Em Portugal, Jorge Jesus foi campeão nacional mais do que uma vez e treinou dois dos três maiores clubes portugueses. Na Arábia Saudita, Jorge Jesus conquistou uma Supertaça e treinou o maior clube do país. Ainda assim, nunca — em nenhum dos dois países — atingiu o absoluto nível de estrelato que hoje tem no Brasil. Depois de levar o Flamengo à vitória no Brasileirão e à glória na Libertadores quase 40 anos após a última vez, Jorge Jesus é muito mais do que um treinador de futebol no Brasil. É uma celebridade, um ídolo e um nome inconfundível: e tudo isso vem com quase tantas desvantagens quanto vantagens.

Numa entrevista ao programa Fantástico da Globo, o treinador português falou precisamente sobre os sacrifícios a que esse estatuto o obriga. “Eu adoro correr, se não correr fico com uma adrenalina muito grande. Faço corrida, faço ginásio. Sou treinador de mim mesmo. Estou num clube que tem a maior torcida do Brasil e do mundo. Lidar com essa situação não é nada de novo. Então, se eu quero correr e alguém me reconhece, não dá, estou sempre a parar. Tenho que me camuflar um pouco, com um chapéu e uns óculos. Mesmo assim, reconhecem-me, mas faz parte”, revelou Jesus. Mesmo obrigado a usar chapéu e óculos para passar algo despercebido, o técnico continua igual a si mesmo: e foi assim que fez a antevisão do jogo desta terça-feira, contra o Al-Hilal que treinou até janeiro, na meia-final do Mundial de Clubes.

“A ideia foi cada vez mais darmos responsabilidade à meia-final. No Brasil, fala-se muito do Liverpool e esquecem que temos um jogo antes. Esquecem por ser um clube saudita, por não ser da Europa e não ser valorizado”, explicou Jorge Jesus. A “equipa que montou”, como o próprio referiu, era ainda assim o principal adversário do Flamengo no Mundial de Clubes que está a decorrer no Qatar — e o obstáculo a ultrapassar para chegar a uma final onde estará, muito provavelmente, o mesmo Liverpool que os brasileiros venceram em 1981 (os ingleses jogam a outra meia-final esta quarta-feira, com o Monterrey).

Jorge Jesus (e o Flamengo) vai reencontrar o Al-Hilal nas meias-finais do Mundial de Clubes: e até teve direito a dedicatória especial

Na hora de escolher o onze inicial para defrontar o Al-Hilal, e tal como muitos adeptos do Flamengo diziam nas redes sociais antes do arranque do jogo, era possível “dizer de cor” a equipa que Jorge Jesus tinha escalado para a meia-final. Era não só o onze tipo do treinador português no Rio de Janeiro como também o onze que há menos de um mês, no final de novembro, entrou no Monumental de Lima para discutir a final da Libertadores com o River Plate. Em lógica vencedora, afinal, não se mexe: Arão a recuar para o espaço entre os centrais na primeira fase de construção, Rafinha e Filipe Luís a oferecerem largura desde logo nas laterais, Arrascaeta de um lado a explorar zonas mais interiores e Bruno Henrique a abrir na esquerda para soltar Gabigol na frente.

Os primeiros minutos de jogo trouxeram desde logo um Al-Hilal mais ofensivo do que aquele que se tinha apresentado perante o Espérance na eliminatória anterior: mais que não fosse pela inclusão de Gomis e Giovinco, dois experientes elementos ofensivos com passagem pelas principais ligas europeias, no onze inicial. Foi do antigo internacional italiano que acabou por surgir o primeiro aviso dos sauditas, quando depois de um pontapé de canto apareceu a rematar já na grande área para uma boa defesa de Diego Alves (7′). O Flamengo, longe de parecer surpreendido com a intensidade adversária, estava lento na reação à perda de bola e não conseguia prolongar a posse por longos períodos de tempo, falhando normalmente a transição vertical ou permitindo desarmes quando explorava a profundidade nos corredores.

Naquela que foi a melhor ocasião da equipa de Jorge Jesus em toda a primeira parte, Gerson surgiu na zona da meia lua a rematar em vólei depois de um canto, mas atirou ao lado (15′) — este lance, onde era visível alguma inexperiência e se adivinhava uma certa displicência por parte da defesa saudita, acabou por tornar-se único até ao intervalo. Do outro lado, o Al-Hilal permanecia mais perigoso do que o Flamengo, a entrar no último terço principalmente a partir do flanco direito do ataque, o lado esquerdo da defesa brasileira que já havia dado problemas na final da Libertadores. Diego Alves ainda evitou o golo de Al-Dawsari com uma grande defesa numa primeira ocasião (16′) mas não conseguiu repetir o feito apenas dois minutos depois.

