O analista da Economist Intelligence Unit (EIU) que segue a economia de Macau considerou esta segunda-feira à Lusa que a ideia de Pequim transformar o território num centro financeiro arrisca aprofundar a dependência económica do setor do jogo.

A ideia de lançar uma bolsa de valores de Macau, encorajando os grandes casinos a dispersarem capital em bolsa, “poderia, ironicamente, aprofundar a dependência do território do setor do jogo, já que o desempenho do mercado ficaria ligado ao crescimento das receitas dos casinos”, disse Nick Marro, em declarações à Lusa.

O analista da EIU reagia assim à proposta que Pequim deverá avançar nos próximos dias sobre o aprofundamento da vertente financeira de Macau, criando uma bolsa de valores imobiliários, garantindo terras para Macau se desenvolver na China continental e conferindo-lhe políticas favoráveis ao setor financeiro em pé de igualdade com Hong Kong.

“Já temos visto alguns passos discretos para aprofundar o desenvolvimento do setor financeiro em Macau no último ano, incluindo através da emissão de títulos de dívida no verão, e isto alinha-se com a política antiga de diversificação da economia face à enorme dependência atual do jogo e do turismo”, salientou Nick Marro.

No entanto, alertou, “os setores financeiros não nascem da noite para o dia, e qualquer progresso nesta área iria necessitar de uma estratégia empenhada e de longo prazo”, já que Macau “iria competir com Hong Kong e Shenzhen, que já têm centros financeiros bem estabelecidos”.

Nas declarações à Lusa, o perito da unidade de análise económica da revista britânica The Economist afirmou que “tentar mitigar esta concorrência através do foco em empresas portuguesas ou em ‘start-ups’ teria um efeito negativo, já que funcionaria contra os mercados de capitais, já que iria estar a limitar o foco do território numa parte incrivelmente pequena do mercado”.

Outra das dificuldades que fazem este analista estar reticente quanto à eficácia da criação de um novo centro financeiro tem a ver com a qualificação da mão de obra local nesta área.

“Não vemos que o talento da cidade seja suficientemente qualificado para sustentar o desenvolvimento de um mercado de capitais ambicioso”, disse o analista, considerando possível que um dos requisitos para a atribuição de novas licenças de jogo possa ser a listagem em bolsa.

Isso, concluiu, “iria aprofundar a dependência de Macau face ao jogo e turismo”, o que seria negativo tendo em conta os objetivos do Governo.

A agência de informação financeira Reuters escreveu na semana passada que o Presidente da China, Xi Jinping, vai anunciar um conjunto de medidas políticas destinadas a diversificar a economia de Macau face aos casinos, aprofundando a vertente financeira.

“A ideia está a ser vista pelas autoridades em Macau como uma recompensa por terem evitado os protestos anti-governamentais que tem assolado o vizinho Hong Kong nos últimos seis meses, e incluem o estabelecimento de uma bolsa em moeda chinesa e um centro de pagamentos em renmimbis já em preparação, bem como a alocação de terras para Macau se desenvolver na região vizinha da China continental”, lê-se no site da Reuters.

Macau assinala na sexta-feira os 20 anos da transferência de poder de Portugal para a China e a tomada de posse do novo Governo liderado pelo ex-presidente da Assembleia Legislativa, Ho Iat Seng, com destaque para a presença do Presidente Chinês.

Esta é a terceira vez que Xi Jinping visita o território. Em 2009, enquanto vice-presidente, deu posse ao agora chefe do Executivo cessante, Fernando Chui Sai On. Em 2014, como Presidente, deu posse ao mesmo chefe do Governo para um segundo mandato.

De acordo com um programa divulgado no sábado pelo Gabinete de Comunicação Social (GCS) de Macau, a delegação de Pequim liderada pelo líder chinês chega ao território na quarta-feira à tarde, não estando prevista qualquer atividade nesse dia. Sem pormenores, o mesmo programa contempla um encontro na tarde de quinta-feira à tarde, seguido de um jantar e de um sarau cultural.