O ex-eurodeputado e fundador do Livre, Rui Tavares, deu a sua primeira entrevista depois da crise interna do partido a propósito da controversa abstenção da deputada Joacine Katar Moreira sobre a Palestina, bem como do episódio em que chamou um GNR para evitar jornalistas, referindo que estas não polémicas “não [são] o fim do Livre”.

“Eu sinto-me orgulhoso dos meu camaradas e confiante de que isto, ao contrário do que nos vaticinam, não é o fim do Livre mas, se calhar, pode ser o princípio do Livre”, disse o fundador daquele partido numa entrevista à Notícias Magazine. “Aquilo que distingue os partidos é como sabe resolver [as dificuldades].”

Rui Tavares deixou ainda assim vários recados alusivos às polémicas com Joacine Katar Moreira. Sobre o relacionamento com os media, Rui Tavares diz que este tem de ser de “cordialidade, responsabilidade, respeito e acessibilidade” e que, embora não se possa permitir que o Livre “[mande] no comportamento individual” dos seus representantes, tem de ser “muito claro em relação ao que se pode fazer em seu nome”.

O fundador do Livre rejeitou ainda a noção de que o partido possa ser monopolizado por uma só figura. “No Livre, qualquer pessoa será sempre um fim em si mesma, nunca ninguém será um meio para qualquer coisa. E, no dia em que isso acontecer, isso teria sempre a minha mais firmíssima oposição”, sublinhou.

Rui Tavares foi ainda chamado a comentar as polémicas em torno do assessor parlamentar do Livre, Rafael Esteves Martins, que se destacou logo na primeira sessão da Assembleia da República da presente legislatura ao vestir uma saia. Sobre esse tema, Rui Tavares disse não ter “absolutamente nenhum pejo em assumir um certo conservadorismo” no sentido em que “quem deve ser notícia é a deputada e o deputado” e não o seu assessor.

Orçamento aprovado com ajuda do Livre (ao lado do PAN e PSD-M) é “ideia peregrina”

Na mesma entrevista, Rui Tavares rejeitou ainda a ideia de o Livre poder vir a ajudar na aprovação de um Orçamento do Estado que, juntamente com os votos do PAN e dos deputados do PSD Madeira, permitam ao Governo que evite negociar com os partidos da “geringonça”.

“Não antevejo nenhum cenário onde isto possa acontecer, para não dizer que é uma ideia peregrina”, disse Rui Tavares, referindo que esse seria o “pior erro” que António Costa e Mário Centeno poderiam fazer.

O ex-eurodeputado indica que uma solução como aquela seria incompatível com “objetivos orçamentais como aqueles que [o Livre tem], de justiça social e de justiça ambiental”.

Parecer interno não pune Joacine, mas deixa-lhe várias críticas

Estas declarações de Rui Tavares surgem depois de a Comissão de Ética e Arbitragem (CEA) do Livre ter divulgado o seu parecer sobre a semana em que foi aberta uma fratura em público entre o Grupo de Contacto (órgão que funciona como direção do partido) e a deputada Joacine Katar Moreira.

Na origem da discórdia, que surgiu numa altura em que as relações já estavam tensas, esteve a abstenção da deputada numa votação de condenação de uma ação militar de Israel na Faixa de Gaza, alegando que tomou essa decisão por não ter conseguido entrar em contacto com ninguém da direção do partido de forma a confirmar o sentido do seu voto. Rui Tavares, à altura, disse que esse argumento “não colhe”.

No meio desta polémica, a deputada Joacine Katar Moreira acabou por abrir ainda mais a brecha entre ela próprio e a direção do partido, da qual faz parte, ao dizer que ganhou as eleições sozinha. “Fui eu que ganhei as eleições, sozinha, e a direção quer ensinar-me a ser política”, afirmou à altura a deputada ao Observador, esclarecendo que o apoio que teve ao longo da campanha só chegou “de quem não era do partido”.

O parecer da CEA do Livre acabou por determinar que não houve “divergências políticas substanciais” entre a deputada Joacine Katar Moreira e o partido, entendendo que a polémica da votação sobre a Palestina se baseou num “desentendimento procedimental”. Por isso mesmo, não foi aplicada qualquer medida disciplinar, mas ainda assim foi referido que “a articulação política” entre os órgãos dirigentes do partido e a deputada “tem de ser melhorada”.

Aquele documento contempla ainda assim algumas críticas a Joacine Katar Moreira, referindo que “não se revê” nas declarações da deputada sobre a suposta falta de apoio da direção à sua candidatura nas legislativas. Além disso, sobre o episódio da escolta da GNR para evitar as perguntas de jornalistas, o parecer diz que “o gabinete parlamentar não adotou uma postura de reserva” nos dias da polémica e, quando tentou fazê-lo, “não conseguiu gerir da melhor forma a sua relação com a comunicação social”.