“O que foi não volta a ser
Mesmo que muito se queira
E querer muito é poder
O que foi não volta a ser (…)”

A letra é dos Xutos e Pontapés mas ajuda a explicar os chutos e pontapés do Tottenham nos resultados nos últimos jogos. José Mourinho regressou a Londres para uns spurs que o viam como um Special One que há década e meia chegou à Premier League e revolucionou por completo o que era o Chelsea. As coisas começaram a correr bem porque o português tinha um plano. O mesmo plano que admite ter falhado. E que o próprio explica porquê.

“Se quiserem saber o que queria fazer aqui, olhem para o meu primeiro jogo, contra o West Ham. Era dessa forma que pensava que ia desenvolver a equipa: defesa a quatro e quando passássemos para a organização ofensiva defesa a três. Isso significa que o meu lateral esquerdo defende como lateral mas quando atacamos torna-se um dos três de trás, projetando o lateral direito do outro lado. Esse foi o meu primeiro dia de azar, adeus Ben Davies”, explicou de forma aberta na antecâmara da repetição do jogo da Taça de Inglaterra com o Middlesbrough.

“Quando o perdi ainda tentámos mas com jogadores diferentes. Depois perdes mais um, outro, depois perdes o Kane e não tens ponta de lança. Depois vais a Middlesbrough e jogas com Lucas [Moura] e Son na frente mas percebes que a equipa está mais confortável jogando de forma larga, depois tens de puxar um para a ala, depois não tens…. Em vez de construir alguma coisa que se veja, estamos numa situação em que tentamos criar uma equipa que possa jogar amanhã [terça-feira] e dar algumas garantias de sucesso. E depois de amanhã logo vemos o que temos para sábado [Watford fora para a Premier League, 12h30]. É uma situação difícil mas que me ajuda a perceber cada vez melhor os jogadores, as opções, o que têm para dar ou não”, completou.

No seguimento de uma série de quatro encontros sem vencer, e após uma derrota complicada de digerir frente ao Liverpool (1-0) que o próprio Jürgen Klopp assumiu ter sido uma das mais difíceis pela capacidade do Tottenham encostar o campeão europeu às cordas (ainda que sem KO ou TKO no final), José Mourinho fez um balanço dos primeiros quase dois meses de regresso a Inglaterra, explicando de forma detalhada o que pensou e o que falhou nessa linha de pensamento para os spurs não estarem hoje num patamar acima. Ainda assim, e numa altura onde se apontam vários nomes como possíveis reforços para o ataque, como Piatek (AC Milan) ou Cavani (PSG) – além do médio do Benfica Gedson Fernandes ou de Lemar (Atl. Madrid) –, preferiu olhar para os seus.

Explicando que só conseguiu dar folga a um dos habituais titulares (Alderweireld), o técnico assumiu que Eriksen, outrora o principal estratega da construção de jogo ofensivo do Tottenham, não atravessa o melhor momento, como se viu na exibição com o Liverpool. E numa altura em que se fala com cada vez maior insistência na hipótese de já ter assinado pelo Inter por estar em final de contrato, quase que “desculpou” o dinamarquês pela fase que atravessa, admitindo que é complicado para um jogador estar bem nesse contexto. Hoje, o médio esteve melhor mas foram os dois argentinos habitualmente suplentes que fizeram a diferença logo a abrir.

Fruto de linhas de pressão muito altas que condicionaram a saída do Middlesbrough logo à saída da sua área, Lo Celso precisou de menos de dois minutos para inaugurar o marcador, roubando uma bola passada pelo guarda-redes Tomás Mejías para fintar o primeiro adversário e rematar rasteiro de pé esquerdo para o 1-0. E ainda antes do primeiro quarto de hora, Lamela conseguiu também ficar com a bola à entrada do último terço, avançou para a área e desviou na cara do guarda-redes de pé esquerdo para o 2-0 que ditaria o resto do encontro.

Gazzaniga, que manteve a posição apesar de ser um jogo da Taça de Inglaterra, ainda teve algumas defesas mais apertadas nas poucas hipóteses que o conjunto de Jonathan Woodgate conseguiu criar mas o jogo foi servindo para Mourinho testar opções e movimentações, com destaque para Ryan Sessegnon, jovem inglês que se destacou pelo Fulham como ala esquerdo, foi o primeiro jogador nascido este século a marcar na Premier League após ter feito a estreia com apenas 16 anos e voltou a estar em destaque como lateral esquerdo (mas com características bem distintas de ben Davies dentro da ideia pensada para o jogo do Tottenham), apesar de um falhanço inacreditável a um metro da baliza isolado que deixou Mourinho de mãos na cabeça. Com isso, o jogo foi andando sem golos até George Saville reduzir aos 83′ para o 2-1 com que se chegaria ao final do encontro em Londres.