Título: Palácio dos Condes de Tomar
Autores: João Miguel Simões, José Pedro Neuparth e outros
Editor: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Design: Silvadesigners
Páginas: 104, ilustradas
Preço: 18 €

Depois de ter adquirido e reabilitado o Palácio Portugal da Gama, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa fez outro tanto com o edifício contíguo, o Palácio dos Condes de Tomar, outrora Palácio Brito Freire, um edifício conhecido por ter sido a sede da Hemeroteca Municipal de Lisboa durante quatro décadas (1973-2013). Para utentes de longa duração — quase residentes —, como o que subscreve estas linhas, é impactante ver o prédio inteiramente restaurado e limpo, com as suas paredes libertas das altas estantes metálicas que as ocultavam e os longos tectos de motivos alegóricos em estuque finalmente rejuvenescidos e preservados e, mais ainda, poder aceder a áreas outrora reservadas aos serviços. Traz à memória o já longínquo tempo ali vivido a trabalhar, mas sobretudo faz pensar nas benfeitorias que a Santa Casa induziu no nobre edifício para depois o ceder a uma instituição bastante veneranda, a revista Brotéria, “restituindo à zona de São Roque a presença secular desta ordem religiosa”, como realçam Alexandra Gago da Câmara e Teresa de Campos Coelho (p. 7). É que não pode haver maior contraste com o que fez a vereação cultural da Câmara Municipal de Lisboa que, após prolongado e inexplicável encerramento, em vez de ter aproveitado os recursos resultantes dessa venda para construir de raiz um edifício de arquitectura específica, com o conforto de todas as  funcionalidades e qualificações contemporâneas, transferiu para instalações desadequadas (é até difícil imaginar piores…) um invulgar património de imprensa imprescindível a quaisquer investigadores de história e cultura dos séculos passado e presente.

Ao mesmo tempo que qualifica o entorno urbanístico da sua sede no largo Latino Coelho com um museu asiático (colecção Francisco Capelo instalada no Palácio Portugal da Gama) e instalações renovadas para a centenária revista dos Jesuítas portugueses, a Santa Casa da Misericórdia está — em todos os sentidos e para todos os efeitos — a dar uma valente lição à própria Câmara Municipal, cuja negligência com o seu extensíssimo património edificado na cidade (nem todo ele apalaçado, é óbvio, mas com bons exemplares, que já conheceram muito melhores dias) e permissividade ao desmonte ou corrupção de edifícios privados correm soltas e sem freio, indiferentes à denúncia e aos protestos do atento e tão meritório Fórum Cidadania Lx. E a Santa Casa não só reabilita, e qualifica para o futuro, como produz esta colecção “Património”, uma série de livros que dá a conhecer em pormenor a história dos vetustos edifícios, os processos de intervenção e o destino que eles vão ter. Depois do Palácio Portugal da Gama e da Quinta Alegre, em Camarate — a que fizemos referência —, aqui está o volume correspondente ao Palácio Condes de Tomar, e para a primavera anuncia-se já o n.º 4, dedicado ao convento de São Pedro de Alcântara, que também lhe pertence. Vai o provedor Edmundo Martinho continuar o bom caminho desenhado por Pedro Santana Lopes, adquirindo, reabilitando e qualificando com excelência edifícios nobres da cidade? Que devemos esperar de alguém que escreveu: “A cidade de Lisboa encerra muitas histórias. Cada rua, cada prédio, cada loja dava um livro e seguramente muitos romances” (Apresentação, p. 5)?

O terramoto de 1755 deixou em mau estado um palácio que já havia tido sucessivos proprietários nas três décadas anteriores, e passou a servir para de tudo um pouco — lojas de bebidas, capelista, ourivesaria, funileiro, confeitaria, salão de bilhar e outras no piso térreo, até tribunal eclesiástico ou morada de mercador italiano no piso nobre e hospício no andar mais elevado —, uma mescla de ocupações e ocupantes de curta ou média duração que privou o edifício de “campanhas artísticas relevantes” de 1762 a 1834, em contraste com o que ali viria a ser feito a partir de 1845 pelo seu novo proprietário e residente, Joaquim José Pereira de Sousa, e que distingue este palácio lisboeta a par do património azulejar que vinha do tempo dos Brito Freire e Hélder Carita classificou como “conjunto de azulejaria do século XVII de rara qualidade estética, em padronagem azul e amarelo” (1984, cit. p. 18). Perante “caótica amálgama de azulejos dos séculos XVII, XVIII e XIX”, misturados em quatro momentos, João Miguel Simões admite encontrar ali azulejos “eventualmente” trazidos pela família Costa Cabral do convento de Cristo de Tomar, que lhes pertenceu, para esse edifício onde também residiu.

