O prémio Sakharov, distinção de excelência da União Europeia na defesa dos Direitos Humanos, foi atribuído ao ativista uigure Ilham Tohti. Atribuído, mas não entregue ao próprio. Foi isso que começou por registar o presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, na sessão realizada esta quarta-feira no hemiciclo em Estrasburgo: “Mais uma vez, esta cadeira está vazia, porque, no mundo em que vivemos, exercer a nossa liberdade de expressão nem sempre significa ser livre”. Já em 2018, o premiado estava detido no momento da entrega do prémio e só foi mais tarde foi libertado e o pôde receber.

Em vez de Ilham Tothi foi a sua filha, Jewher Ilham, a receber o prémio. A filha do ativista contou como o pai foi detido no aeroporto de Pequim quando se preparava para ir viver para os EUA em 2014. Jewer conta que o pai fez-lhe um pedido: “Não chores, não os deixes pensar que as mulheres uigur são fracas.” Desde então, nunca mais viu o pai, que em 2014 foi condenado a prisão perpétua pelo regime chinês sob acusação de separatismo.

“Não sei onde ele está hoje”, lamenta a filha que diz que a última vez que soube do pai foi em 2017. Jewer Ilham agradeceu o prémio e denunciou o que sofre a minoria uigur na China. “Não há atualmente liberdade para os uigures na China, quer seja na escola, em público ou mesmo em casa”, afirmou.

Os uigures são uma minoria étnica chinesa de origem muçulmana. Jewer Ilham destaca que o pai foi considerado como um “extremista violento, com uma doença que precisa de ser curada e uma mente que precisa de ser lavada”. Foi esta a justificação, denuncia a filha de Ilham Tothi, para o governo chinês colocar “um milhão de pessoas — provavelmente mais — ‘em campos de reeducação ou de concentração, onde os uigures são obrigados a abandonar a sua religião, língua e cultura, onde as pessoas são torturadas e algumas morreram.” Os chamados “China Cables”, documentos internos do Estado chinês, vieram reforçar a tese de que existem diversos atropelos aos direitos humanos nesses campos de “reeducação”.

A filha de Ilham Tothi pediu ainda aos eurodeputados para que encontrem uma solução e já chegou a sugerir, inclusive, um boicote europeu a empresas chinesas que tenham como base da produção esses “campos de concentração”.

Desde 1988 que o Parlamento Europeu atribui o Prémio Sakharov. Entre os nomeados havia outra a quem o prémio não poderia ser entregue: a brasileira Marielle Franco, uma ativista política e defensora dos direitos humanos brasileira, brutalmente assassinada em março de 2018.

Ilham Tohti foi um dos defensores de uma maior autonomia dentro da China, ao mesmo tempo que criou um site, o Uyghur Online,  onde refletia sobre a comunidade uigure. Foi través do Uyghur Online que fez várias críticas à ostracização da população uigure na China e defendeu uma maior sensibilização para o estatuto e o tratamento da comunidade uigure na sociedade chinesa. Para o regime chinês, isto é sinónimo de separatismo. Em 2019, Ilham Tohti foi também nomeado para o prémio Nobel da Paz.