As pessoas aceitam perfeitamente a convenção de verem em palco atores vestidos e maquilhados como se fossem gatos humanizados a cantar e a dançar. Ou então o musical “Cats”, de Andrew Lloyd Webber, baseado no livro de poemas “nonsense” infantis de T.S. Eliot, Old Possum’s Book of Practical Cats (1939), estreado em 1981, não se teria transformado num dos mais famosos, lucrativos e longevos da história do teatro (é, nesta altura, o quarto musical em cena há mais tempo na Broadway em Nova Iorque e o sexto no West End londrino). Existe uma versão de “Cats” encenada e filmada propositadamente para “home video” em 1999, e nos anos 90, Lloyd Webber e Steven Spielberg tentaram, sem sucesso, transformar o musical numa animação de longa-metragem.

[Veja o “trailer” de “Cats”:]

Aquilo que Tom Hooper (“O Discurso do Rei”) nos propõe nesta adaptação ao cinema de “Cats” sobrecarregada de efeitos digitais não é carne nem é peixe. Ou seja, nem é o registo básico de uma representação do musical, nem um filme animado, mas sim um OCNI, um Objeto Cinematográfico Não Identificado, que fica bizarramente a meio caminho entre uma e outra coisa. É um filme mutante, um monstrozinho com dupla personalidade, uma coisa disforme que se situa algures entre uma encenação tradicional de palco (atores vestidos e maquilhados para parecerem gatos), e uma animação meio “realista”, meio virtual (atores tratados digitalmente e que tanto se assemelham a gatos, como são gatos que usam guarda-roupa humano). Este “Cats” é como que o produto de uma experiência genética em grande escala que deu para o torto.

[Veja uma entrevista com o realizador Tom Hooper e a atriz Francesca Hayward:]

Tudo fica ainda pior porque “Cats” não tem enredo. É uma sucessão de números cantados e dançados em que são apresentados vários tipos de gatos antropomorfizados que formam a tribo dos Jellicle de Londres, tendo a gata Victoria, candidata a pertencer ao grupo, como elemento unificador, e através dos quais T.S. Eliot analisa a personalidade e a psicologia destes felinos domésticos e a sua relação com os humanos. Funciona bem em palco mas não em cinema, e Tom Hooper não só não foi capaz de arranjar um expediente que desse alguma consistência e algum nexo narrativo a “Cats”, como filma em desarrumação visual e bagunça coreográfica, pensando que pode esconder as insuficiências e as incongruências com a música, os cenários estilizados, cores berrante e câmaras em azáfama. E o que dizer daquele surreal número com baratas dançantes à Busby Berkeley?

[Veja os bastidores da rodagem:]

Tirando algumas exceções (Judi Dench na sábia Old Deuteronomy, Sir Ian McKellen no canastrão Gus, o Gato do Teatro, James Corden no “bon vivant” Bustopher Jones), as personagens não conseguem ir para lá do artifício digital que as envolve e tolhe, e ganhar presença e substância. Taylor Swift asperge-nos de erotismo na sua breve participação, e no papel de Victoria, Francesca Hayward, vinda do Royal Ballet onde é bailarina principal, revela-se adequadamente elegante e “sexy”, conseguindo permanecer ao mesmo tempo na sua pele de ingénua. O resto é uma catástrofe em forma felina mutante, simbolizada na forma como é apresentada a personagem da marginalizada Grizabella (Jennifer Hudson), que canta “Memory”. Hooper não arranjou melhor maneira de mostrar a infelicidade da gata do que o óbvio ululante de a filmar sempre de lágrima ao canto de olho.

“Cats” é um filme que vem dar péssimo nome aos gatos no cinema. Antes ser obrigado a comer “Whiskas” à colher do que aguentar este desastre gatal. Antídoto aconselhado: uma maratona de desenhos animados do Gato Félix, da Krazy Kat, do Manda-Chuva, do Sylvester e do Garfield.