Cerca de 12 mil crianças vivem atualmente nos campos de refugiados localizados nas ilhas gregas e destas apenas 1% “vai à escola”, denunciou esta segunda-feira o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

“As crianças estão desesperadas, o acesso à educação é um grande problema, especialmente nos sobrelotados campos de registo e de acolhimento de refugiados [conhecidos como hotspots] localizados em cinco ilhas gregas no Mar Egeu (Lesbos, Samos, Chios, Leros e Kos)”, lamentou, em declarações à agência France Presse (AFP), o porta-voz do ACNUR na Grécia, Boris Cheshirkov.

No total, mais de 35 mil pessoas, incluindo cerca de 12 mil menores, vivem atualmente nos hotspots nas cinco ilhas, que foram planeados para ter uma capacidade máxima de 5.400 a 6.200 pessoas. A ausência de escolaridade das crianças refugiadas deve-se principalmente à falta de coordenação entre as autoridades locais e o Estado grego para o transporte destes menores para a escola ou pelo atraso no envio de professores e de formadores para darem aulas aos migrantes nas escolas públicas, segundo a organização. “As crianças precisam de ter normalidade, de estarem nas aulas com outras crianças”, sublinhou o porta-voz.

Para tentar colmatar algumas falhas, o ACNUR e algumas organizações não-governamentais (ONG) estão a organizar cursos de línguas ou outras atividades para crianças migrantes, mas, segundo frisam, estas ações não pretendem substituir a escolaridade oficial. “Três crianças de uma família síria, que chegou há quatro meses a Lesbos, nunca foram à escola. No seu país de origem, eles eram muito pequenos para serem escolarizados e, agora na Grécia, quando atingirem a idade apropriada, não há escola para eles”, relatou Boris Cheshirkov.

Apesar de ainda estar longe da fasquia que o país atingiu em 2015, quando recebeu um milhão de refugiados, a Grécia voltou a ser em 2019 a principal porta de entrada para a Europa dos migrantes e dos requerentes de asilo procedentes da vizinha Turquia.

Os hotspots nas ilhas gregas foram inicialmente criados para períodos de permanência limitados, mas os requerentes de asilo acabam por ficar nestes campos durante vários meses. Várias ONG têm denunciado as condições de vida muito precárias que enfrentam os migrantes nestes campos.

Em declarações recentes em Bruxelas, o presidente internacional da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), Christos Christou, assegurou que a situação dos campos de registo e de acolhimento de refugiados nas ilhas gregas é comparável aos cenários verificados pela organização em partes do mundo “afetadas por desastres naturais ou em zonas de guerra”.

Durante uma recente visita à Grécia, o Alto Comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, também classificou as condições dos campos nas ilhas gregas como “extremamente preocupantes”.

Em novembro passado, o Governo helénico anunciou um plano que prevê encerrar alguns dos maiores campos de processamento e de acolhimento de refugiados nas ilhas gregas e substituí-los por novas estruturas, que funcionarão em regime de detenção. O plano suscitou as críticas de autarcas locais e de organizações internacionais, que denunciaram uma “violação do Direito Internacional dos requerentes de asilo”.