O livro saiu há poucas semanas e terá passado despercebido por entre os muitos títulos que encheram as lojas em época natalícia. Intitula-se Não Pai e pode ser descrito como uma autobiografia – ou “automemória”, como o autor também diz – sobre um filho que se sente abandonado pelo pai biológico e decide expor essa mágoa ao saber por terceiros que ele morreu. Esse filho é o próprio autor, Daniel Blaufuks, mais conhecido como fotógrafo e realizador.

Trata-se de uma obra mais ou menos narrativa e estende-se por apenas 70 páginas de forte intensidade emocional. As ideias de pertença e de rejeição estão muito presentes. “E a rejeição é uma mágoa que não há maneira de ultrapassar, porque todos existimos para sermos amados”, comentou a escritora Dulce Maria Cardoso durante a apresentação pública do livro, a 18 de dezembro na Livraria da Travessa, em Lisboa.

Sem elementos de ficção, “Não Pai” arranca com uma mensagem de correio eletrónico enviada ao irmão do autor em janeiro de 2016 e assinada pela mulher que então vivia com o pai de ambos. Ela dizia que o marido tinha morrido um mês antes e pedia desculpa pelo atraso na informação. Nas páginas que se seguem, Daniel Blaufuks revive a falta do pai, a inexistência de qualquer fotografia dos dois juntos, a família ensombrada pelo exílio forçado e pelos desencontros. É como se escrevesse para entender e esconjurar.

Mas terá a exposição da intimidade levado o autor a questionar-se sobre se deveria publicar? “Coloquei essa questão, mas quando chegamos a uma certa idade, percebemos que é tudo relativo na vida”, respondeu esta semana ao Observador.

“Ao mesmo tempo, pensei que pudesse ser um livro que encontrasse leitores com histórias semelhantes e isso fez-me ultrapassar as dúvidas. Não o teria escrito ou publicado aos 20 ou 30 anos, por isso, a decisão de avançar será também um sinal de maturidade.”

“Não Pai”, de Daniel Blaufuks, é uma edição da Tinta da China

Nascido em Lisboa há 57 anos, Daniel Blaufuks é neto de judeus da Polónia e da Alemanha que se exilaram em Portugal no contexto da perseguição antissemita do regime nazi. O holocausto é assunto que há muito ronda os trabalhos do artista, desde logo num outro livro de 2007, “Sob Céus Estranhos – Uma História de Exílio”, a que o novo título dá alguma continuidade. Mas se aquele falava dos refugiados alemães que passaram por Lisboa durante a II Guerra Mundial, este outro fecha-se sobre a relação pai-filho.

“Os livros que existem sobre pais e mães são geralmente sobre pais e mães muito presentes, que foram escritores, pessoas conhecidas, etc. Procurei na internet por livros acerca de pais ausentes e não encontrei praticamente nada”, explicou Daniel Blaufuks, acrescentando que o livro tenta suprir essa lacuna. “Por outro lado, diretamente relacionado com o meu trabalho, é um livro que fala da importância de existirem fotografias de família, a importância de termos uma fotografia com os nossos pais, ou de não a termos, no meu caso. É uma coisa que hoje tem de ser repensada perante o digital. No futuro, deixaremos de ter álbuns de família. O que é que isso transporta de novo e em que é que altera as nossas memórias? Não é por acaso que ainda hoje uma das primeiras coisas que as pessoas salvam numa guerra ou num incêndio é o álbum de família.”

“Ser judeu é ser aberto ao mundo”

Descrevendo-se como “culturalmente judeu”, algo que o “honra e orgulha”, Daniel Blaufuks revelou que não tem práticas religiosas habituais, ao contrário dos avós paternos polacos e dos avós maternos alemães (ambos os pais já nasceram em Portugal). Escreve no livro:

“O meu pai escolheu uma outra vida, longe dos seus primeiros filhos, dos seus amigos, da sua religião, e até talvez dos seus pais, mas disso não tenho a certeza. Despiu‑se de todo o seu  passado, na verdade, de tudo o que era judaico, de tudo o que era polaco, de toda a história trágica, o shtetl [vila judaica], o gueto, os campos, as cinzas.”

Depois casou‑se com uma portuguesa católica, com quem viveu até ao último dia. “Não me transmitiu nada porque não tinha mesmo nada para me transmitir.”

Adiante, questiona-se sobre se as suas “insuficiências” são resultado da ausência do pai, se “a melancolia que muitos parecem encontrar” no seu trabalho fotográfico será também resultado de “toda esta alienação”. A resposta que encontra é um “talvez”. E questiona-se também sobre o lugar que o Holocausto ocupa na sua forma de ser e estar. Lê-se ainda:

“Nós, os que descendemos de famílias que foram destruídas durante a guerra, sempre sentimos uma falta, uma falha, de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente. Onde está o nosso passado, onde estão as nossas aldeias polacas e as nossas cidades alemãs, onde está o mundo sobre o qual pouco sabemos e que foi destruído antes do nosso nascimento?”

Num tempo que descreve ao Observador como “de ameaças crescentes”, a identidade judaica é para Daniel Blaufuks uma característica identitária “muito importante, para entendermos de que lado da barricada estamos”.

“Para mim, ser judeu é ser aberto ao mundo e à diversidade que nele existe. Vindo de uma minoria que foi perseguida, para mim é óbvio que não podemos ser homofóbicos ou racistas, não podemos aceitar os discursos de ódio e de superioridade que estão a ressurgir. Sei que o racismo é humano; temos ideia de que pode ser combatido como uma doença, mas não é uma doença, é um sentimento horrível e desprezível, mas humano. Acontece que estamos numa época em que se tornou fácil exprimir esses discursos de ódio no espaço público. E em política bastam 20 ou 25% para mexerem com toda a sociedade se os restantes estiverem calados.”

O livro inclui 28 imagens, entre fotografias de família e registos históricos de arquivo – incluindo de uma câmara de gás no campo de concentração de Auschwitz. Neste sentido, para lá da vida íntima, é uma obra que também permite conhecer melhor a visão do autor sobre a função atual da fotografia.

“No início da história da fotografia, tirar uma fotografia era algo especial: era preciso saber, ter uma boa máquina, etc. Hoje isso já não interessa, todos nós somos bons fotógrafos, a mestria e o talento deixaram de contar”, explicou. “O que temos de adicionar à fotografia é o seu significado e isso requer que o artista trabalhe um outro tipo de pensamento. Não vale a pena julgar ou pensar que há 20 anos era melhor, o artista tem de tentar perceber e de dialogar com o contemporâneo.”