“Preciso contar a história desde o princípio”, afirma Jorge Ferreira, responsável de manutenção. E começa. “Entrei na empresa com 17 anos. Na altura, queria sair debaixo das saias da mãe e alistei-me na Força Aérea Portuguesa, o que caiu que nem uma bomba lá em casa, sobretudo porque ainda estávamos em guerra. Por isso, o meu pai tentou arranjar-me um lugar aqui na empresa, para evitar que fosse mesmo chamado”. Parte da família já ali estava empregada, pelo que o lugar não lhe era estranho. “O meu avô trabalhara aqui, assim como o meu pai, dois tios e um primo. Esta unidade estava a abrir e, como tinha tirado um curso de eletricidade, entrei para a seção mecânica”.

Os dados pareciam estar lançados, mas a verdade é que Jorge Ferreira não sentia que já tivesse encontrado o seu caminho. “Aos 21 anos fui para o serviço militar e entrei para a Escola Militar de Eletromecânica, que formava elementos do Exército e da Força Aérea. Eu tinha de lá ir parar de alguma forma… Tirei o curso de especialista e, depois, comecei a estudar à noite. Quando acabei, regressei ao emprego na José Maria da Fonseca, mas ainda com planos de ir fazer outras coisas. Pensar noutros voos.” No entanto, três anos passaram e ele continuava na empresa. Foi nessa altura que viajou até aos Açores, à ilha de S. Miguel. “Aluguei um carro e fui passear um pouco sem rumo definido. Segui por uma estrada que acompanhava as plantações do chá Gorreana e dei por mim numa terra chamada Rosário. Cheguei ao fim do dia e parei num restaurante para jantar. Quando pedi a carta de vinhos, vi que estava listado o Periquita. Mandei vir uma garrafa e informaram-me que era a única que sobrava. Isso foi o mote para uma conversa que durou mais de uma hora com o dono do restaurante. Quando me vim embora, trazendo a garrafa vazia (que ainda guardei durante uns anos), percebi que aquele foi o momento em que senti que fazia parte de alguma coisa, de uma família. Perdi a vontade de ir para outro lado. Isto aconteceu oito anos depois de ter entrado”.  Hoje acredita que é aqui que deve estar, já homem casado, com um filho e dois netos.

Jorge Ferreira teve o seu momento de epifania num lugar a quilómetros de distância da sua casa, no lugar de Rosário. Quis o destino que a sua mulher respondesse também ela pelo nome de Rosário. E ainda há quem não acredite em coincidências.

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