O Ministério Público acusou António Teixeira, ou o “padre Tó” de paróquias como Santo Condestável, em Lisboa, e Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, de ter usado dinheiro de esmolas para proveitos próprios e para comprar carros. Como avança o Público, o sacerdote está ainda acusado de ter vendido arte sacra das paróquias que tinha a cargo no valor de dezenas de milhares de euros. Julgamento começa em 2 de junho, no Juízo Central Criminal, em Lisboa, pela alegada prática dos crimes de abuso de confiança e furto qualificado, escreve o Correio da Manhã.

O padre ficou formalmente acusado dos crimes de furto qualificado, de abuso de confiança agravado e branqueamento de capitais, o que lhe pode valer 12 anos de prisão.

O sacerdote — que continua a celebrar  missa aos domingos na igreja da Madorna, em S. Domingos de Rana, Cascais, mas que não tem atualmente nenhuma paróquia a seu cargo — tem negado as acusações. O Patriarcado de Lisboa disse que aguarda a conclusão do processo e afirma estar disponível para colaborar com as autoridades.

Durante a  investigação de seis anos o arguido foi proprietário de 19 carros, a maioria de gama média ou usados. Um dos carros comprados pelo “padre Tó”, que recebia 820 euros mensais líquidos, foi um Mercedes classe A de 36 mil euros. O clérigo justifica os gastos e alegados desvios de dinheiro e de arte sacra como ações de gestão necessárias para as igrejas que tem tido a cargo.

O Ministério Público diz que os carros foram comprados pelo padre para dissimular a origem do dinheiro. “O arguido sabia que a multiplicidade de movimentos bancários e a emissão de cheques, fazendo girar o dinheiro por diversas contas, dificultava o seguimento do seu trajeto”, diz a acusação.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi durante vários anos próximo do sacerdote, tendo até prefaciado o quarto livro do padre António Teixeira lançado no final de 2017, onde descreve o seu perfil espiritual. Quando se soube do caso, em janeiro de 2018, disse estar “surpreendido e chocado”.

Tendo sabido hoje do processo, estou surpreendido e chocado. Não esperava isto de uma pessoa que conhecia há tanto tempo das paróquias de Cascais e Carcavelos e não corresponde à ideia que tinha dele”, afirmou o Presidente da República”, disse em janeiro de 2018 Marcelo Rebelo de Sousa.

Entre a alegada arte sacra desviada estão artigos de reliquiários como um cálice cerimonial adornado com safiras, rubis e esmeraldas, mobiliário eclesiástico, objetos em prata ou marfim, como crucifixos e custódias, e várias imagens do séc. XVII. Segundo a acusação, citada pelo mesmo jornal, são peças “de valor histórico e religioso que foram retirados do interior da igreja e da residência paroquial e vendidos pelo arguido sem o consentimento da diocese”.

A venda de alguns destes artigos precisa de autorização do Vaticano, o que não terá acontecido. Durante investigação a Polícia Judiciária encontrou algumas destas peças nos antiquários João Ramada e Carlos Santos.

Artigo atualizado às 7h05 do dia 20 de fevereiro de 2020, com a data de início do julgamento