“É o mesmo que me acontece quando jogo xadrez. Muitas das coisas foram-me explicadas mil vezes mas nunca entenderei na minha vida. Há jogadores a quem custa compreender as indicações mas são bons noutras facetas. O tempo coloca cada um no seu sítio. A realidade é que qualquer futebolista que entenda o espaço, o tempo, as posições e todo esse tipo de elementos poderá ser melhor futebolista porque recebe a bola sozinho, terá tempo para combinar melhor ou para rematar à baliza. Não tenho um sistema concreto ou preferido, vamos mudando segundo as necessidades do jogo (…) Tentamos não ter sempre um sistema definido mas sim prever a possibilidade de mudanças que possam alterar o que o nosso rival espera de nós. De qualquer forma, o que não muda é a essência do que temos – essa diz-nos que temos de sair de trás com a bola, combinar para chegar à frente com clareza passado a bola e aproveitando ou provocando a debilidade no nosso rival.”

Num texto publicado na Marca, Quique Setién, treinador de 61 anos, explicou na primeira pessoa como vê o futebol e como tenta ser melhor do que o adversário. Aqui, como em quase tudo, o espanhol faz uma alusão ao xadrez. E existe uma razão de ser para isso: adepto e praticante da modalidade desde pequeno, chegou a participar em alguns torneios internacionais e chegou mesmo a defrontar monstros como Gary Kasparov, Anatoli Karpov ou… o Deep Blue Júnior, a convite da IBM. Mais: chegou mesmo a escrever artigos para o jornal El Mundo, incluindo um longo perfil sobre outras das grandes figuras do xadrez e ex-campeão mundial, Bobby Fischer. O tabuleiro que tem Messi como rei mas que foi ultrapassado como um simples peão esta temporada ganhou um novo mestre e, depois das alegadas recusas de Xavi Hernández e Ronald Koeman, Ernesto Valverde já tem sucessor.

Antigo médio que chegou a ser internacional por três ocasiões, Setién estreou-se como sénior no Racing Santander (clube da cidade onde nasceu) e mudou-se para o Atl. Madrid em 1985, altura em que fez os jogos com a camisola da Roja. Três anos depois, nova mudança para o Logroñes onde jogou até ao regresso a Santander e um último ano no ativo ao serviço do Levante, numa carreira de quase 20 anos onde ganhou apenas uma Supertaça de Espanha quando estava nos colchoneros. Como treinador, desde 2001, nunca conquistou nenhum troféu mas nem por isso deixou de ter um hype sobretudo pela forma de jogar do Betis nas duas últimas temporadas.

À exceção de uma curta experiência em 2006 ao serviço da seleção da Guiné Equatorial, Quique Setién fez todo o percurso também em Espanha e a começar no clube do coração, o Racing Santander, tendo atravessado equipas em divisões secundárias como Ejido, Logroñes e Lugo, destacando-se de forma mais efetiva na Liga principal quando chegou ao Las Palmas, em 2015, e ao Betis, dois anos depois, onde treinou William Carvalho com um sexto lugar em 2017/18 que permitiu o acesso à fase de grupos da Liga Europa da temporada seguinte.

Adepto das ideias de Johan Cruyff como jogador e treinador, e ao contrário de Valverde, Setién sempre foi ligado ao Barcelona pelas ideias e não por um passado no clube (que não teve). Entre elogios a Pep Guardiola, que escreveu no portal Gol, o espanhol chegou mesmo a dizer que “dava o dedo mindinho para jogar no Dream Team” do holandês no final dos anos 80 mas foi mais longe: “Tudo o que sou como treinador devo-o ao muito que corri atrás da bola quando jogava contra o Barcelona”, frase recordada pelo Mundo Deportivo, que destaca ainda as longas conferências de imprensa que são outra das imagens de marca e que chegam a ser de uma hora. O 20 minutos recorda ainda o triunfo do Racing frente ao Barcelona em 1995 por 5-0… com um golo de Setién.

As ligações aos catalães não ficam por aí e o Mundo Deportivo recorda também outro pormenor que diz muito sobre a ideia que Setién conseguiu cultivar nas últimas quatro temporadas em que treinou na Primeira Liga, antes de uma saída do Betis já em conflito com os adeptos por ter elevado a fasquia na primeira temporada com um sexto lugar que não teve continuidade (e que em grande parte foi explicado pelo próprio num artigo escrito no site The Coaches’ Voice): depois do triunfo por 4-3 em Camp Nou em novembro de 2018, Sergio Busquets, médio dos blaugrana e um dos jogadores com mais tempo de clube, ofereceu a sua camisola ao técnico adversário. “Para o Quique, com apreço e admiração pela tua maneira de ver o futebol”, escreveu na dedicatória.

“É óbvio que sou um admirador do futebol que o Barcelona pratica. Sempre gostei. É algo que sentia já quando jogava como profissional. O Barcelona abriu o caminho a muitos conceitos que, apesar de serem a minha intuição pela forma de entender o futebol, te fazem identificar de verdade porque consegues vê-los. O Barça abriu-me os olhos: o futebol joga-se sem pressas. É uma equipa que tem bola, que quer ter bola, que conserva a bola e que a troca enquanto procura espaços sem pontapés para a frente. É isso que gosto nas minhas equipas”, referiu um dia citado pelo Sport, na mesma entrevista em que admitiu o sonho de poder um dia chegar a Camp Nou e considerou Lionel Messi “o melhor jogador de sempre” pelo que tem conseguido fazer ao longo de vários anos seguidos.

Agora, El Maestro, alcunha ganha em Santander e recordada pelo Barcelona em dez curiosidades apresentadas sobre o novo treinador, que também brilhou no futebol de praia após terminar a carreira ao serviço da seleção de Espanha (sendo por exemplo a grande referência de um dos melhores jogadores de sempre, Amarelle, como o canhoto confessou em entrevista ao La Voz de Galicia), tem o maior desafio de sempre no palco onde quis sempre chegar – e com um contrato até 2022, mitigando assim a ideia de ser apenas uma espécie de interino com nome até à chegada de Xavi Hernández. O homem do xadrez vai entrar em cena. E as peças estão lá todas.