Um voo da companhia aérea holandesa Transavia, que fazia a ligação entre o Porto e o Funchal, teve de regressar à origem na sexta-feira depois de o piloto ter desmaiado durante cerca de um minuto, noticiou o The Aviation Herald. O avião, um Boeing 737-800, já estava mais próximo do Funchal quando o piloto perdeu a consciência, mas o co-piloto foi impedido de aterrar na Madeira por não ter a certificação necessária para aterrar no Aeroporto Cristiano Ronaldo.

De acordo com as informações do site FlightRadar24, que monitoriza os voos em todo o mundo, o voo TO-3450 da Transavia partiu do Porto às 10h, mas voltou para trás cerca de uma hora depois quando uma quebra de tensão fez com que o comandante desmaiasse. Enquanto o piloto era assistido por um passageiro que era médico, o co-piloto tomou controlo da aeronave. Mas em vez de aterrar na Madeira ou noutro aeroporto mais próximo, teve de regressar ao Porto, onde chegou em segurança às 12h19.

Co-piloto voltou para o Porto em vez de aterrar no aeroporto mais próximo. Porquê?

O co-piloto não podia aterrar na Madeira porque para isso necessita de uma formação específica de 200 horas no arquipélago português. Segundo o Jornal de Notícias, que cita documentação da NAV Portugal, essa formação exige um treino de aterragens e descolagens nos aeroportos da Madeira em condições meteorológicas adversas — seja em contexto real, com acompanhamento de especialistas, ou num simulador. Os comandantes recebem um certificado quando concluem esta formação, mas tem de ser renovado de seis em seis meses.

Quanto ao facto de a Transavia ter escalado um co-piloto sem formação para aterrar na Madeira num voo com destino ao Funchal, essa escolha não contraria qualquer norma de segurança aérea. A legislação apenas exige que, num voo com origem ou destino na Madeira, um dos pilotos — seja o comandante ou o co-piloto — tenha essa certificação específica. Ou seja, também era possível que apenas o co-piloto, não o capitão, tivesse autorização para aterrar na Madeira. E, nesse caso, seria ele quem faria a manobra de aterragem.

Ou seja, aterrar no Aeroporto Cristiano Ronaldo não era opção. Mesmo que o comandante recuperasse e se sentisse capaz de pilotar o avião durante a aproximação à pista, bastava que se voltasse a sentir mal durante a manobra para comprometer a segurança da aeronave. Por norma, este modelo da Boeing tem o sistema de travagem, assim como os comandos para virar o avião, no lado do piloto — logo, se algo acontecesse ao capitão durante a aterragem, o co-piloto não conseguiria tomar controlo do aparelho sozinho.

Ainda não é claro o motivo que levou o co-piloto a regressar ao Porto em vez de aterrar em Lisboa, Faro ou em Rabat, por exemplo, duas cidades que estavam mais próximas do avião no momento em que o comandante desmaiou. Mas vários fatores podem ter contribuído para essa decisão, como as condições meteorológicas, uma ordem do controlo aéreo ou motivos logísticos.

Como os tripulantes de um voo têm um limite de horas que estão autorizados a voar, é possível que, regressando ao Porto, essa equipa pudesse ser substituída mais facilmente por outra que fará a ligação mais tarde. Se o avião fosse desviado para outro aeroporto, não havendo a garantia de que havia tripulantes disponíveis daquela companhia aérea nessa base, então isso levantaria problemas logísticos tanto à empresa como aos passageiros, que teriam de esperar mais tempo por uma solução.

Além disso, é provável que o Aeroporto Francisco Sá Carneiro tenha sido indicado no plano de voo como o “aeroporto alternativo adequado”, isto é, a base para onde o avião se deve dirigir caso necessite de aterrar durante a viagem. O Francisco Sá Carneiro pode ter sido escolhido por causa de um protocolo da empresa ou porque, por algum motivo, os aeroportos mais próximos do avião no momento do incidente não tinham condições para receber a aeronave. A isso junta-se a regra que diz que o “aeroporto alternativo” deve ser adequado para os dois pilotos. A Madeira não o era.

O Observador já tentou contactar a Transavia para obter mais esclarecimentos.