O ano que agora começa leva aos palcos propostas de dança e de teatro que ora evocam dramas do passado recente de Portugal (a história de Valentim de Barros ou a independência da Índia portuguesa), ora remetem para temas da máxima atualidade (o turismo, a difícil relação com estrangeiros, as questões raciais). Eis dez novidades de janeiro a março, selecionadas pelo Observador e organizadas por ordem de apresentação.

“Mário: História de um Bailarino no Estado Novo”

De Fernando Heitor

Monólogo interpretado por Flávio Gil, estreou-se discretamente, mas com salas cheias, em agosto de 2019 no Cinema São Jorge e regressa ao mesmo espaço entre 7 e 28 de janeiro. O texto e a encenação pertencem a Fernando Heitor, com base na história verídica do bailarino português Valentim de Barros (1916-1986), que passou a maior parte da vida internado no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, com diagnóstico médico de “psicopatia homossexual e pederastia passiva” – considerado um exemplo notório de perseguição à homossexualidade no século XX português. A personagem chama-se Mário e colhe sugestões na biografia de Valentim, mas é predominantemente ficcional e ultrapassa a identidade homossexual, apresentando-se como transgénero.

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O espetáculo nasceu de uma ideia da atriz São José Lapa, que pediu a Fernando Heitor um texto inspirado em Valentim de Barros. A colaboração entre ambos acabaria por não se concretizar, por falta de financiamento, até que o encenador decidiu avançar quase sem meios com Flávio Gil como protagonista. “Acho que esta peça, mais do que dizer como eram as coisas antes, vem recordar-nos a importância de termos evoluído tanto e de já não ser assim”, comentou o ator ao Diário de Notícias. “É uma chamada de atenção para darmos importância ao que conquistámos e não abdicarmos disso a troco de coisa nenhuma.”

“Sem Flores Nem Coroas”

De Fernanda Lapa

©MARGARIDA DIAS

Orlando da Costa e Fernanda Lapa cultivaram “uma boa amizade e companheirismo” desde o início da década de 70 e o escritor “sempre acompanhou” o trabalho que a atriz e encenadora desenvolvia, chegando a desafiá-la várias vezes para encenar uma peça sua. “Prometi-lhe que logo que tivesse condições o faria. Nunca aconteceu e ele deixou-nos sem eu cumprir a promessa”, contou Fernanda Lapa ao Observador. Finalmente, reunidas condições logísticas e financeiras, vai avançar: de 10 a 19 de janeiro no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, numa produção da companhia Escola de Mulheres.

O texto não poderia ser outro: “Sem Flores Nem Coroas”, uma peça “dramaturgicamente muito interessante, literariamente de grande qualidade, com personagens e conflitos fortíssimos que estão na génese do fim do império colonial português”, precisou. É uma incursão inédita de Fernanda Lapa e uma estreia absoluta em Portugal, pois o texto, escrito em 1967 e publicado em 1971, nunca tinha sido encenado.

“Enquanto as tropas da União Indiana, em 1961, se preparam para invadir a chamada Índia Portuguesa, uma família brâmane e católica de Goa confronta-se com os seus fantasmas e medos”, diz a sinopse, assinalando ainda que Orlando da Costa (1929-2006) é um poeta e dramaturgo “injustamente esquecido” – nascido em Moçambique, de origem goesa, pai do atual primeiro-ministro, António Costa.

“Aparentemente realista, a peça contém em si própria, pela inclusão de um coro trágico – assim lhe chamo eu –, uma leitura dramática”, resumiu Fernanda Lapa.

“Virgens Suicidas”

De John Romão

É uma estreia absoluta: na Culturgest, de 15 a 18 de janeiro, e depois no Teatro Municipal do Porto, dias 24 e 25. Mais à frente, haverá uma apresentação Theatro Circo, em Braga, a 29 de maio. Segundo o encenador, John Romão, o espetáculo propõe uma distopia numa comunidade reservada ao feminino, onde “um grupo de meninas tem uma educação física severa para um fim incógnito, que está associado à transformação do corpo.” Em palco vão estar Luísa Cruz, Vera Mantero e Mariana Tengner Barros acompanhadas de jovens ginastas.

