José Eduardo Martins já tinha comparado Luís Montenegro a um frasco de ketchup que se bate e não sai nada e que, quando sai, borra o prato. Agora, no meio de metáforas culinárias no programa Vichyssoise da Rádio Observador, o antigo secretário de Estado do Ambiente que apoia Pinto Luz continuou a bater no “frasco” Montenegro. E em Rui Rio. José Eduardo Martins explicou que apoia o autarca de Cascais, pois é “o único que está a sair fora desta cartilha duns quererem à viva força inventar no Luís Montenegro uma espécie de Pedro Passos Coelho B que ele não é nem nunca vai ser.” Pode ouvir o programa na íntegra aqui:

O antigo governante, um dos poucos críticos internos quando o ex-primeiro-ministro estava no poder, lembra que trabalhou com Passos Coelho em 1993 e prometeu não o voltar a fazer. O que cumpriu. Ainda assim José Eduardo Martins — que foi um dos críticos internos que Passos enfrentou — diz admirá-lo “imenso” e considera Passos Coelho “um homem superiormente dedicado à causa pública, superiormente inteligente, um homem culto, um homem com um sentido de missão, como acho que não conheci outro na vida”. E lá veio de novo a crítica antigo líder parlamentar: “Isso não é de todo o Luís Montenegro, embora não esteja aqui para desdourar o Luís Montenegro.”

Sobre o apoio que deu a Rui Rio nas últimas diretas, José Eduardo Martins confessa que o faz pensar que “às vezes era melhor estar quieto”. Isto porque considera que “Rui Rio fez um mandato péssimo, isolou-se muito e abriu muito pouco o PSD para fora.” Após as eleições, considera o apoiante de Pinto Luz, Rio “começou a gestão de meio-partido, entrou com o sentimento de que a missão era muito difícil e entrou um bocadinho contrariado. Há ali uma certa acrimónia contra metade do partido”.

Lembrando a ida do líder do PSD ao programa da Cristina esta semana, José Eduardo Martins destaca que “isto de ir aos programas de televisão dizer que ainda não se pôs o PSD na ordem já começa a parecer uma anacrónica fantasia de mestre-escola”. E explica: “Não se põe ninguém na ordem. As pessoas são livres, pensam, temos de nos habituar a lidar. Não estamos para chefiar uma ordem de aquiescentes.”

Desencantado com Montenegro e Rio, José Eduardo Martins aposta as fichas todas no candidato que apoia de tal forma que garante: “Não vou votar se o Miguel Pinto Luz não passar à segunda volta. Não vou fazer essa escolha. Não tenho que a fazer. Tenho direito à abstenção e sinceramente é uma escolha que provavelmente era o que devia ter feito na altura [das diretas de 2017] e não fiz.”

José Eduardo Martins rejeita a ideia de Passos e Rio terem visões ideológicas diametralmente opostas, uma vez que se se fizer “a lista do liberalão Passos Coelho e do social-democrata Rui Rio vamos ter muitas surpresas com o que cada um fez quando dissecarmos as medidas que cada um propôs.”

Quanto ao espaço que André Ventura parece estar a ganhar no panorama político, José Eduardo Martins diz que este é “um caso à parte e é um caso complicado para a direita”. O apoiante de Pinto Luz, destaca que o “conservadorismo autoritário é uma novidade enquanto expressão política porque o PSD e o CDS não lhe davam expressão política”, já que os partidos “acolhiam esses votos, mas não lhe davam expressão política”.

E isto, segundo José Eduardo Martins, é um problema acrescido, uma vez que a extrema-esquerda está normalizada, mas o que existe à direita do CDS não. “Ninguém se espanta que Costa faça coligações com partidos que acham que na Coreia do Norte se vive em paz, felicidade e democracia, mas toda a gente achará chocante se o PSD fizer uma coligação à direita com o André Ventura”, atirou. Apesar de considerar que “isso deve ser ao limite evitado”, lembra que “as maiorias de direita tornam-se mais difíceis se o André Ventura cresce”. Sobre se se tornará inevitável uma coligação com Ventura, José Eduardo Martins deixa a dúvida, dizendo que não sabe a resposta. “Se soubesse o que devemos fazer candidatava-me a presidente”, acrescentou.