Vinte anos após a transferência de administração de Portugal para a China, Macau deixou de ser uma “vila pacata” para se transformar numa “Las Vegas com cheirinho a Cacilhas”, onde, apesar do crescimento exponencial, a cultura portuguesa se mantém.

Esta é uma das principais ideias que resultam da longa metragem documental “Macau — 20 anos depois”, que o realizador Carlos Fraga e a produtora Helena Madeira fizeram e que se estreará na RTP no dia 19 de dezembro.

O filme é “uma viagem” por seis documentários que ambos fizeram, para o qual entrevistaram 85 pessoas e que demorou cinco anos a realizar, que abordam várias perspetivas desta relação: os macaenses em Lisboa, os portugueses em Macau, a portugalidade em Macau, a lusofonia em Macau, os macaenses em Macau e os chineses de Macau.

“Macau — 20 anos depois” é um filme que incide só na presença portuguesa neste período da pós-transição da administração de Macau de Portugal para a China, ocorrida em dezembro de 1999, tendo para isso o realizador escolhido, nos seis documentários, as intervenções dos entrevistados que abordam essa perspetiva.

Uma dessas intervenções resume a Macau dos dias de hoje como uma “Las Vegas ainda com um cheirinho a Cacilhas”, porque “apesar das grandes alterações que houve, de ter havido um crescimento exponencial de população, e os casinos e tudo aquilo, e de os portugueses dizerem que já não podem sair, que já não há aquele ambiente de cidade provinciana que havia anteriormente, mesmo assim, está ali lacrado, mantém-se essa forma de estar que é muito portuguesa”, afirma Helena Madeira.

A zona histórica de Macau é um bocadinho de Portugal no Oriente”, afirma outro dos entrevistados em “Macau – 20 anos depois”, o que leva à questão de saber se é só isso que resta da presença portuguesa em Macau, e se tudo o resto tem desaparecido.

Na opinião de Carlos Fraga, a cultura portuguesa “não se tem esbatido demasiado”. “Eu acho que não, graças aos chineses também — há que dizer as coisas –, que eles realmente estão empenhados em manter a identidade de Macau com essa particularidade da presença portuguesa”.

E se o realizador não consegue ser perentório a afirmar essa manutenção pela parte cultural, pela parte monumental tem “a certeza”: “as coisas estão preservadas, eles investem nisso”. “Porque é o que todos dizem e é a verdade, diferencia das demais cidades. Esta realmente tem aquele cantinho ali muito português, muito europeu”.

Para Helena Madeira, “há mesmo uma simbiose que paira no ar, que não se vê mas sente-se”. Macau “é efetivamente uma simbiose de Oriente com Ocidente. Não há dúvida nenhuma, porque [uma pessoa] vai a Macau, anda a passear pelas ruas no meio de milhões de chineses, vê ali uma casinha do tempo da administração portuguesa, vê as ruas com o nome em português e chinês, os autocarros também têm o destino em chinês e português”, descreve a produtora, acrescentando: “há toda uma atmosfera, todo um ambiente, que nos faz sentir em casa”.

Helena Madeira considera que a portugalidade “está ali lacrada no ambiente” e isso percebe-se até nos depoimentos dos chineses de Macau — que entram no sexto documentário, que se estreia no dia 19 na Cinemateca –, que viveram em Macau no tempo da administração portuguesa e que conviveram com portugueses.

Exemplo disso é um jovem músico macaense que diz que a cultura portuguesa está já no seu ADN. “Os chineses de Macau, que lá viviam antes desta administração, que cresceram lá, sentem essa diferença enorme entre eles, os chineses do continente e os chineses de Hong Kong, que têm o selo do império britânico. Os nossos têm o selo do império lusitano”, brincou.

Uma outra ideia veiculada pelos intervenientes no documentário é a de que a presença de Portugal deu a Macau uma certa paz, alegria e um maior relacionamento humano. “Nós somos pacíficos, somos pouco conflituosos, sabemos receber bem as pessoas, convivemos bem com as pessoas, somos boas pessoas”, diz Helena Madeira.

Uma das entrevistadas no filme diz que o macaense é “híbrido, não é continental nem português” e que é possível distinguir na rua, apenas olhando, quem é chinês de Macau e quem é chinês do continente, uma ideia corroborada por Helena Madeira, que diz que a forma de uma pessoa estar numa fila de autocarros, por exemplo, é suficiente para fazer essa distinção, porque o comportamento do chinês de Macau é mais próximo do ocidental, é aquilo que os próprios classificam como “mais civilizado”.

Uma das grandes questões relacionais entre Portugal e Macau é expressa por Carlos Morais, a viver desde 1990 em Macau, onde é diretor do jornal Hoje Macau e responsável por uma editora: “esta cultura portuguesa que se mantém lá, é o resistir culturalmente no meio de uma das maiores culturas do mundo”.

Como é que isto se explica, nem o realizador consegue, mesmo depois de todas as pessoas com quem falou, mas tenta uma hipótese, com base em depoimentos que recolheu de chineses residentes em Portugal. “Eles gostavam muito — e os jovens então ainda mais, que sentiam uma grande luta entre o que os pais lhes impunham e o que eles viam nos colegas da escola, no ambiente do dia a dia dos portugueses –, apreciam nos portugueses a capacidade de desfrutar do ócio, não tomar a vida como eles tomam, tão a rígida, tão hermética, tão rigorosa, e de entender a vida com algum gozo, de desfrutar um pouco da vida”.

Isto foi algo que Carlos Fraga detetou tanto nos chineses entrevistados em Portugal, como em Macau, e acredita que “isso estará muito na base dessa aceitação, de descobrir que a vida também é para viver, não é só aquela forma tão sofrida de viver”.

A dada altura do filme, Carlos Morais considera que Portugal é também um garante da liberdade, e os autores do filme, quando confrontados com esta afirmação, respondem recorrendo uma vez mais aos testemunhos dos próprios chineses residentes em Macau, que afirmam que se sentem livres, que têm liberdade de expressão e religiosa, e que “a vida descontraída que têm, na China continental já não a conseguiriam ter da mesma forma”.

Então dizem com prazer que em Macau consideram muito importante toda a história da presença portuguesa e defendem que se mantenha. Eles desejam que se mantenha, é sinal de que estão felizes”, afirma Helena Madeira.

Carlos Fraga completa: “manifestam receio em relação a que quando este período de transição acabar — que é daqui a 30 anos, que já passa a ser chinês, chinês, chinês –, manifestam alguma intranquilidade, não sabem o que é que vai acontecer, mas referem-se a isso com apreensão”.