A Austrália acordou com chuva, mas não a suficiente para ser uma ajuda para os bombeiros, conta a imprensa local. Segundo o site noticioso News.com.au, da News Corp Australia, o pior pode mesmo estar para vir, e cita a opinião de um climatologista que lembra que o pico das altas temperaturas no país ainda está a semanas de distância. Neville Nicholls deixa um alerta: ciclones, cheias e ondas de calor poderão, em breve, atingir o país. De facto, o primeiro ciclone do verão australiano, o Blake, começou a formar-se na costa norte da Austrália.

A imprensa dá ainda conta de mais um morto em Nova Gales do Sul, o que faz subir para 25 as vítimas mortais causadas pelos fogos desde setembro passado em todo o país. Já a chefe de governo de Nova Gales do Sul, Gladys Berejiklian, adiantou que mais duas pessoas foram dadas como desaparecidas na região.

Austrália. O que está a causar estes fogos? É uma situação inédita? Pode piorar?

Ao longo de 24 horas, algumas das regiões mais afetadas pelo fogo registaram 15 milímetros de chuva, enquanto noutras a precipitação não passou de salpicos. Citado pelo site australiano ABC, o porta-voz dos Bombeiros de Nova Gales do Sul, Greg Allen, explicou que embora o tempo frio seja bem-vindo, a chuva nem sempre é sinónimo de boas notícias. “Pode dificultar os esforços de algumas das estratégias que usamos para conter o fogo”, explicou.

Ao mesmo órgão de comunicação social australiano, Thomas Duff, especialista em comportamento de fogos da Universidade de Melbourne, concorda que uma pequena quantidade de chuva pode ter um efeito indesejado. Em alternativa, o que ajudaria os bombeiros era chuva intensa durante um longo período de tempo. A ausência de ventos fortes também seria útil para que os bombeiros conseguissem controlar os incêndios ativos.

No entanto, Thomas Duff lembra que chuva em demasia também pode ser um problema. Em terrenos muito secos, como é o caso, a água pode escorregar em vez de ser absorvida pela terra, dando origem a inundações repentinas, algo que aconteceu na Austrália na sequência dos fogos de 2003.

Em novembro passado, numa altura em que a Austrália já se via a braços com os incêndios florestais, um vídeo de bombeiros a celebrar a chuva tornou-se viral na internet.

A mesma análise foi feita pelo comissário para o serviço de incêndios rurais de Nova Gales do Sul, Shane Fitzsimmons, aos jornalistas: “As condições atmosféricas mais benignas representam um alívio para todos, bombeiros, pessoal dos serviços de emergência, mas também para as comunidades afetadas por estes fogos.” E acrescentou que a chuva “é um desafio para a aplicação de queimadas táticas e estratégicas e outras técnicas para tentar controlar estes fogos”.

“O pior ainda está para vir”, diz climatologista

Numa crónica publicada no australiano The Conversation, intitulada “Os fogos são horrendos, mas esperem ciclones, cheias e ondas de calor”, que acabou citada por vários jornais locais, o climatologista Neville Nicholls — que tem feito carreira a investigar condições climatéricas extremas — pede aos australianos para se prepararem para o pior.

“Estamos a um mês do período de maior risco para as ondas de calor no sul da Austrália. Já tivemos algumas ondas de calor severas neste verão. No entanto, geralmente, elas atingem o pico no meio e no final do verão, portanto o pior ainda está por vir”, escreve. “A atenção do público sobre a desastrosa crise dos incêndios florestais na Austrália continuará, com razão, nas próximas semanas.”

O professor emérito lembra também que a temporada de ciclones está atrasada, mas que tudo indica que em breve chegará à Austrália. “Os ciclones costumam trazer chuvas que são bem-vindas pelas comunidades afetadas pela seca. Mas não devemos ignorar os graves danos que podem trazer, como inundações costeiras e danos causados ​​pelo vento — novamente exigindo a intervenção de serviços de emergência”, escreve.

De facto, a agência de meteorologia australiana alertou para a formação do ciclone Blake na costa ocidental do país, prevendo-se chuva e ventos fortes sobre Kimberley e que, na terça-feira, deverão chegar a Pilbara.

Governo anuncia 1,2 mil milhões de euros para os fogos

Esta segunda-feira, o Governo australiano anunciou que vai canalizar dois mil milhões de dólares australianos (1,2 mil milhões de euros) para a recuperação de áreas afetadas pelos incêndios. Segundo o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, o dinheiro será distribuído ao longo de dois anos. A gestão será entregue nos a uma nova agência dedicada à a reconstrução de casas e infraestruturas danificadas.

No sábado, Morrison já tinha prometido enviar três mil militares na reserva para combater os fogos e destinar 12,4 milhões de euros para o aluguer de meios aéreos de combate a incêndios ao estrangeiro, entre eles quatro hidroaviões. Apesar disso, as medidas anunciadas não foram suficientes para calar os críticos, que acusam o primeiro-ministro de ter sido lento na resposta à crise, mais ainda depois de ter decidido, em dezembro, ir de férias para o Havai em plena crise.

Desde setembro, os incêndios na Austrália já consumiram mais de 5,5 milhões de hectares, o equivalente a um país como a Dinamarca.