Negociante que enriqueceu “de forma rápida, sem passado aristocrático nem descendência presente” (p. 11) e acabou os seus dias com “uma fortuna colossal” (p. 24), Pereira de Sousa possuía também o contíguo Palácio Portugal da Gama, e entre 1852 e 1857 fez “importantes intervenções em ambos os edifícios”. Reordenou-lhes as fachadas enquanto todo o largo então dito de São Roque estava a ser reformulado, acrescentando-lhe um novo piso e acertando a cércia de ambos, mas sobretudo atraiu para a decoração deste a arte do estucador Manuel Afonso Rodrigues Pita, com idênticas campanhas, feitas por esses mesmos anos e seguintes, em salões doutros palácios lisboetas, o dos Burnay, na Junqueira, o dos Marqueses de Viana, no Rato, o dos Costa Lobo no Campo dos Mártires da Pátria, ou o de Eugénio d’Almeida, a São Sebastião da Pedreira, chegando até ao Palácio Nacional da Pena, em Sintra. Por uma escadaria ornamentada com grandes medalhões circulares representando as estações do ano sobe-se até uma sequência de salões cuja funcionalidade específica original é hoje reconstituível observando as diferenciadas alegorias e outros elementos iconográficos dos seus desconcertantes tectos de estuque.

Pouco aproveitou o dono deste aparatoso cenário doméstico, pois faleceu em 1861, com 80 anos, abrindo-se a partir de então um ciclo errático de residentes herdeiros, mas também à reorganização do edifício, com a criação dum prédio autónomo destinado a “habitações privativas em Lisboa do célebre ministro Costa Cabral” (p. 35), pai de António Bernardo, casado com Sofia Adelaide Dias e Sousa: os condes de Tomar que dão nome ao palácio. Depois depois da morte dela, em 1925, e diante uma profusão de herdeiros, o palácio será cedido por arrendamento ao Royal British Club (criado em 1888), que ali permaneceu durante quarenta anos, até 1866, quando disputas judiciais sobre uma pretendida actualização de renda, incomportável para o clube, o fez sair dali. Décadas de descaso patrimonial tinham criado ao edifício problemas de monta (uma chaminé ruiu em 1969), que de resto persistiram paulatina e placidamente após a sua compra pela Câmara Municipal de Lisboa, no verão desse ano. Preventivo telhado de zinco foi instalado em 1997 e assim ficou — definitivo e provisório — até à venda do palácio à Santa Casa, praticamente vinte anos depois… Como se trata de um edifício classificado como “de interesse histórico e patrimonial” (Neuparth, p. 77), falta imaginar se não o fosse!

Vanessa Rodrigues e Romina Samartinho assinam o relatório de intervenção de conservação e restauro, iniciado em fins de 2016 e “ainda em curso” (p. 45). São 21 páginas descritivas e ilustradas, e é grande pena que a campanha fotográfica dessa intervenção não tenha sido confiada a fotógrafo competente e assíduo, o que empobreceu bastante a própria representação dos trabalhos realizados — que contraste com o que nos mostrara o livro dedicado à Quinta Alegre —, sobretudo atendendo à “enorme riqueza decorativa” (p. 41) e ao estado considerado “severo” (p. 48) em que se encontrava boa parte do “magnífico conjunto que constitui o Palácio dos Condes de Tomar” (p. 45). Estudos estratigráficos permitiram localizaram oito pinturas bucólicas e marítimas nos recantos do tecto da sala átrio-recepção do primeiro andar, ocultadas por revestimento branco, e identificar o ocre como primordial cor parietal da caixa da escada (depois foi bordeaux, azul e cor-de-rosa).

É de José Pedro Neuparth o projecto de reabilitação deste “edifício do século XVIII cheio de mazelas” (o próprio, p. 76), onde novas áreas de exposição, uma cafetaria com esplanada no logradouro e sete quartos para residência temporária de jesuítas no último piso — “todo refeito, com substituição da cobertura” — se juntam à extensa biblioteca da revista Brotéria, transferida para área técnica devidamente constituída. E para que se perceba melhor a que conduzirá essa reabilitação do Palácio dos Condes de Tomar, os padres Francisco Mota e António Júlio Trigueiros apresentam no capítulo “Espaço cultural Brotéria” as linhas gerais do seu programa: “queremos ser o espaço onde em Lisboa a fé cristã se encontre com as culturas urbanas contemporâneas” (p. 62), um enunciado ambicioso e instigante duma “atitude de escuta perante a arte e os artistas” (p. 64), uma “voz católica num mundo plural, tendo em especial atenção o mundo não-católico, numa óptica de diálogo e de cooperação para o bem comum» (p. 65). E é afinal a longa e exemplar história da revista Brotéria — aqui brevemente narrada das pp. 66 a 74 — a servir de garantia a essa atenção continuamente renovada — e “orgânica, redonda, simbiótica” — às pessoas, quer isto dizer: às “preocupações artísticas, políticas, morais, económicas, religiosas ou urbanísticas de quem habita no nosso tempo presente” (p. 62).

Boas perspectivas para 2020 (e diante), portanto.

O Espaço Cultural Brotéria será inaugurada com um ciclo de actividades (a anunciar) nos próximos dias 23, 24 e 25 de Janeiro.