Já podia ser chamado de efeito Thunberg. Se, na teoria do caos, quando uma borboleta bate as asas, há um tufão do outro lado do mundo, quando Greta escreve nas redes sociais, alguém vai reagir (a favor e contra) ao que a jovem sueca publica. Desta vez, a guerra passou-se no Twitter — onde mais? A dúvida é se a jovem ativista ambiental viajou sentada no chão de um comboio alemão (como a própria twettou) ou sentada confortavelmente em 1.ª classe (como diz a companhia). A verdade é um misto dos dois.

Vamos começar do princípio, para se perceber  polémica. Depois de sair da Cimeira do Clima, a COP 25 que se realizou em Madrid, a jovem de 16 anos anunciou que iria passar o Natal em casa, na Suécia, onde ficaria durante uns tempos para descansar. Até aqui, nada de novo, e Greta Thunberg — que se recusa a viajar de avião por causa das emissões poluentes — embarcou num comboio da alemã Deutsche Bahn.

No sábado, publicava no Twitter uma fotografia, sentada no chão de um comboio. A publicação dizia: “A viajar em comboios sobrelotados na Alemanha. E estou finalmente a caminho de casa!”

A reação dos internautas não se fez esperar. A Deutsche Welle escreve que rapidamente os utilizadores de transportes públicos se juntaram a Greta em comiseração. “Num país famoso pela pontualidade e eficiência, a Deutsche Bahn tem uma má reputação por atrasos, cancelamentos e comboios sobrelotados”, escreve a empresa pública de radiodifusão da Alemanha.

Em poucas horas, o post tinha milhares de visualizações e muitos alemães descontentes faziam chover críticas sobre o serviço da empresa na publicação original de Greta.

A própria empresa — numa publicação que mais tarde foi apagada, segundo o The Guardian — pedia desculpa à adolescente e dizia que estava a tentar melhorar os seus comboios. No dia seguinte, domingo, a posição da Deutsche Bahn mudou: enviou um comunicado de imprensa e publicou dois tweets.

“Querida Greta, obrigado por nos apoiar, aos trabalhadores ferroviários, na luta contra as alterações climáticas! Ficamos satisfeitos por ter estado connosco no [comboio] ICE 74 no sábado. E com 100% de eletricidade verde. Teria sido ainda mais simpático se tivesse relatado também a forma amigável e competente como foi tratada pela nossa equipa no seu lugar na primeira classe.”

Desta vez, não faltaram internautas a apontar o dedo à jovem sueca, lembrando-a de que um comboio sobrelotado não polui tanto como dois comboios com lugares vagos ou a acusá-la de fugir à verdade, quando afinal teria feito toda a viagem em primeira classe.

Como é habitual, Greta não deixou a Deutsche Bahn sem resposta. E assim como tem usado o Twitter para responder às críticas de presidentes da República, como o brasileiro Jair Bolsonaro ou o norte-americano Donald Trump, a ativista respondeu à empresa ferroviária, sem nunca fazer referência ao nome Deutsche Bahn.

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“O nosso comboio que vinha de Basileia foi retirado de serviço. Então tivemos de nos sentar no chão em dois comboios diferentes. Depois de Göttingen, consegui um lugar. Isto não é um problema, como é lógico, nunca disse que era. Comboios sobrelotados é um ótimo sinal, porque significa que a procura por essas viagens é grande!”, escreveu, de novo, no Twitter.

Feitas as contas, escreve o The Guardian, a jovem teve lugar no comboio passadas quatro horas de ter iniciado viagem e quando faltavam outras duas antes de ter de mudar de comboio em Hamburgo para seguir para o seu destino final.

Mensagem de Michelle para Greta: “Não deixes ninguém enfraquecer a tua luz”

Numa altura em que chovem críticas sobre Greta, a mais recente mensagem de apoio veio diretamente da família Obama, a anterior residente da Casa Branca, antes de Donald Trump ser eleito presidente dos Estados Unidos. “Não deixes ninguém enfraquecer a tua luz”, começou por escrever Michelle Obama, a antiga primeira-dama dos EUA, na sua página do Twitter. “Tal como as raparigas que conheci no Vietname, e por todo o mundo, tu tens muito para nos oferecer a todos.”

O conselho da mulher de Barack Obama para a jovem ativista ambiental de 16 anos, publicado na rede social na sexta-feira, é de que ignore os críticos e que se foque antes em todos aqueles que a apoiam.

Michelle Obama não faz qualquer referência a nomes, mas, nos últimos dias, dois presidentes atacaram a jovem sueca: o norte-americano Donald Trump e o brasileiro Jair Bolsonaro. “Ignora os que têm dúvidas e sabe que milhões de pessoas estão a torcer por ti”, termina a antiga primeira-dama.

O conselho chegou no mesmo dia em que Greta anunciou que irá passar o Natal em casa, na Suécia, e que depois fará uma pausa para descansar. “Estarei em casa durante o Natal e depois vou fazer uma pausa porque é preciso descansar”, afirmou em Turim. “De outra maneira, não conseguiremos fazer sempre isto”, disse a jovem, na mesma data em que pediu desculpas por dizer que políticos devem ser colocados “contra a parede”, uma expressão que gerou controvérsia.

Greta: “A trabalhar na raiva”

“Uma adolescente a trabalhar no seu problema de gestão de raiva. Atualmente a relaxar e a ver um filme à moda antiga com um amigo”. Foi com esta nova descrição no Twitter que Greta Thunberg respondeu a Trump. Depois de ter alterado o perfil para “Pirralha” em resposta ao presidente brasileiro Jair Bolsonaro, a ativista sueca repetiu a proeza para responder (de novo) a outro líder político.

Após a adolescente ter surgido na capa da Time como “Personalidade do Ano”, o presidente norte-americano comentou a escolha com um tweet: “Tão ridículo”, começa por escrever. “A Greta deve trabalhar no problema de gestão de raiva dela e, depois, ver um filme à moda antiga com um amigo. Acalma-te, Greta. Acalma-te.”

Dois dias depois do tweet, Thunberg respondeu com ironia e com a mesma técnica — a mudança de perfil no Twitter — com que respondeu a Bolsonaro quando o brasileiro criticou a cobertura jornalística que lhe é dada.

Ao sair do Palácio da Alvorada, residência oficial do Presidente do Brasil, Bolsonaro questionou na terça-feira a cobertura jornalística dada a Thunberg, que no último domingo usou a rede social Twitter para partilhar informação sobre o assassinato de mais dois indígenas no estado brasileiro do Maranhão. “A Greta já disse que os índios morreram porque estavam a defender a Amazónia. É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessas aí. Pirralha”, disse o chefe de Estado aos jornalistas, em Brasília.

Para além de ter sido eleita personalidade do ano pela revista Time, Greta Thunberg entrou para o ranking das revista Forbes das mulheres mais poderosas do mundo. Ficou em centésimo e último lugar na lista encabeçada por Angela Merkel, a chanceler alemão.