Desde a meia-noite que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera já registou oito sismos nos Açores com magnitude superior a 3,0 na escala de Richter. O maior de todos, com magnitude 4,6, foi sentido às 07h47 desta sexta-feira a um quilómetro de profundidade. Outro, de magnitude 3,4 na escala de Richter, foi registado menos de 45 minutos depois. O mais recente foi registado às 12h17 locais (mais uma hora em Lisboa).

É assim desde 3 de novembro, quando a zona oeste do Faial começou a registar um aumento da atividade sísmica. Mas isso não é inédito. Nem preocupante, dizem os especialistas.

Em meados de novembro, após mais de mil sismos terem sido registados desde o início do mês no Faial, Rui Marques, presidente do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA), garantiu que esta “não é uma situação anormal”: “Não estamos a experienciar, com este incremento da atividade, algo que é diferente ou raro de acontecer”, garantiu. Por isso, a população “deve manter a serenidade”, pediu.

Isso mesmo explicou Miguel Miranda, presidente do IPMA, ao Observador no ano passado, quando os especialistas detetaram “crise sísmica” nos Açores em que, em 14 horas, foram registadas “mais de três centenas de sismos” com magnitude entre 1,9 e 3,2 na escala de Richter. O geofísico contou à época que as crises sísmicas nos Açores não são estranhas porque “a atividade sísmica não é homogénea e não acontece em intervalos regulares de tempo”: “Muitas vezes agrupam-se no tempo e no espaço”, comentou.

A atividade sísmica nos Açores é considerada alta, não só porque há uma grande frequência de tremores de terra no arquipélago, como também por causa da magnitude desses sismos.

Tudo isso acontece porque os Açores ficam mesmo por cima dos limites de três placas tectónicas: a euroasiática, a norte-americana e a africana. Entre a placa euroasiática e a placa norte-americana existe um limite divergente, isto é, elas afastam-se uma da outra e permitem que o magma que existe por debaixo da crosta terrestre suba para a renovar: é na zona desse afastamento, chamada Dorsal Médio-Atlântica, que a crosta terrestre se recicla, provocando uma grande atividade sísmica e vulcânica.

Enquanto isso acontece, a uma velocidade de cinco milímetros por ano, a placa africana vai-se afastando da placa norte-americana mas chocando e raspando contra a placa euroasiática.

No entanto, não há consenso sobre o que acontece exatamente entre a placa africana e as outras duas para afetar tanto a sismologia açoriana: “Não parece haver uma estrutura tectónica única e bem definida entre a Eurásia e a África na região dos Açores, mas antes uma larga faixa de acomodação de tensões entre essas duas placas“, explicou o geólogo José Madeira num estudo sobre a tectónica de placas associada a esse arquipélago.

Tudo isto provoca uma acumulação de energia nas rochas que compõem a superfície terrestre. Essa energia liberta-se quando os materiais das rochas alcançam a capacidade máxima. Isso poderia ter duas leituras: que sismos de magnitudes baixas como as registadas no Faial são como que avisos para um terramoto maior; ou que, se a energia é libertada desta maneira, não se acumula em demasia e previne-se um sismo maior.

A verdade, no entanto, é que os cientistas ainda não sabem qual das teorias está completamente comprovada — embora uma prevaleça em relação à outra. Em fevereiro do ano passado, quando uma série de sismos foram registados em Arraiolos, Fernando Carrilho, geofísico do IPMA, explicou que sismos tão pequenos podem significar que “há um sismo maior que pode estar em preparação”: “O que não podemos dizer é que por estarem a acontecer pequenos [sismos] se está a libertar energia e que isso previne um maior”.

Só não há certezas porque ainda não há forma de prever um sismo, já que “não são reconhecidas variações de parâmetros que permitam, por si só, estabelecer com certeza uma previsão de quando, onde e com que magnitude vai ocorrer”, disse o cientista na altura.

[Artigo atualizado às 16h31, com a indicação de mais um sismo registado às 12h17 locais]