O ano de 2019 foi decisivo para a Igreja Católica. Desde a inédita cimeira de fevereiro, no Vaticano, sobre os abusos sexuais, da qual resultaram uma série de medidas de peso para combater a pedofilia entre o clero, ao Sínodo da Amazónia de outubro, que foi um primeiro passo rumo ao fim do celibato obrigatório para os padres, passando pela criação do conceito de “pecado ecológico” para combater as alterações climáticas, o Papa Francisco assumiu-se como um dos protagonistas do ano que agora acaba — e fez jus ao rótulo de revolucionário que lhe tem sido associado por crentes e não crentes.

Ao mesmo tempo, o Papa argentino manteve nas suas intervenções públicas regulares o estilo de proximidade a que habituou a Igreja Católica desde a sua eleição, em 2013 — e que o distingue da maioria dos seus antecessores. Num ano em que voltou a pedir aos padres católicos que usassem linguagem simples nas homilias e celebrações (no ano passado já tinha pedido aos padres que evitassem sermões aborrecidos que fizessem os fiéis adormecer), Francisco deu o exemplo a partir do Vaticano. Do futebol às cabeleireiras, recordamos os momentos em que o Papa falou para fora da Igreja Católica.

A luta contra as fofocas no salão do cabeleireiro

“Evitem sucumbir à tentação do falatório que é facilmente associado à vossa profissão” — num encontro com 230 cabeleireiros e profissionais de estética, 30 de abril.

“Todos nós temos falhas, mas estamos acostumados, pela força do egoísmo, em ver apenas os defeitos dos outros. (…) A língua tem o poder de destruir como uma bomba atómica” — na missa, durante uma visita a uma paróquia na periferia de Roma, 3 de março.

Messi é Deus no relvado, Eusébio exemplo de sonho

“Se é um sacrilégio dizer que Messi é Deus? Em teoria, sim, não se pode dizer. Mas eu não acredito que seja um sacrilégio, as pessoas dizem que é Deus como dizem ‘adoro-te’, são expressões. É um Deus com a bola no relvado. São modos populares de as pessoas se expressarem. Dá gosto ver como ele joga, mas não é Deus” — numa entrevista ao canal de televisão espanhol La Sexta, 1 de abril.

“Sei que a maioria de vós gosta muito de futebol. Recordo um grande jogador destas terras que aprendeu a não se resignar: Eusébio da Silva, a pantera negra. Começou a sua vida desportiva no clube desta cidade. As graves dificuldades económicas da sua família e a morte prematura do seu pai não impediram os seus sonhos; a sua paixão pelo futebol fê-lo perseverar, sonhar e continuar para diante… chegando a marcar 77 golos para este clube de Maxaquene!” — durante a visita apostólica a Moçambique, 5 de setembro.

O feminismo numa Igreja onde mandam os homens

(No ano em que o Vaticano lançou uma equipa de futebol feminino, 48 anos depois da criação da equipa de futebol masculino.)

“A Igreja não pode ser Igreja sem a mulher, porque a igreja é mulher, é feminina. É ‘a’ Igreja, não ‘o’ Igreja. Uma dimensão que não tenha feminilidade na Igreja faz com que a Igreja não seja Igreja” — numa entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, 31 de março.

As referências a Donald Trump e aos EUA

“Os construtores de muros, sejam eles de arame farpado ou tijolos, irão acabar por ficar prisioneiros dos muros que construíram. (…) Percebo que perante este problema, um governo tem uma batata quente na mão, mas tem de resolvê-lo de uma maneira diferente, com humanidade, não com arame farpado” — a bordo do avião papal na viagem apostólica a Marrocos, 1 de abril.

“É uma honra para mim os americanos atacarem-me” — a bordo do avião papal na viagem apostólica a Moçambique, 5 de setembro, ao receber um livro de um jornalista francês sobre as críticas dos movimentos conservadores norte-americanos ao Papa.

O medo da Inteligência Artificial…

“A evolução tecnológica, em particular no campo da Inteligência Artificial, levantam algumas implicações para a Humanidade. (…) Se o dito progresso da Humanidade se tornar um inimigo do bem comum, tal levaria a uma trágica regressão para uma realidade bárbara regida pela lei do mais forte” — numa conferência no Vaticano sobre a Era Digital, 1 de outubro.

…e o elevador que parou com o Papa lá dentro

“Quero pedir desculpa pelo atraso, fiquei preso no elevador por 25 minutos, houve uma quebra da energia e depois os bombeiros chegaram” — no início do Angelus, após ter chegado atrasado à varanda dos aposentos papais por ter ficado preso no elevador durante 25 minutos, 1 de setembro.

O raspanete aos miúdos que usam telemóvel à mesa

“A Sagrada Família, Jesus, José e Maria, rezava, trabalhava e comunicava entre si e eu pergunto-me: tu na tua família sabes comunicar ou és como esses jovens que, cada um com o seu telemóvel, estão sentados à mesa a conversar no chat? Nessa mesa há um silêncio como se estivessem na missa. Devemos reanimar a comunicação na família” — durante o Angelus, 29 de dezembro.