O Hamaca, um coro multiétnico sediado em Brasília, tem como missão integrar refugiados e imigrantes residentes na capital brasileira, ensinando-lhes português através da música e do contacto com os locais, disse à Lusa o maestro responsável pelo projeto.

Em outubro do ano passado, quando se reuniu pela primeira vez, o grupo coral Hamaca, fruto de uma parceria entre a Casa da Cultura da América Latina e da Universidade de Brasília (UnB), tinha cinco integrantes. Hoje, pouco mais de um ano após a sua formação, são 20 as pessoas que procuram integração social através da música.

Mas nem só de estrangeiros se forma este grupo, cuja maioria é mesmo brasileira.

“A base deste projeto é trazer integração social através de duas plataformas: o ensino de português oral, de preferência o português formal, para que possam ter oportunidades de emprego; e propiciar um ambiente para amizades. No início pensamos numa comunidade só para estrangeiros, mas percebemos que isso os iria fazer ficar mais afastados da sociedade”, explica o regente do coro, Airan de Sousa.

Jennifer Astrudillo, uma refugiada venezuelana de 37 anos, é a mais recente integrante do Hamaca, tendo conhecido o projeto através de um membro da Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) há cerca de dois meses, após ter-se mudado com a sua filha para Brasília.

“Pediram-me que interpretasse uma estrofe de uma canção típica do meu país e, após a minha performance, perguntaram-me se eu conhecia o Hamaca (…) e indicaram-se que o coro tinha outros venezuelanos”, destaca Jennifer, frisando que esse foi um fator decisivo.

“Gosto muito da forma como compartilhamos, não há discriminação, nem xenofobia, o que é importante. Tratamo-nos como se fossemos a mesma gente, sem distinção de raças, crenças, pensamentos ou cor. Tem-me ajudado muito, já conheci muitas pessoas, e compartilhamos as nossas culturas mutuamente”, conta.

Mas a música não é novidade na vida da venezuelana. Com uma trajetória musical de mais de 15 anos, Jennifer Astrudillo cantou em vários coros e atuou como solista no seu país de origem.

Questionada sobre se pretende regressar à Venezuela, a refugiada garante que sente esse desejo, mas que por agora se vai fixar no Brasil, na procura por um futuro melhor para si e para a sua filha.

Numa situação totalmente diferente está o venezuelano Vansi Tovar, de 51 anos, proveniente de Caracas e que deixou o seu país em 2014, rumo ao Brasil, antes da crise.

O projeto de vida de Vansi sempre passou por viver em vários países, e o sonho de se mudar para o Brasil sempre o acompanhou. Cresceu numa comunidade de imigrantes portugueses e, por isso, sempre sentiu interesse em aprender a língua, achando que esse contacto prévio com o dialeto o iria ajudar no momento de se mudar para o Brasil.

Contudo, revela que sentiu dificuldades de comunicação na sua chegada ao país vizinho, e que o Hamaca foi uma grande ajuda nesse processo de integração.

“Eu vim para o Brasil para me nivelar. Saí de lá (Venezuela) pouco antes da crise, em 2014, mas também já pressentia a sua chegada. (…) Já no Brasil, eu morava com um amigo, e ele ficou sabendo do coro, contou-me e eu aderi. Cantava no banheiro, mas queria cantar de verdade. Sempre gostei muito de música”, partilha com a Lusa o venezuelano, que atua como baixo.

Da Costa do Marfim chegou Rachmyne Diabaté, de 29 anos, sobrinha de um diplomata que se mudou para Brasília em trabalho, e que conseguiu trazer a jovem para estudar engenharia.

“Achei muito boa a diversidade das pessoas do coro, assim como o acolhimento. São todos abertos, curiosos, simpáticos. Aqui não tive as barreiras que enfrentei na faculdade ou em outros lugares. Aqui as pessoas já chegam com um sorriso, são mais acolhedoras e dá vontade de ficar no meio desse tipo de gente”, elogia a costa-marfinense.

Rachmyne identifica ainda o facto de ter acesso à língua espanhola e a outros dialetos do Brasil, como outra das qualidades do Hamaca.

Do lado brasileiro, destaca-se Pedro Simões, um estudante universitário de 19 anos, e um dos mais recentes membros do coro. O jovem não esconde a alegria de poder fazer parte do grupo, apesar de sublinhar que a música não é, de todo, o fator que o atraiu.

“Nunca planeei estudar música. O que ocorreu foi que uma amiga viu que eu estudava fonética, e ao saber das minhas dificuldades nessa temática, sugeriu a minha entrada no coro, e eu vi que poderia ser um reforço para essa disciplina”, indica Pedro Simões, acrescentando que acabou por se “encantar”, tanto pela música, como pelos colegas.

“Eu não cresci a ouvir falar outras línguas e a ter contacto com outras culturas, e o coro dá-nos a oportunidade de conhecer pessoas que, de outro modo, só teríamos conhecimento através de estereótipos ou pela televisão. Vemos a questão venezuelana nos jornais e reduzimos a questão à política e à crise, e esquecemos da cultura, do povo, e que antes da crise existia outra Venezuela”, acrescenta.

Fernanda Caliandra, de 26 anos, é outra brasileira que viu no Hamaca a oportunidade de desenvolver o seu projeto pessoal musical.

“Recentemente, o maestro Airan deu-me um espaço muito bom para fazer outras coisas que gosto, que é não só cantar parada, como nos coros convencionais, mas sim ficar à vontade, movimentar-me como quiser. Para mim, dança e música é uma coisa só. Ele deu-nos também a liberdade para nos vestirmos como quisermos, de termos a nossa individualidade, apesar do objetivo conjunto do grupo”, detalha.

Airan de Sousa, que conta com 29 anos de experiência no ramo musical, dá oportunidade aos estrangeiros, que vão entrando e saindo do grupo conforme as suas disponibilidades, de indicarem músicas dos seus países de origem, conferindo assim ao Hamaca uma sonoridade multicultural única e diversa, que vai sendo apresentada em concertos na capital brasileira.