Em 2015, há quatro anos, Xavi deixou o Barcelona, o clube de sempre. Ao contrário daquilo que se pensava e daquilo que era, em certa medida, expectável, o médio espanhol não terminou a carreira e decidiu passar os últimos anos no Qatar, ao serviço do Al Sadd. Ganhou um Campeonato, uma Taça e uma Supertaça sob a orientação de Jesualdo Ferreira e em maio, depois de o treinador português anunciar que iria deixar o clube no final da temporada e de Xavi decidir acabar a carreira, foi o escolhido pelo clube para assumir o comando técnico da equipa.

De Jesualdo, herdou três elementos portugueses na equipa técnica — Nuno Palmeiro, Pedro António e José Pedro Pinto. Esta época, a de estreia enquanto treinador, arrancou desde logo com a conquista da Taça do Qatar e está a prolongar-se no Mundial de Clubes, onde o Al Sadd eliminou esta quarta-feira o Hienghène Sport da Nova Caledónia para seguir para os quartos de final da competição, onde vai encontrar os mexicanos do Monterrey. Mas a época de estreia de Xavi enquanto treinador tornou-se também a época em que Xavi deixou de ter problemas em tornar público o quanto gosta de viver no Qatar: mesmo que essa assunção lhe traga repetidas críticas em Espanha.

Esta semana, numa entrevista à FIFA por ocasião precisamente do Mundial de Clubes, que está a decorrer no Qatar, o antigo capitão do Barcelona explicou que o país árabe lhe “deu tudo” a ele e à família. “É muito fácil viver neste país, muito confortável, sentimo-nos muito bem recebidos e muito seguros. O país está todo muito focado no futebol por causa do Mundial [de 2022, que vai ser organizado pelo Qatar]. Querem fazer um bom trabalho e acho que está a correr muito bem”, acrescentou Xavi, que entretanto foi convidado para ser um dos embaixadores do país no Mundial, integra o Comité Supremo da organização da competição e está ainda responsável pela supervisão da construção dos novos estádios.

Xavi jogou quatro anos no Al Sadd — e chegou a ser capitão — antes de terminar a carreira

“Tudo aquilo que estão a fazer, em termos de construção, tem o foco de organizar um grande Mundial. Há muitos estádios e as pessoas vão ficar impressionadas. O Qatar teve a sorte de ter quase dez anos para se preparar para este Mundial e vão fazer um grande trabalho”, concluiu o treinador do Al Sadd, em referência ao Campeonato do Mundo que será o primeiro a acontecer durante o inverno devido às altas temperaturas no verão e que levantou polémica desde a primeira hora, por suspeitas de corrupção no processo de escolha do país anfitrião.

Em Espanha, as declarações de Xavi não caíram bem a praticamente ninguém — até porque esta já não foi a primeira vez que o antigo internacional espanhol decidiu elogiar o Qatar e sublinhar o quanto gosta de viver no país. Em setembro, Xavi foi mais longe e explicou que tem noção de que “não vive num país democrático” mas que, ainda assim, “o sistema funciona melhor no Qatar do que em Espanha”. “Aqui temos paz de espírito, segurança. Deixamos a porta de casa aberta, o carro a trabalhar…a Núria [a mulher] até me diz que se continuarmos a viver cá vai ser melhor para os nossos filhos. No Qatar, as pessoas são felizes. É verdade que o regime não é democrático mas as pessoas são felizes. Vivem maravilhadas com a família real, andam com fotografias deles nos carros”, revelou o espanhol.

A proximidade de Xavi com Mohammed Al Thani, dono do Al Sadd e irmão do emir Tamim Al Thani, é aliás um dos grandes motivos das críticas da comunicação social espanhola ao treinador: que há três meses, por altura das primeiras declarações, o recordou das “133 vezes que ouviu o hino que agora despreza”, em referência às 133 internacionalizações que acumulou. Depois de em setembro o antigo jogador ter sublinhado que “o sistema” do Qatar era melhor do que o espanhol, o país natal de Xavi não está a perdoar as novas declarações que indicam que “é confortável” viver no país árabe. Pelo meio, o campeão da Europa e do mundo pela seleção de Espanha é já um dos principais embaixadores e parceiros do regime do Qatar.