Título: O Gesto Que Fazemos Para Proteger a Cabeça
Autor: Ana Margarida de Carvalho
Editor: Relógio d’Água
Páginas: 264
Preço: 18,00€

A primeira coisa que importa fazer ao escrever sobre O Gesto Que Fazemos Para Proteger a Cabeça é sublinhar a competência de Ana Margarida de Carvalho enquanto escritora. Isso é tornado claro desde a primeira frase do romance, mas essencialmente em momentos em que a elegância da escrita se associa na perfeição com a ruralidade do Alentejo nos anos trinta do século passado. Apenas para citar dois exemplos, veja-se o momento em que a escritora se refere ao luto de uma mãe cujo filho, ainda criança, morrera recentemente, dizendo que “ainda estava feita de lavado a sua campa” (p. 77) ou quando, referindo-se a nados-mortos, escreve que estes “não traziam o vinco entre o lábio e o nariz, o anjo não lhes havia segredado o mistério e marcado com o vinco do seu dedo em frente à boca a obrigação de se silenciarem quando transitassem para a vida” (p. 197)

Em O Gesto Que Fazemos Para Proteger a Cabeça encontramos inúmeras histórias boas, como a da mãe de Simão ou a história de Séfora contada ao longo do quinto capítulo ou a história de Maria Angelina, o falcão de Simão, inspirada, segundo a escritora, em A de Açor de Helen MacDonald, mas que traz à memória também o extraordinário filme de Ken Loach, Kes. Ou a forma como o vento de Nadepiori irrompe no romance e molda de forma indelével a personalidade e a vida de todos os seus habitantes, invertendo totalmente a ordem natural das coisas. As mães gatas comem as suas crias para as pouparem ao inferno eólico e as aldeãs arranjam-se quando regressam a casa em vez de o fazerem antes de sair, dada a certeza de o vento ir frustrar as suas vaidades. As habitantes tornam-se, graças ao vento, Penélopes invertidas, que todas as noites compõem as suas madeixas apenas para as verem ser destruídas de manhã pela força da natureza.

São também interessantes os momentos de interacção entre as personagens e o narrador. A certa altura, Simão Neto protesta com a pretensão de conhecimento de quem conta a sua história e pergunta: “tu, que me escreves, poderás, porventura, ter a pretensão de me conhecer por dentro, só porque me segues nesta caminhada?, que sabes tu do meu carácter, dos meus ensejos, da minha índole?” (p.37), ao que o narrador responde pedindo a Simão que se comporte de uma determinada maneira para favorecer a narrativa, enquanto pondera acerca das vantagens de a sua personagem ter um final trágico. Mais à frente no livro, é a vez de Constantino ser alertado por quem escreve a sua história de um perigo iminente, levando a que quem narra intervenha directamente no curso dos acontecimentos, alterando-os (“Constantino, já vai sendo tempo de prosseguires e te tornares aquilo que sempre foste, e atentares no vulto do lado de lá do rio, que estacou, fixando-te, sem dares por nada,/ e esse aviso fez Constantino erguer a cabeça ” (p. 231)).

O problema do romance parece ser quase exclusivamente o de depender muito, bastante mais do que é comum, da qualidade da escrita. O Gesto Que Fazemos Para Proteger a Cabeça é construído a apontar para o virtuosismo de Ana Margarida de Carvalho e não para a narrativa propriamente dita, o que leva a que a escritora se veja obrigada a nunca descansar, tendo de fazer de cada frase um feito, como se não pudesse, em duzentas e sessenta páginas, ter uma única frase banal. Esta necessidade que Ana Margarida de Carvalho se impôs a si mesma leva a que, por vezes, o livro se torne cansativo e a que o leitor perca ocasionalmente o fio à meada, fazendo também com que nas raras vezes em que o tiro sai ao lado, saia mesmo muito ao lado (como quando a escritora escreve alguns lugares comuns que têm, pela natureza do romance, uma importância excessiva, como, por exemplo, quando é dito que “é preciso ser-se humano para entender tanta desumanidade” (p. 65) ou “os homens saem do cheiro mas o cheiro jamais sairá deles” (p. 110)). Também são relativamente desinteressantes em O Gesto Que Fazemos Para Proteger a Cabeça algumas das inovações estilísticas que não parecem servir qualquer propósito narrativo, como é disso exemplo a quantidade de vezes em que a expressão ‘a meio’ surge isolada a meio de uma linha ou a ausência de pontos finais.

Há, finalmente, um comprazimento em algumas expressões do livro que se tornam  num refrão da história (as referências aos braços em aspas ou ao cristo negro são a esse título exemplares), a fazer lembrar Lobo Antunes, que talvez pudessem ser dispensáveis. Por outro lado, este lado referencial e reverencial do livro produz alguns efeitos interessantes, como se integrasse o Alentejo e a ruralidade portuguesa numa tradição literária de que tem sido excluída, apesar dos esforços dos neo-realistas portugueses nos anos cinquenta. É a esse título interessante as evocações semi-encriptadas de, por exemplo, Tom Jobim, Sérgio Godinho, Shakespeare, Saramago, Mário de Sá-Carneiro e Eurípedes que fazem desta história uma história integrada no cânone literário ocidental, ainda que por vezes essas referências surjam, inesperadamente, da boca de personagens humildes e que nunca antes parecem dadas a pensamentos poéticos ou metafísicos. Não deixa, sob esse ponto de vista, de ser bizarro ver uma personagem humilde e até então nada dada a aforismos exclamar que as habitantes de Nadepiori estavam “cercadas por espantos e medos por todos os lados” (p. 85).

Seja como for, em O Gesto Que Fazemos Para Proteger a Cabeça, Ana Margarida de Carvalho tem no Alentejo de há quase um século apenas um pretexto para falar de homens e de mulheres a tentarem fazer o que podem com o que lhes foi dado, na certeza de que, como afirma o poema que dá título à obra, os anos passam, os ribeiros mudam, a linha das florestas altera-se, mas dentro do homem e no que de mais fundamental o constitui nada mudou e nada parece estar para mudar.

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