No final de novembro e no início de dezembro, quando José Mourinho substituiu Mauricio Pochettino no comando técnico do Tottenham, muito se falou sobre a nova versão do treinador português. Um Mourinho mais sorridente, um Mourinho mais sereno, um Mourinho que não fazia manchetes sempre que se sentava numa conferência de imprensa: um Mourinho que, resumidamente, fazia lembrar o Mourinho do início da carreira. Tudo isto mudou e inverteu-se, porém, assim que os resultados desportivos começaram a escapar àquilo que tinha sido quase uma sorte de principiante: nesta altura, o Tottenham leva três jogos seguidos sem ganhar e perdeu Harry Kane, a grande referência da equipa, até abril.

Com o capitão lesionado durante alguns meses — assim como Sissoko, normalmente titular no meio-campo –, Mourinho perdeu o jogador que elogiou assim que chegou a Londres e vê-se agora quase obrigado a ir ao mercado para fortalecer o setor mais adiantado da equipa (o favorito, à partida, é o polaco Piatek do AC Milan). Na conferência de imprensa de antevisão à receção ao líder Liverpool, o treinador português quase recusou falar sobre a lesão de Harry Kane: e apresentou uma razão, no mínimo, compreensível. “Se falar muito sobre isso, fico deprimido. E depois vocês [os jornalistas] dizem que estou muito triste e mal disposto. É melhor falar só sobre coisas que me fazem rir”, atirou Mourinho.

Do outro lado da barricada, em Liverpool, Jürgen Klopp aproveitou o reencontro com o português — os dois defrontaram-se várias vezes quando Mourinho ainda estava no Manchester United — para brincar sobre qual dos dois tinha sido melhor jogador. O problema foi que, no meio da piada, o treinador alemão ficou confuso sobre qual tinha sido a posição de Mourinho na condição de jogador: garantiu que achava que tinha sido guarda-redes, pediu a um jornalista para fazer uma pesquisa rápida no Google e acabou por ficar surpreendido quando descobriu que o português sempre jogou a médio. “Sorry, José”, disse, entre gargalhadas, o técnico do Liverpool.

No jogo deste sábado, José Mourinho começava por surpreender com a titularidade de Japhet Tanganga, jovem defesa de apenas 20 anos da formação do Tottenham, mas também com o sistema tático que escolheu para a receção ao Liverpool. Os spurs entravam em campo em 4x4x2, com Lucas Moura e Dele Alli a formarem a dupla mais adiantada e Son Heung-min a ficar responsável pelo lado direito do meio-campo, onde tinha a companhia de Winks, Eriksen e Aurier. Do outro lado, Klopp lançava o habitual trio ofensivo, com Mané, Salah e Firmino, e escolhia Oxlade-Chamberlain para jogar no meio-campo com Wijnaldum e Henderson.

O Tottenham apresentou-se com um bloco naturalmente baixo, com as linhas muito próximas umas das outras e a intenção de chegar perto da baliza de Alisson sempre através de transições rápidas depois de aproveitar erros do adversário ou recuperar bolas no próprio meio-campo. O Liverpool, sem surpresas, deixava apenas Van Dijk e Joe Gomez numa fase mais recuada e assumia a iniciativa, com Roberto Firmino particularmente criativo no lado direito do ataque e a ficar perto do golo logo nos instantes iniciais (2′).

O adiantar do relógio obrigou ao desvanecer da diferença de posicionamento das duas equipas, com o jogo a ser progressivamente mais disputado numa zona média, mas a superior posse de bola do Liverpool e a total ausência de envolvimento ofensivo de Danny Rose deixavam perceber que era a equipa de Jürgen Klopp a continuar por cima das ocorrências. Numa fase já mais incaracterística da partida, o Liverpool acabou por abrir o marcador de forma algo natural, depois de uma sucessão de erros no seguimento de um lançamento de linha lateral: a bola sobrou para Roberto Firmino depois de intervenções de Henderson e Salah e o brasileiro tirou Tanganga da frente para depois rematar em força e bater Gazzaniga (37′).

Mourinho apostou no 4x4x2 para receber o Liverpool no Tottenham Hotspur Stadium

Na ida para o intervalo, o Liverpool estava a ganhar de forma justa porque fez sempre mais e procurou sempre mais mas o Tottenham acabou por sofrer um golo de forma algo inglória, a partir de um lançamento de linha lateral e depois de uma sucessão de erros dentro da grande área. O primeiro lance da segunda parte mostrou desde logo que o elemento em destaque na equipa de Mourinho estava a ser Lucas Moura, o único que conseguia desequilibrar a consistência de Van Dijk e Joe Gomez e dava algum trabalho à defesa do Liverpool, e o conjunto de Klopp não demorou a recuar o bloco para ativar o ataque em formato transição rápida.

A partir da hora de jogo, muito graças ao adiantar de Winks e Eriksen no terreno, o Tottenham começou a destapar as costas da defesa e a dinâmica do encontro partiu, o que favorecia o Liverpool quando a equipa de Klopp conseguia ter bola. Lucas Moura, apoiado então pela maior presença dos dois médios na fase de construção, continuava a ser o principal operário do ataque do Tottenham, que corria atrás do prejuízo e não queria deixar o resultado por mãos alheias. Son ficou muito perto do empate mas rematou por cima depois de uma perda de bola de Wijnaldum (75′) e Lo Celso teve o golo nos pés mas rematou ao lado (82′), num lance que deixou Mourinho de joelhos no chão. Os spurs não conseguiram mesmo anular a vantagem do Liverpool, ainda que tenham ficado por cima do jogo no último quarto de hora e tenham deixado patente uma perseverança assinalável.

José Mourinho voltou a não conseguir bater Jürgen Klopp — em 11 jogos contra o alemão, só ganhou dois –, chegou às quatro partidas seguidas sem ganhar e atingiu mesmo um registo negativo histórico na própria carreira. Nunca, desde que é treinador, tinha o português sofrido 20 golos tão rápido, já que só precisou de 13 jogos para sofrer 20 golos. Em comparação, na primeira passagem por Inglaterra ao serviço do Chelsea, Mourinho teve de disputar 44 jogos para sofrer 20 golos, bem mais do que o dobro dos números que regista nesta altura.