nos mercados financeiros. Mas mesmo assim, há uma “excitação em antecipação [à primeira conferência de imprensa]”, dizem economistas do ING em nota de análise. Essa “excitação não advém de possíveis mudanças na política monetária mas, sim, na forma como o seu estilo de comunicação será diferente do de [Mario] Draghi”, dizem os economistas, que garantem que, mesmo sem novidades concretas, a primeira conferência de imprensa de Christine Lagarde “será tudo menos aborrecida“.

E não será “aborrecida” por várias razões, diz o ING. Em primeiro lugar, porque a reunião do Conselho do BCE desta quinta-feira inclui a divulgação de novas previsões macroeconómicas (elaboradas pelo staff técnico do banco central). Recorde-se que, em setembro, houve revisões em baixa das projeções de inflação, o que foi decisivo para que o BCE tenha, ainda com Draghi aos comandos, reiniciado o programa de compra de títulos e tenha baixado uma vez mais a taxa de juro dos depósitos.

Ainda assim, a expectativa do ING e da maioria dos economistas é que o novo arsenal de números não irá trazer grandes alterações em relação às previsões feitas em setembro. De acordo com essas previsões, há uma expectativa de crescimento do PIB de 1,1% em 2019, 1,2% em 2020 e 1,4% em 2021. Se nestes números não são previstas alterações, não é de excluir que as projeções de inflação possam ser ligeiramente revistas em alta, ainda assim mantendo-se muito próxima dos valores atualmente previstos — 1,1% em 2019 e 1,0% em 2020.

No que diz respeito a Christine Lagarde, especificamente, os analistas vão estar atentos à forma como a nova presidente do BCE comenta algumas declarações que têm sido feitas por outros membros da cúpula do BCE — incluindo o economista-chefe, Philip Lane — sobre os riscos da política monetária extraordinária, designadamente relacionados com o efeito das taxas de juro negativas sobre os balanços dos bancos e sobre a atividade de crédito na economia. “Vamos estar a olhar de forma muito atenta para perceber se há alterações na comunicação do BCE acerca dos efeitos adversos da política monetária — se houver, isso pode significar  que haverá alterações da política em 2020”.

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Muitos se recordam da entrada de rompante de Mario Draghi logo na sua primeira conferência de imprensa como presidente do BCE, no já longínquo outono de 2011. A julgar pelos escassos comentários que Christine Lagarde fez sobre política monetária nos últimos meses, não é de esperar o mesmo tipo de estreia que teve Draghi — que, de imediato, anunciou um corte da taxa de juro, revertendo o que tinha sido feito por Jean-Claude Trichet. O ING não antecipa grandes alterações na estrutura do comunicado lido por Lagarde, após a reunião, mas a sessão de perguntas e respostas, com jornalistas, poderá dar pistas importantes sobre o que Lagarde pensa da política monetária que tem vindo a ser seguida.

Em concreto, os analistas vão querer perceber melhor qual será a metodologia e âmbito — para não falar, obviamente, das conclusões — da análise aprofundada da política monetária que vai ser feita pelo BCE, o primeiro exercício desse género que é feito desde 2003. Essa análise aprofundada, que será decisiva para enquadrar os passos que irão ser dados nos próximos anos, ainda nem sequer foi anunciada formal e publicamente, mas dificilmente Christine Lagarde poderá fugir a falar sobre esse tema na conferência de imprensa que tem início marcado para as 13h30, hora de Lisboa.