“São corpos vistos como máquinas, em que as três professoras têm como principal tarefa anular o desejo e curiosidade das alunas e fazer com que apenas queiram obedecer e competir”, explicou John Romão ao Observador. “O controlo sufocante deste sistema distópico, tão voyeurista como exibicionista, implicará que algumas das personagens tomem decisões que as afastam daquele lugar”, acrescentou.

O texto é de Mickael de Oliveira e inspira-se no romance “Mine-Haha ou a Educação Física das Meninas” (1903), de Frank Wedekind, e no romance “As Virgens Suicidas” (1993), de Jeffrey Eugenides (1993), por sua vez adaptado ao cinema em 1999 por Sofia Coppola.

John Romão, que é também diretor artístico da bienal de arte contemporânea BoCA – no âmbito da qual o Teatro São Luiz apresentará em fevereiro a exposição “Cattivo”, da coreógrafa Marlene Monteiro Freitas –, tem um outro espetáculo entre mãos: “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, a ser apresentado no Teatro Nacional D. Maria II, de 14 de fevereiro a 1 de março.

“A Máquina Hamlet”

De Jorge Silva Melo

©JORGE GONÇALVES

“Ainda li este texto manuscrito, passado clandestinamente da antiga RDA até à casa de Jean Jourdheuil no Bolulevard St Germain, em Paris, onde tantas noites ouvi Heiner conversar bebendo uísque e café até nascer o dia”, escreve Jorge Silva Melo no programa de sala. “Traduzi-o então (1977?), no rescaldo do 25 de Novembro, quando sobre os nossos desejos se erguia a asa da normalização democrática. Li-o vezes sem conta, voltei a traduzi-lo. E eis que chega a altura de o lembrar.”

De 15 de janeiro a 22 de fevereiro no Teatro da Politécnica, em Lisboa, o clássico de Heiner Müller. “Um homem ergue-se das ruínas da história para anunciar que foi Hamlet. Para escapar à violência cíclica e contínua da história, o passado é questionado e desconstruído. Longe da narrativa psicológica, a paisagem da revolução traída.” Com Américo Silva, André Loubet, Hugo Tourita, Inês Pereira, João Estima, João Madeira, João Pedro Mamede e José Vargas.

“Viagem de Inverno”

De Nuno Carinhas

Nuno Carinhas foi diretor do Teatro Nacional São João no Porto entre 2009 e 2018

Foi a atriz Teresa Gafeira, um dos nomes históricos da Companhia de Teatro de Almada, quem desafiou Nuno Carinhas a pegar no texto. “Chegou a vez de me deixar inquietar por esta austríaca intransigente que estava por descobrir”, disse o encenador, que aqui assume também a cenografia e os figurinos. A austríaca a que se refere é Elfriede Jelinek (Nobel da Literatura 2004 e autora do romance que deu origem ao filme “A Pianista”, de Michael Haneke). Em “Viagem de Inverno”, de 24 janeiro a 23 de fevereiro no Teatro Municipal Joaquim Benite, de Almada, teremos “três atrizes, três gerações, três vozes que reclamam ao ritmo da escrita impiedosa e lúcida  da autora, tornada em português pela grande mestria de António Sousa Ribeiro”, descreveu Nuno Carinhas. “Uma maratona de partilhas a olho nu sobre as amolgadelas do mundo para aguçar os sentidos”, resumiu.

Em palco, Ana Cris, Flávia Gusmão e Teresa Gafeira. O texto remete para a atualidade e tem traços autobiográficos de Elfriede Jelinek, autora controversa, descrita como radical, voz desalinhada em conflito com as elites do seu país. São muitos os assuntos que emergem. Nuno Carinhas apontou alguns: “O caso da rapariga raptada e fechada numa cave durante oito anos e meio; a nacionalização do Hypo Group Alpe Adria; o turismo e a difícil relação com os estrangeiros; a marginalização dos velhos e dos loucos; os afetos nas redes sociais e o acerto de contas com os modelos familiares. Também e sobretudo o confronto com o tempo.”

