Os comerciantes da baixa de Faro estão pessimistas quanto às previsões de vendas na semana que antecede o Natal e há mesmo quem aponte para a pior época natalícia dos últimos anos.

Há quem guarde até ao último dia para fazer as compras, mas este ano vai ser muito mau. Gostava de estar enganado”, lamentou Rui Martins, proprietário da “Relojoaria Farense”, um dos vários lojistas com quem a Lusa falou. Quando há 31 anos tomou as rédeas do negócio, a situação “era bem diferente”, mas foi-se alterando com o aparecimento das grandes superfícies onde, refere, o estacionamento “é mais fácil” e onde há “bem mais animação” que atrai os clientes.

A loja situa-se a meio da Rua de Santo António, em frente a um futuro hotel de quatro estrelas, estrutura que o lojista acredita que trará mais movimento e “turistas com outras posses” mas, por enquanto, o cenário é “muito negro”, até pelo facto de as ruas ficarem “desertas” às 17h30, revelou.

A rua de Santo António é a principal artéria comercial do centro histórico e uma das várias da baixa da capital algarvia apenas com acesso pedonal e foi, durante anos, a principal referência do comércio local.

Para tentar contrariar as fracas vendas, já se vê anunciado em algumas montras reduções de 20% ou até 50%. É o caso da loja de roupa de Maria Carla Faria, que há cinco anos mudou de ramo: “Há muito que não se via nada assim… A meio do mês não está bom e não antevejo melhorias” lamentou.

A comerciante alimentava a esperança de que as reduções — possíveis com a venda de artigos de outras estações — lhe trouxessem mais clientes, mas considera que este ano “está difícil de perceber”, já que os outros colegas se queixam do mesmo, “até nos centros comerciais”, adiantou.

O comércio local tem sofrido com o aparecimento das grandes superfícies e na baixa da cidade de Faro já não existe sequer uma loja de brinquedos. A última fechou há poucos anos para se tornar em mais um estabelecimento de restauração.

São estes estabelecimentos — cujo número tem vindo a aumentar no centro da cidade — que o comerciante Nuno Rocha, proprietário da loja Retalhos de Portugal, afirma que “ainda se vão safando”. A sua loja é dedicada à venda de produtos portugueses e encarada pelos locais como “sendo para turistas”, por isso “nem entram”, nem mesmo para comprar alguns presentes especiais no Natal, referiu. “Hoje fiz 19 euros e ontem 35, assim não dá. Fogem todos para os centros comercias” desabafou o lojista.

A ausência de lojas âncora, que chamem as pessoas para o centro da cidade, é outro dos problemas que aponta, dando como exemplo o fecho da loja Zara, na rua de Santo António, cujas consequências se fizeram sentir em todo o comércio local.

Os cabazes de Natal chegaram a ser uma boa oportunidade para as lojas de produtos tradicionais mas, este ano, nem esse nicho as tem ajudado, lamentou Celeste Conceição. “Este ano nem um vendi e estamos a menos de duas semanas da ceia de Natal”, queixou-se a lojista, que há onze anos promove os produtos da região na “Dispensa Algarvia”, dizendo acreditar que este ano seja “um dos piores”.

Posição bem diferente tem a responsável da perfumaria “Quinta Essência”, onde as clientes aguardam pela sua vez, muitas com os produtos já encomendados. “Temos de mudar de atitude” começou por dizer, acrescentando: “as pessoas têm de parar de se lamentar e reforçar a ligação humana” adiantou, enquanto se dividia entre o atendimento, a reposição e uma graçola a uma das clientes.

Há 22 anos a aconselhar os clientes — de quem até “sabe as datas de aniversário” –, Maria João revelou que a internet também se tornou numa ameaça para o comércio tradicional, mas, ainda assim, as vendas não reduziram “muito”, apenas a obrigaram a “trabalhar o dobro”.