“Esta conferência é exclusivamente sobre a Liga Europa, o tema deve ser esse. Compreendo que queiram encher alguns chouriços durante a noite mas não vai ser nesta conferência de imprensa”, disparou Rui Cerqueira, assessor de comunicação do FC Porto, na primeira pergunta a Sérgio Conceição sobre o que na verdade se passou no túnel do Jamor com o homólogo Pedro Ribeiro no intervalo do encontro frente ao Belenenses SAD. Não foi por haver esse desvio que deixou de ser o tema da semana – e que não ficará por aí. Mas se esse túnel ainda pode ser um problema para os dragões, a roda após esse empate também provou ser uma solução para outros males.

FC Porto vence Feyenoord com primeira parte de loucos e termina no primeiro lugar do grupo na Liga Europa

“Calma, calma… Somos melhores do que os outros”, atirou então o treinador dos azuis e brancos depois de uma partida que deixou a equipa a quatro pontos do líder do Benfica na antecâmara de todas as decisões em relação à Liga Europa. Pepe, no lançamento do encontro com o Feyenoord, pediu uma formação a correr e lutar muito numa imagem que resumiu “ser FC Porto”. Foi com esse espírito que, diante de uma equipa que não perdia há sete jogos desde que Dick Advocaat substituiu Jaap Stam no comando técnico, os portistas conseguiram não só segurar a vitória como sair em primeiro lugar do grupo. Otávio, aos 85′, andava a fazer dobras na área contrária a um Alex Telles cansado e a acusar um toque anterior que o deixou combalido. Soares, aos 33′, teve mais vontade do que a defesa contrária e fez de carrinho o 3-2 final. Mais do que ser brilhante, o FC Porto brilhou pelo que quis ser. E com essa atitude numa equipa com algumas alterações iniciais acabou por fazer a diferença no final.

Ficha de jogo

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FC Porto-Feyenoord, 3-2

6.ª jornada do grupo G da Liga Europa

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Deniz Aytekin (Alemanha)

FC Porto: Marchesín; Corona, Pepe, Marcano, Alex Tellex; Danilo, Uribe; Otávio, Luis Díaz (Sérgio Oliveira, 74′); Marega (Mbemba, 84′) e Soares (Zé Luís, 74′)

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Wilson Manafá, Nakajima e Aboubakar

Treinador: Sérgio Conceição

Feyenoord: Marsman; Geertruida, Botteghin, Senesi, Malacia; Toornstra (Ayoub, 72′), Fer, Kokçu (Tapia, 75′); Berghuis, Larsson e Sinisterra (Narsingh, 72′)

Suplentes não utilizados: Bijlow, Van der Heijden, Johnston e Burger

Treinador: Dick Advocaat

Golos: Luis Díaz (14′), Malacia (16′, p.b.), Botteghin (19′), Larsson (22′) e Soares (33′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Otávio (9′), Berghuis (45+2′), Marchesín (80′), Corona (83′) e Botteghin (90+1′)

Luis Díaz, com um movimento interior de costas para a baliza a receber de forma orientada à entrada da área e a rematar para defesa de Marsman para canto, deixou o primeiro sinal de perigo no jogo (6′). Berghuis, num livre direto em zona frontal muito perto do limite da área, obrigou Marchesín a defesa de recurso a uma “bomba” onde dava para desviar por instinto para a frente e pouco mais (10′). Se a noite, mesmo que de quando em vez sem chuva após o apito inicial, estava fria – e é provável que tenha tirado mais adeptos do Dragão –, as luvas dos guarda-redes pouco demoraram a ficar literalmente a escaldar. Primeiro as luvas, depois as redes. E qual é a probabilidade de haver quatro golos noutros tantos remates em oito minutos de um jogo decisivo? Poucas. Mas…

Marsman deu um chocolate de recordação ao FC Porto para o marcador ser inaugurado mas nem por isso a prenda chegou sozinha aos pés de Luis Díaz (14′): numa derivação de Marega para a esquerda do ataque, o maliano conseguiu estender a passadeira do flanco a Alex Telles para o brasileiro avançar e cruzar rasteiro para o toque final, que o guarda-redes holandês deixou passar por baixo dos braços com um efeito caprichoso – e o colombiano juntou-se aí a Zé Luís como um dos melhores marcadores dos azuis e brancos na presente temporada. Apenas 108 segundos depois, o segundo golo. Ou primeiro autogolo, como se queira: Soares ganhou em velocidade as costas da defesa contrária, cruzou para a zona de finalização e Malacia desviou para a própria baliza.

