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Há em “Star Wars: Episódio IX – A Ascensão de Skywalker”, de J.J. Abrams, que fecha (em princípio) a saga de ficção científica inaugurada por George Lucas em 1977 numa Hollywood muito, muito distante da de hoje, duas personagens secundárias cujo tamanho está no inverso da importância que têm na história. Elas são um dróidezinho monossilábico reativado por R2-D2 numa nave Sith perdida e que armazena informação fundamental; e um pequeno techie nativo de um planeta tiranizado pela Primeira Ordem, que faz uma intervenção cibernética vital a C-3PO. É refrescante que, numa produção tão descomunal como a deste nono e último filme de “Star Wars”, haja ainda espaço para personagens como esta dupla, e ela tenha o peso que tem no atarefadíssimo enredo.

[O trailer de “Star Wars: Episódio IX- A Ascensão de Skywalker”:]

Ou não fosse ele mesmo um fã da série, J. J. Abrams consegue, em “Star Wars: Episódio IX – A Ascensão de Skywalker”, responder às perguntas que ficaram no ar no filme anterior, “O Último Jedi”, atar todas as pontinhas soltas da sua história e deixar a saga devida e satisfatoriamente explicada, com as relações que é preciso estabelecer e as revelações que é necessário fazer.

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Os laços familiares continuam a ser aqui importantíssimos, a coragem, a amizade, a esperança e o sacrifício permanecem fundamentais, e como estamos no filme em que tudo se decide, o argumento de Chris Terrio e de Abrams vai buscar amigos e inimigos antigos, para ajudarem ou contrariarem Rey (uma Daisy Ridley cheia de garra) e os seus companheiros da Resistência no confronto com a Primeira Ordem e os Sith, e recupera, em formas várias, personagens bem-amadas de toda a saga. (Carrie Fisher marca presença não através da técnica de rejuvenescimento digital, mas em imagens não utilizadas dos dois filmes anteriores, e do primeiro “Star Wars”.)

[Veja uma entrevista com o realizador J.J. Abrams:]

O eterno tema do Bem contra o Mal, da Luz contra as Trevas, comum às epopeias mitológicas e às grandes narrativas da ficção popular que originalmente influenciaram George Lucas, continua subjacente à intriga, apesar da sobrecarga de sub-enredos que ela transporta. Abrams carrega em todos os botões emocionais certos e aciona todas as alavancas narrativa corretas para chegar aos fãs de “Star Wars”, que abrangem já diversas gerações, e há duelos em terra e batalhas no espaço como manda a tradição.

E “Star Wars: Episódio IX – A Ascensão de Skywalker” tem dois ou três momentos de altíssima voltagem visual e emotiva, que não deixarão de tocar fundo quer aqueles que seguem a saga desde o filme inaugural da primeira trilogia, quer os que só aderiram a ela mais tarde. O orçamento de 300 milhões de dólares está todo escarrapachado na tela, bem como o trabalho do exército humano e o aparato tecnológico mobilizados para uma produção deste calibre.

[Veja uma entrevista com Daisy Ridley:]

Mas embora, por um lado, preserve o ADN da série, “Star Wars: Episódio IX – A Ascensão de Skywalker” — e talvez por ser o seu derradeiro filme e tanta coisa estar em jogo dentro e fora dele, da satisfação dos espectadores às expectativas comerciais –, pelo outro, manifesta, incomodamente, todos os sintomas do modelo de produção que hoje tiraniza a indústria cinematográfica americana.

Temos a desmesura esmagadora e impessoal, a sensação de estarmos no interior de uma enorme e vertiginosa atração de parque de diversões temático, a história azafamada, contada a mata-cavalos, que se recusa a dar uma pausa ao espectador. A que se juntam a infiltração dos jogos de vídeo e a pesada influência dos filmes de super-heróis (a Força torna-se aqui num super poder que até permite ressuscitar os mortos) e de fantasia (a fortaleza do Imperador e dos Sith saiu de “O Senhor dos Anéis”).  

[Veja uma entrevista com Adam Driver:]

“Star Wars: Episódio IX – A Ascensão de Skywalker” é um filme de J.J. Abrams, um apaixonado da saga que teve a oportunidade e o privilégio único de conseguir trabalhar nela ao mais alto nível. Mas é também o filme dos executivos, dos contabilistas e dos diretores de marketing de um frio império de entretenimento comercial chamado Disney.