Rosanna Arquette, uma das mais conhecidas acusadoras de Harvey Weinstein, vai estar presente no julgamento contra o ex-produtor de Hollywood, que começa esta segunda-feira no Supremo Tribunal de Nova Iorque, em Manhattan, mais de dois anos depois de o jornal The New York Times e de a revista The New Yorker terem publicado reportagens a denunciar o escândalo sexual no meio cinematográfico norte-americano.

A atriz Rosanna Arquete, que acusou Weinstein de tentativa de abuso sexual nos anos 90, não irá prestar depoimento, uma vez que o alegado crime não terá ocorrido no estado de Nova Iorque, onde irá decorrer o julgamento. Referiu, no entanto, que tenciona ir a tribunal para apoiar as mulheres que irão falar, de quem se sente “muito protetora”.

“Independentemente do que acontecer, vai ser difícil para as pessoas que falaram contra ele”, afirmou Arquette, citada pelo Guardian. “Este homem é um verdadeiro predador. Destruiu a vida de muitas mulheres… temos de nos focar neste crime, e este caso com Harvey Weinstein é enorme porque há muitas pessoas com os olhos postos nele.”

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Weinstein, de 67 anos, está acusado de cinco crimes ocorridos entre 2006 e 2013, entre os quais agressão sexual e violação em primeiro e terceiro graus, a partir de testemunhos de cerca de uma centena de mulheres, embora o caso assente sobretudo em denúncias de duas vítimas. Uma é uma mulher que até hoje não foi identificada e que disse ter sido violada pelo antigo produtor norte-americano num quarto de hotel em março de 2003. A outra vítima é Mimi Haleyi, uma antiga assistente de produção, que garante ter sido forçada, em 2006, a deixar que o arguido lhe fizesse sexo oral num apartamento em Manhattan.

Relativamente às inúmeras acusações que não foram tidas em conta, segundo o New York Times, ou os crimes já prescreveram — aconteceram há demasiado tempo para serem julgadas — ou estão fora da jurisdição de Nova Iorque, porque ocorreram fora desse estado — o Ministério Público de Los Angeles ainda está a avaliar se avança com outros oito casos contra o ex-produtor —, ou então o tipo de comportamento do antigo produtor não é considerado pela lei um crime. Houve ainda mulheres que optaram por não participar no processo por acharem que tinham mais a perder, a nível pessoal, do que a ganhar.

Weinstein, que chegou a ser detido em maio de 2018, mas foi posto em liberdade depois de pagar uma fiança, nega as acusações e diz estar inocente. Caso seja considerado culpado dos crimes mais graves, a pena pode ser prisão perpétua.

Com este escândalo, o ex-produtor, que foi um dos fundadores dos estúdios Miramax e era um dos homens mais poderosos de Hollywood, caiu em desgraça: foi repudiado pela indústria do entretenimento norte-americana, perdeu a empresa que criou juntamente com o irmão, a Weinstein Company, e sua mulher, Georgina Chapman, com quem estava casado há dez anos, pediu o divórcio.

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Rosanna Arquette, que acusou Weinstein de arruinar a sua carreira por ter “resistido aos seus avanços”, foi uma das muitas mulheres a acusar o ex-produtor e é amiga próxima de Annabella Sciorra, que diz ter sido violada por Weinstein em 1993.

Foi, aliás, o caso desta atriz, conhecida pela sua participação na série “The Sopranos”, que levou a que o julgamento, que tinha início marcado para setembro, fosse adiado para dia 6 de janeiro. O alegado ataque de Sciorra — que, segundo Arquette, destruiu a vida da sua amiga durante muitos anos — ocorreu há já demasiado tempo para ser julgado, mas os procuradores decidiram incluir o seu testemunho, tal como o de outras mulheres, para comprovar um padrão comportamental do arguido.

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Ao contrário de Arquette, quem já disse que não iria marcar presença em tribunal por ser demasiado traumático é Rose McGowan, um dos rostos mais conhecidos entre as mulheres acusadoras de Weinstein.

Também tenho de me concentrar no que é saudável psicologicamente para mim e vê-lo é extremamente difícil”, disse a atriz, que acusou o antigo produtor de Hollywood de violação.

McGowan referiu que, durante anos, tinha reações físicas de cada vez que estava com o alegado agressor ou via fotografias dele. “Inclinava-me e vomitava para o lixo e o meu corpo lembrava-se de coisas que o meu cérebro queria silenciar”, acrescentou a atriz, citada pelo Guardian.

Em dezembro, o New York Times dava conta de que Weinstein tinha chegado a um pré-acordo com as vítimas, que implicava o pagamento de 25 milhões de dólares e não obriga o antigo produtor nem a admitir má conduta e nem a pagar a indemnização — o valor seria pago pela Weinstein Company.

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De acordo com o New York Times, o julgamento  poderá prolongar-se durante mais de dois meses. Nas próximas duas semanas, será feita a seleção do júri, que deverá ter início ou já esta segunda-feira ou na terça-feira, avança o Guardian. Segundo a revista Variety, mais de 150 jornalistas obtiveram autorização para fazer a cobertura do julgamento, tornando-se “num dos maiores espetáculos de que há memória”.

Este julgamento é já considerado um momento simbólico do #MeToo. Foi a partir das reportagens do The New York Times e da The New Yorker que se gerou o movimento coletivo espontâneo #MeToo, de denúncia de casos de abuso, agressão e assédio sexual na indústria do entretenimento. Entre as mulheres que detalharam casos de propostas sexuais de Harvey Weinstein estão Uma Thurman, Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Salma Hayek e Lupita N’yongo.

Um movimento que ganhou uma repercussão a nível mundial e que levou várias mulheres a falarem dos seus casos de abuso e assédio sexual através das redes sociais com a hashtag #MeToo.

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Em dezembro de 2017, as mulheres que denunciaram casos de assédio e abuso sexual, contra Harvey Weinstein e outras pessoas, foram nomeadas “Personalidade do Ano” pela revista norte-americana Time.

O caso mais mediático envolveu o ex-produtor norte-americano Harvey Weinstein, mas surgiram ainda outros relatos de abusos envolvendo, entre outros, os atores Kevin Spacey e Dustin Hoffman, o ex-presidente da Amazon Studios Roy Price, os realizadores Brett Ratner e James Toback, os jornalistas Charlie Rose, Glenn Thrush e Matt Lauer, o fotógrafo Terry Richardson e o comediante norte-americano Louis C.K..