“Alma”

De Cristina Carvalhal

©FILIPE FIGUEIREDO

Com texto de Tiago Correia, ainda sem data fixa de estreia (sabe-se que será em fins de janeiro), “Alma”, no Teatro Aberto, em Lisboa, dá continuidade ao ciclo dedicado à juventude que se iniciou com “Golpada”, de Dea Loher, encenado por João Lourenço. Trata-se agora de “uma peça sobre a juventude, para ser interpretada por um jovem elenco”, disse o júri que em 2018 atribuiu ao texto de Tiago Correia o Grande Prémio de Teatro Português. “A solidão e a possibilidade de confiança na amizade e no amor, a importância de que se revestem os laços familiares e a transmissão de valores entre gerações são alguns dos temas abordados.” Encenação de Cristina Carvalhal, interpretação de Bernardo Lobo Faria, Bruna Quintas, Guilherme Moura e Sofia Fialho.

“A Reconquista de Olivenza”

De Ricardo Neves-Neves

©ESTELLE VALENTE

A sinopse apresenta um tom sério: “O novo espetáculo que junta o dramaturgo e encenador Ricardo Neves-Neves e o pianista e compositor Filipe Raposo olha para a história de Olivenza, parcela alentejana do território português ocupada em 1801 por Espanha com o apoio de França e cuja soberania espanhola não é ainda hoje reconhecida por Portugal.” Do outro lado do telefone, o encenador deu-nos um tom diferente: “É como se o espetáculo fosse o sonho de um rapaz de 15 anos na década de 90 que esteve a estudar história para um exame e vai misturar isso com as suas próprias referências culturais, da animação aos jogos de computador, que substituem as personagens e circunstâncias inscritas na história.”

Com carreira de 6 a 16 de fevereiro no Teatro Municipal São Luiz, “A Reconquista de Olivenza” é mais uma das peças com humor absurdo que Ricardo Neves-Neves tem vindo a criar com o grupo Teatro do Elétrico. Surge já como parte de uma série de duas criações, a segunda das quais, “Here Comes the Sun”, para daqui a nada menos do que três anos. Se esta é uma reescrita da história de Portugal, um revisionismo fantasioso e assumido, a próxima será uma reescrita da criação do mundo, a começar pelo “big bang”.

Olivença é circunstancial, o espetáculo vai além disso. No início, o público fica a saber que o famoso Milagre de Ourique, quando Jesus Cristo apareceu a D. Afonso Henriques, tem sido mal contado: quem apareceu ao rei português foi o dragão de Dragon Ball, que lhe ordenou que procurasse pelo mundo inteiro sete bolas de cristal. Foi essa busca que, evidentemente, deu origem aos Descobrimentos. “Vou também buscar referências ao jogo Street Fighter e transformar tudo isto numa história de aventuras”, acrescentou o encenador.

O elenco é extenso, 22 pessoas, o que está relacionado com o contexto que a peça evoca (corte portuguesa, reis e rainhas, exército e corte espanhola, por aí fora). Saem de Lisboa, cruzam a Ponte 25 de Abril e chegam à Margem Soviética. Passam pelo califado de Alcácer do Sal. Dirigem-se a Olivença. Um comentário irónico sobre o mundo atual.

“Esplendor e Dismorfia”

De Vera Mantero e Johathan Uliel Saldanha

É a 7 de fevereiro no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, como parte da 10ª edição do GUIdance, festival de dança contemporânea de Guimarães. A peça estreou-se em julho último no Festival d’Avignon e conhecerá agora a estreia portuguesa. “Esplendor e Dismorfia” junta dois criadores improváveis: a bailarina e coreógrafa Vera Mantero, que em 2019 assinalou 20 anos da criação da companhia O Rumo do Fumo, e o artista multimédia Jonathan Uliel Saldanha, considerado um dos nomes promissores da arte contemporânea em Portugal.

