José Mourinho pode não ser argentino como por engano surgiu no questionário da revista “One Hotspur Junior”, do próprio Tottenham (as outras opções eram Portugal, Espanha e Brasil), mas nem por isso deixa de ter o sangue quente de um treinador com muitos anos de Premier League e que não gostou de ver a forma como Son, uma das grandes referências ofensivas da equipa, foi expulso no último encontro frente ao Chelsea. “É um vermelho muito estranho, para mim é futebol… Mas espero que o Rudiger recupere rapidamente, de certeza que tem as costelas partidas, as melhoras. Acham que joga o próximo jogo ou que está lesionado? Eu acho que joga”, disse.

Antes do Natal o discípulo Lampard deu um chocolate de bola ao mestre Mourinho (com bis de Willian e vermelho a Son)

A ironia não caiu bem a todos como Frank Lampard, treinador dos blues e antigo capitão de Mourinho nos tempos de Stamford Bridge, mas o português voltou ao tema no lançamento do encontro frente ao Brighton, que daria o pontapé de saída no já habitual Boxing Day da Premier League. “Em alguns países, especialmente de cultura latina, como Portugal, Espanha e Itália, isso acontece porque é uma coisa cultural, mas não na Premier League. A partir do momento em que tentamos punir reações insignificantes de jogadores e deixamos escapar outras, começamos a fazer parte disso. Foi por isso que tentei brincar com isso”, referiu ainda a esse propósito, sabendo entretanto que, sendo o recurso recusado, ficaria sem o avançado sul-coreano nas próximas três partidas.

A derrota na receção ao Chelsea acabou por ser um golpe moral no Tottenham, que seguia numa série de quatro vitórias em cinco encontros e que poderia nesse encontro subir pela primeira vez na presente temporada aos quatro primeiros lugares da classificação que dão acesso à Liga dos Campeões. Mais do que isso, Mourinho sabia que um triunfo era a melhor forma de projetar os encontros que se seguiam – diante de Brighton (casa), Norwich (fora) e Southampton (fora), num calendário mais acessível do que os rivais diretos –, antes da receção ao líder Liverpool. Assim, entrava para o Boxing Day a seis pontos dos lugares da Champions e sem Son, o que nem por isso alterava a forma de pensar a ideia de jogo e a sua estrutura mesmo havendo a noção de que a manta é curta.

De acordo com a imprensa britânica, José Mourinho teve o cuidado de enviar algumas mensagens a jogadores no Natal, entre as quais uma para Harry Kane onde apelidou o capitão dos spurs como “o melhor avançado da Europa” ao mesmo tempo que mostrou confiança numa ligação proveitosa que permita ganhar títulos no clube. O técnico acredita que são as unidades ofensivas como o dianteiro, Dele Alli, Son ou Lucas Moura que permitirão fazer a diferença nesta terceira aventura na Premier League e foi por isso mesmo que, no lançamento do jogo com o Brighton, não se mostrou preocupado com os muitos golos sofridos por considerar que a forma de jogar no plano atacante justificava (por ora) esse desequilíbrio. O tempo, mais uma vez, deu-lhe uma razão.

O técnico português, que nunca perdeu qualquer jogo no Boxing Day, assumiu de forma emocionada nas flashes antes do encontro que teve um Natal com pouco para recordar. “Para ser honesto foi muito triste porque o meu cão morreu e o meu cão é família mas temos de seguir em frente”, atirou de forma comovida antes de falar sobre os primeiros tempos de Tottenham: “Podemos olhar para o facto de termos saltado de 14.º para o sétimo lugar mas prefiro olhar de forma global, temos objetivos até ao final da temporada e temos de melhorar. Mostrámos melhorias em algumas áreas, noutras nem por isso mas temos de olhar para o global. O clube é fantástico, dá-nos todas as condições e devemos aprender com os erros e ser positivos com as coisas boas”.

Sem a velocidade e explosão de Son para fazer a diferença nas transições, até pelas linhas muito juntas com que o Brighton se apresentava sem bola, o Tottenham foi tentando chegar à vantagem apostando nos passes longos que exploravam as costas da defesa contrária e que só não deram golo porque Sessegnon (poste) e Harry Kane (golo) viram os lances anulados por posição irregular. No entanto, e no seguimento de um livre lateral ganho pelo antigo lateral do Sporting Ezequiel Schelotto, o Brighton inaugurou o marcador por Adam Webster, que atacou da melhor forma a defesa à zona dos visitados após a assistência de Pascal Gross (37′).

José Mourinho, à chuva, voltava a ver o Tottenham em desvantagem e dava sinais de impaciência com o que via em campo mas Harry Kane justificou a mensagem que o técnico terá enviado este Natal e conseguiu acabar com a boa resistência defensiva do Brighton aos 53′, num lance de insistência onde fez a recarga após uma primeira parada de Matthew Ryan. Estava feito o empate num jogo que começava a ter tendência para partir-se na zona do meio-campo, que teve oportunidades para os dois lados mas que ficou decidido com uma obra-prima do conjunto de Londres: Eriksen colocou com um passe longo em Aurier, o lateral assistiu sem deixar cair a bola Dele Alli e o internacional inglês rematou de primeira por cima do guarda-redes para o 2-1 (77′).