Al-Dawsari abriu o marcador ainda durante os primeiros 20 minutos

Com um bom lance de entrosamento, Giovinco soltou o lateral Al-Burayk no corredor direito. Carrillo, o ala ex-Sporting e Benfica, fez um movimento sem bola para dentro que levou consigo dois defesas do Flamengo e deixou Al-Burayk solto para cruzar sem pressão. Dentro da grande área, Al-Dawsari rematou de primeira e abriu o marcador no Qatar (18′). O golo do Al-Hilal, claramente semelhante ao de Santos Borré que colocou o River Plate em vantagem na final da Libertadores, era a prova de que era pelo lado esquerdo da defesa do Flamengo que os sauditas tinham planeado entrar e fazer estragos. E tal como na final de Lima, a equipa de Jorge Jesus estava a permitir a superioridade adversária e a desvantagem embrionária, partindo desde logo para um jogo em formato remontada.

Depois do golo, o Al-Hilal recuou as linhas e passou a jogar com o bloco mais atrasado e precavido — mas nem por isso o Flamengo criou mais perigo. Os brasileiros controlaram de forma superior a posse de bola quando se viram em desvantagem, num dado estatístico que foi permitido pelos sauditas, mas não conseguiam fazer mais do que rendilhar a construção à volta da grande área. A linha mais recuada do Al-Hilal, formada originalmente por quatro jogadores, transformava-se numa densa linha de seis quando Carlos Eduardo e Cuéllar se colocavam no espaço entre os centrais e os laterais e os jogadores de Jesus não encontravam linhas de passe para explorar a profundidade. Na ida para o intervalo, com o Al-Hilal a ganhar e com um pé na final de sábado, Jorge Jesus precisava de encontrar uma solução para ultrapassar a boa organização defensiva adversária.

Na segunda parte, sem qualquer alteração feita pelos treinadores, notou-se desde logo que o Flamengo tinha regressado com mais intensidade — a reagir mais depressa à perda da bola e sem a ligeira apatia que tinha sido visível até ao intervalo. O golo do empate, que acabou por deixar a partida em aberto quando faltava praticamente metade do jogo para disputar, surgiu ainda dentro dos cinco minutos iniciais e juntou Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta. O primeiro soltou o segundo na direita e o brasileiro cruzou rasteiro para o interior da grande área, onde o uruguaio surgiu totalmente sozinho e já com o guarda-redes saudita batido a encostar para o empate (49′).

A cerca de 20 minutos do apito final e numa altura em que o jogo tinha caído em ritmo e velocidade, o treinador do Al-Hilal decidiu fazer a primeira alteração, tirando Giovinco para lançar o avançado Omar. Jorge Jesus, por outro lado, parecia estar com alguma renitência em aceitar que era necessária mudar alguma coisa na equipa: mais calmo do que é habitual, o treinador ouvia o adjunto João de Deus mas tardou em tomar uma decisão, reiterando a ideia já confirmada de que confia mais nos onze titulares do que nos restantes elementos do plantel. Ainda assim, e face à dificuldade em manter a superioridade no meio-campo e partir daí para o ataque, Jesus optou por trocar um apagado Gerson por um experiente Diego, que tinha como principal tarefa fazer a ligação entre Arão e os homens mais adiantados.

Bruno Henrique marcou o golo que colocou o Flamengo em vantagem

Ora, foi precisamente o antigo médio do FC Porto que acabou por construir que nem puzzle a jogada que abriu caminho à vitória do Flamengo. Com um passe que descobriu Rafinha em velocidade na direita, Diego desmontou por completo a defesa do Al-Hilal e permitiu ao lateral o cruzamento perfeito para o primeiro poste onde Bruno Henrique, totalmente sozinho, cabeceou para o golo da vantagem (78′). De cabeça perdida e sem qualquer discernimento, os sauditas acabaram por permitir ainda o terceiro golo, marcado na própria baliza por Al-Bulayhi depois de um cruzamento de Bruno Henrique à procura de Gabigol (82′).

Até ao final, Carrillo ainda foi expulso depois de uma entrada muito dura sobre Arrascaeta mas o resultado não voltou a alterar-se. Jorge Jesus, que tinha a fama de ter pé frio na hora das grandes decisões e de não ser treinador de finais — ficam para a história as duas da Liga Europa perdidas com o Benfica –, parece ter aquecido com o calor do Brasil e é agora perito em reviravoltas e reações a desvantagens. Depois de, de forma dramática, ter conquistado a Libertadores com dois golos perto do apito final, conseguiu no Qatar dar a volta a uma meia-final que parecia muito complexa na ida para o intervalo. Contas feitas, o Flamengo está no Mundial de Clubes (e Jesus é o primeiro treinador português a conseguir esse feito) e vai ficar à espera do resultado desta quarta-feira entre o Liverpool e o Monterrey para saber com quem vai disputar mais um troféu.