“São universos muito próximos, apesar de algumas linguagens serem muito distintas e as formas diferentes”, disse o artista à Radio France Internationale, quando da apresentação em Avignon. “Mas temos ideias que são muito próximas, especialmente neste momento em que estamos com dificuldade de saber onde uma área artística começa e a outra acaba.”

Espetáculo experimental, recital híbrido, corpos-paisagem animados pela respiração. Em cena estão duas personagens hipermusculadas e sem sexo, que operam com um sistema de sons e imagens e debitam passagens de Paisagem com Argonautas, de Heiner Müller, e Le Monstre Dans L’Art Occidental, de Gilbert Lascault. Vera Mantero notou que “o texto do início é um resumo de todos os monstros que um ser humano pode imaginar e compor”, acrescentado que “não há uma mensagem, mas uma operação entre diversos elementos em contraste, conexão, oposição.”

“#Punk” e “100% POP”

De Nora Chipaumire

A coreógrafa Nora Chipaumire (cujo nome costuma ser escrito em minúsculas) estreia-se em Lisboa, no novo Teatro do Bairro Alto, com dois espetáculos que prestam homenagem a duas artistas que a marcaram na juventude: Patti Smith e Grace Jones. O primeiro intitula-se “#Punk” e poderá ser visto a 14 de fevereiro. O segundo é “100% POP”, no dia seguinte.

Nascida em 1965 no Zimbabué, hoje radicada em Nova Iorque, Nora Chipaumire “centra-se nos estereótipos raciais e de género” e “tem trabalhado sobre a radicalização da forma como o corpo e a arte africanos são vistos”, explicou Laura Lopes, programadora artes performativas do TBA. “Dedica-se a mudar o ponto de vista central de África como sendo apenas o detentor de tradições e formas passadas e não um lugar de vanguarda ou de inovadores.”

“#Punk”, que em 2019 passou pelo Festival Circular de Vila do Conde, recria um clube de punk rock. “Há um palco em cena e o público está de pé ao seu redor. Nora e o seu parceiro, Shamar Watt, cantam, gritam, dançam no palco e fora dele, e levam o público a cantar e a dançar com eles”, descreveu Laura Lopes. “É uma performance-concerto onde Nora reivindica os seus direitos de resistir, encontrar alegria na raiva e de se comportar mal, num ambiente que arrasa com a herança de um punk destinado a jovens brancos do sexo masculino.”

A artista, acrescentou a mesma responsável do TBA, deveu-se à “pertinência do conteúdo” das suas peças e à “desconstrução dos estereótipos sobre África e o corpo negro feminino” que apresentam.

 “A Mesa Verde” / “Chronicle”

De Kurt Jooss / Martha Graham

Bailarino Pedro Romeiras dançou “A Mesa Verde” em 1984 (©RODRIGO FERREIRA)

Sofia Campos, diretora da Companhia Nacional de Bailado (CNB), tem dito que quer “explorar o património coreográfico, a história da dança e a memória”. O programa Dançar em Tempo de Guerra, agendado para março que vem, parece cumprir esse propósito. Duas peças serão apresentadas na ocasião: “A Mesa Verde”, do coreógrafo alemão Kurt Jooss, e “Chronicle”, da coreógrafa americana Martha Graham – de 11 a 14 de março no Teatro Camões, em Lisboa, e a 27 no Teatro Aveirense.  Ambas “refletem as inquietações dos seus autores sobre a ideia de guerra”, explica o programa da CNB. “Se Jooss trabalha a partir dos efeitos da I Guerra Mundial, Graham dá uma resposta ao violento crescimento do fascismo na Europa e que iria desencadear na II Guerra Mundial.”

“A Mesa Verde” estreou-se em 1932 em Paris, é considerada uma das obras coreográficas mais marcantes do século XX e foi dançada pela última vez na CNB em 1987. “Retrata várias facetas da guerra: o debate, a mobilização, o combate, a especulação de guerra, os refugiados.”

“Chronicle”, de 1936, será agora montada pela primeira vez na CNB e passará a integrar o reportório da companhia. “Não traduzindo uma representação realista dos acontecimentos, a intenção é antes universalizar a tragédia da guerra”, informa o programa.