Uma mulher que acusou um conhecido jornalista de televisão japonês de violação venceu, esta quarta-feira, um processo cível e irá receber uma indemnização de cerca de 27 mil euros (3.3 milhões de ienes). “Estou tão feliz”, disse Shiori Ito, a também jornalista que se tornou o rosto do movimento #MeToo no Japão, citada pela BBC, enquanto segurava um cartaz com a palavra “Vitória”.

Shiori Ito com o cartaz, onde se lê “Vitória”

Noriyuki Yamaguchi, que será próximo do primeiro-ministro japonês, disse que tencionava recorrer da decisão. O jornalista, de 53 anos, ainda interpôs um recurso contra Shiori Ito, em que pedia uma indemnização de um milhão de euros (130 milhões de ienes), mas foi rejeitado pelo tribunal.

Segundo o Guardian, a violação aconteceu em 2015, mas Shiori Ito só tornou o caso público em 2017, altura em que surgiu o movimento #MeToo. Aliás, segundo a jornalista, foi esse mesmo movimento, em que várias mulheres nos Estados Unidos e na Europa denunciaram casos de abuso sexual, que lhe deu forças para continuar com o processo, apesar de todas as críticas de que foi alvo.

Shiori Ito conta que foi jantar com Yamaguchi por causa de uma proposta de emprego. A jovem, que na altura era estagiária na Reuters, acredita que foi drogada, porque perdeu a consciência ainda durante a o jantar.

Quando recuperei os sentidos, com dores intensas, estava num quarto de hotel e ele estava em cima de mim”, recordou o jovem de 30 anos, numa entrevista à Agence France-Presse.

Shiori Ito apresentou queixa na polícia. De acordo com a jornalista, a polícia não fez qualquer teste — pelo que não consegue afirmar com toda a certeza que foi drogada — e obrigou-a a recriar o momento da violação, com um boneco de tamanho real, enquanto três agentes faziam perguntas íntimas e tiravam fotografias.

Foi-me dito que era essencial para a investigação.”

Como os procuradores consideraram que não havia provas suficientes contra Yamaguchi, a jovem interpôs uma ação cível, em que pedia uma indemnização de cerca de 90 mil euros (11 milhões de ienes).

Yamaguchi sempre negou as acusações, argumentando que tiveram relações sexuais consentidas. Em 2017, escreveu um artigo numa revista em que acusou Shiori Ito de ter consumido demasiado álcool e disse que “nunca tinha visto ou ouvido falar de ‘drogas de violação'”.

Numa conferência da imprensa, após ser conhecida a decisão do tribunal, Noriyuki Yamaguchi disse que tencionava recorrer

Esta quarta-feira, um tribunal de Tóquio considerou que Shiori Ito foi “forçada a ter relações sexuais, sem contracetivo, enquanto estava inconsciente e fortemente embriagada”, acrescentando que a jovem tem flashbacks da violação e sofre de ataques de pânico à conta do que aconteceu. E condenou o jornalista a pagar uma indemnização.

As violações são um tabu ainda hoje no Japão. Em 2017, um inquérito feito pelo governo concluiu que apenas 4% das vítimas apresentavam queixa à polícia.