O conjunto de Sérgio Conceição tinha tudo para uma noite tranquila, agasalhada num resultado confortável e a sentir o quentinho dos 16 avos de final da Liga Europa (basicamente tudo aquilo que poderia beneficiar quem por casa estivesse a assistir ao jogo) mas, mantendo a cronometragem ao segundo, tão depressa construiu um sonho em 108 segundos como cavou o seu pesadelo em 181 segundos: na sequência de um canto na esquerda com uma marcação deficiente ao segundo poste, Botteghin conseguiu reduzir de cabeça a desvantagem (19′) e, apenas três minutos depois, Malacia foi lá à frente corrigir a infelicidade que o tinha colocado como protagonista para assistir Larsson na área para o golo do empate que gelou ainda mais o gélido Estádio do Dragão (22′).

Pouco depois, Sinisterra travou no relvado com a mão um lance confuso na área que teve Danilo como autor do último remate, num lance que mereceu muitos protestos e onde pareceu ter ficado por assinalar um penálti para os dragões. Não foi mas aquele braço acabou por dar uma mãozinha para a reintegração do FC Porto como equipa depois de um par de minutos onde os setores perderam ligação, caíram em sucessivos erros nas transições mal feitas que iam fazendo para a defesa e permitiram que os holandeses ganhassem vida. E não demoraria até ao golo seguinte, num cardápio de cinco em apenas 20 minutos: Marega conseguiu ganhar em profundidade, assistiu para o remate na passada de Otavio que Marsman não travou e Soares, de carrinho, fez o 3-2 (33′), também com protestos dos jogadores holandeses a propósito da forma como o brasileiro entrou sobre a bola nessa lance.

Pouco depois, na sequência de um canto, Soares conseguiu ganhar espaço na área para cabecear mas a tentativa saiu ligeiramente por cima da trave da baliza de Marsman. No verdadeiro carrossel de emoções que foi a primeira parte do jogo, foi quando o FC Porto conseguiu refrear essa parte e trouxe racionalidade que foi superior, ao manter a tendência do encontro mais “colada” até à elasticidade de Marega e Soares em profundidade nas costas da defesa holandesa que trazia perigo sempre que o passe longo entrava. Mas aquele que foi apenas o décimo jogo dos azuis e brancos na Europa com três ou mais golos ao intervalo estava longe de se encontrar já resolvido.

Os mesmos onzes, os mesmos jogadores, um jogo completamente diferente. Durante os primeiros 25 minutos do segundo tempo, houve apenas um remate de cada equipa (pelo menos daqueles que, além de contarem para a estatística, criam a ilusão mínima de golo) num encontro onde o mais importante passou a ser não falhar nas transições defensivas em vez de arriscar para criar desequilíbrios atacantes. A toada, essa, até convinha mais ao FC Porto, que pela incapacidade de chegar ao 4-2 andou a brincar com o fogo numa noite fria que acabou a escaldar para os comandados de Sérgio Conceição – e pelas melhores razões, acrescente-se.

Corona, num desvio involuntário na área, teve tanta vontade de evitar o golo do empate do Feyenoord e quase fez autogolo, acertando no poste da baliza de Marchesín (70′). Apenas três minutos depois, Narsingh, acabado de entrar e na primeira vez que tocou na bola, apareceu esquecido na zona de golo mas o guarda-redes argentino conseguiu fechar a baliza com uma “mancha” que segurou a vantagem dos dragões. O resto veio do banco, com a entrada de Sérgio Oliveira a estabilizar o meio-campo e a dar bola à equipa antes de Mbemba fazer subir Corona no terreno e dar outra consistência no plano defensivo. Se em Portugal o resultado estava feito, na Escócia estava ainda a fazer-se e um golo do Young Boys nos descontos frente ao Rangers colocou o FC Porto no primeiro lugar e como cabeça de série no sorteio dos 16 avos de final da Liga Europa, na próxima segunda-feira.