A aquisição de autotanques, instalação de uma nova unidade de dessalinização ou a massificação da irrigação gota a gota integram o pacote de medidas definidas pelo Governo cabo-verdiano para combater, em 2020, novo ano de seca.

De acordo com uma resolução governamental que entrou em vigor no início deste ano, este plano de mitigação de mais um ano de seca no arquipélago está avaliado em 1.102 milhões de escudos (10 milhões de euros) e prevê a implementação de medidas essencialmente no primeiro semestre de 2020.

À semelhança das duas anteriores, a campanha agrícola 2019/2020 em Cabo Verde caracterizou-se, segundo o documento do Governo consultado pela Lusa, por uma “curta estação de chuvas” e “deficitária em todo o arquipélago”. Para minimizar este cenário, o plano de intervenção para 2020 distribui-se por três eixos de ação.

Envolve a mobilização e gestão de água, com 358 milhões de escudos (3,2 milhões de euros); o reforço da produção agrossilvopastoril e proteção de ecossistemas terrestres, com 305,6 milhões de escudos (2,8 milhões de euros); e o reforço da resiliência das famílias, mobilizando 439 milhões de escudos (cerca de quatro milhões de euros).

Em concreto, o plano prevê a aquisição de oito autotanques para abastecimento e distribuição de água, até fevereiro, bem como um programa de perfurações e aquisição de equipamentos para a realização de furos de água.

Vai ainda avançar até julho um programa de reativação e reaproveitamento de seis centrais de dessalinização com capacidade total para tratar 6.200 metros cúbicos de água do mar por dia, com um custo total estimado em mais de 600 mil euros. Até maio, a previsão do Governo aponta ainda para a conclusão da aquisição e instalação de uma nova unidade de dessalinização de água do mar, com capacidade para tratar 300 metros cúbicos por dia.

Esta água será desde logo canalizada para a produção agrícola, avançando em paralelo programas de “massificação da irrigação gota a gota” em todo o arquipélago, num investimento global de 140 milhões de escudos (1,2 milhões de euros), bem como de promoção de culturas de maior rendimento ou a bonificação na aquisição da ração animal, para estimular a produção pecuária.

Para apoiar a resiliência das famílias afetadas pela seca, o programa prevê a promoção do emprego público, com a criação de postos de trabalho em áreas como acessibilidades, arruamentos e conservação de solos, investimento que ascenderá em 2020 a 300 milhões de escudos (2,7 milhões de euros).

Para “atenuação dos resultados da campanha agrícola de 2019/2020 e em conjugação com a estratégia de resiliência do setor agrário”, este programa, destaca o Governo, visa tentar garantir a “manutenção da capacidade produtiva de pecuária”, através do reforço do fabrico e comercialização de alimentos para o gado. Também pelo reforço da mobilização de água e gestão da sua escassez, “incluindo a aposta nas energias renováveis, dessalinização de água salobra e reutilização de águas residuais tratadas”.

Ainda através da criação de empregos nos municípios mais afetados, “sobretudo através da realização de obras públicas duradouras e com impacto muito positivo na qualidade do ambiente e no bem-estar dos cidadãos”.

No final de novembro, no parlamento, o primeiro-ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, anunciou um programa de mitigação dos efeitos de mais um ano de seca no país, “com incidência na mobilização de água para a agricultura, na pecuária, no emprego público”, embora sublinhando a resiliência que a população tem demonstrado.

“A seca continuou em 2019 e terá efeitos em 2020”, disse então, embora sublinhando a resiliência que o arquipélago, com quase 600 mil habitantes, tem demonstrado.

“Apesar dos consecutivos maus anos agrícolas, a garantia de abastecimento de cereais no país é regular e estável, com um prazo de cobertura média de 5,6 meses, ultrapassando o período mínimo, de garantia de abastecimento alimentar, que é de três meses”, destacou o primeiro-ministro.