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Golfinhos e gaivotas mortos no Sado. Ambientalistas querem respostas e alertam para perigo das dragagens

Aparecimento de animais mortos pode estar relacionado com efeitos das dragagens no rio Sado destinadas a alargar o porto de Setúbal. Ambientalistas querem autópsias para comprovar causas da morte.

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Excerto de vídeo de recolha de golfinho morto no estuário do Sado

Excerto de vídeo de recolha de golfinho morto no estuário do Sado

Vários animais, incluindo cinco golfinhos e dezenas de gaivotas, apareceram mortos ao longo das últimas semanas nas margens do estuário do rio Sado.

De acordo com uma nota do movimento SOS Sado, que tem recolhido várias denúncias anónimas de cidadãos, não é possível para já estabelecer uma ligação de causa-efeito com as obras de dragagem do rio Sado que decorrem neste momento para aumentar a capacidade do porto de Setúbal — embora a coincidência temporal e a forma como os cadáveres foram encontrados seja consistente com um possível envenenamento pelos sedimentos retirados do fundo do rio pelo processo de dragagem.

“Os três primeiros golfinhos foram encontrados no mesmo dia e o último, o quarto, foi encontrado na passada semana. Já ontem [segunda-feira], foi filmado um quinto golfinho morto, no espaço de apenas um mês”, lê-se no comunicado do movimento SOS Sado, que se opõe às dragagens no rio.

“Há uma semana, surgiu igualmente um vídeo onde se podem observar gaivotas moribundas, ou já mortas, no areal das praias de Tróia e nos cabeços do Rio Sado. Foram múltiplos os relatos sobre as gaivotas, por quem usa o rio para praticar desporto e por quem esteve no areal das praias, dando-nos conta de um número elevado de aves nestas condições sem aparentarem lesões físicas visíveis“, acrescenta a nota.

Ao Observador, chegaram também imagens de várias gaivotas mortas, sem lesões físicas aparentes, captadas mais a norte, já na praia dos Moinhos, em Alcochete, junto ao rio Tejo.

7 fotos

“A única questão que nos move relativamente a estas ocorrências é exigir às autoridades competentes todos os esclarecimentos acerca dos contornos destas mortes, e a garantia de que as mesmas não indiciam qualquer perigo para a saúde pública”, continua o movimento SOS Sado, classificando como “preocupante” a “cadência de aparecimento” de animais sem vida na região.

Neste âmbito, um outro movimento ambientalista ligado a esta causa, o SOS Animal, pediu aos vários grupos parlamentares que exigissem, na Assembleia da República, esclarecimentos sobre o que tem causado a morte a diversas espécies no rio Sado e nas margens do estuário.

A plataforma SOS Sado não afirma taxativamente que as mortes dos animais estejam relacionadas com as dragagens do rio. “Quanto às coincidências temporais destas ocorrências com o projecto de alargamento do Porto de Setúbal, caberá às equipas de monitorização deste projecto o seu cabal esclarecimento“, lê-se no comunicado.

Já o movimento SOS Animal, que divulgou os vídeos dos animais mortos na internet, sublinhou numa publicação no Facebook que tomou conhecimento dos animais mortos através do SOS Sado e “no seguimento das preocupações manifestadas pela SOS Animal sobre as consequências devastadoras das dragagens do Sado no ecossistema local”.

Apelámos por isso aos grupos parlamentares que solicitassem esclarecimentos junto das entidades competentes e autarquias, recomendando ainda o esclarecimento público destas questões de interesse nacional, não só para confirmar as consequências nefastas das dragagens do Sado no ecossistema, mas também nos seus habitantes e na saúde pública“, afirma a plataforma nacional que se dedica à defesa dos direitos dos animais.

Dragagens são perigosas para animais

A presidente do SOS Animal, Sandra Duarte Cardoso, explicou nesta quarta-feira ao Observador que não é possível atribuir a morte dos animais às dragagens do rio sem analisar primeiro os cadáveres.

Não lhe posso dizer se está ou não relacionado com a dragagem porque não tive acesso a relatórios de autópsia dos cetáceos. Em relação a aves, também não temos conhecimento de nenhum indivíduo dos grupos encontrados ter sido enviado para o INIAV [Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária] para ser autopsiados”, afirmou Sandra Duarte Cardoso.

“Sem esses relatórios, não podemos avaliar para perceber se é compatível ou não com o envenenamento por ingestão dos sedimentos dragados, ou para perceber se os animais arrojados podem ter lesões compatíveis com a dragagem”, acrescentou.

Além disso, a responsável pelo movimento ambientalista notou que “os arrojamentos de cadáveres estão habitualmente relacionados com tempestades em mar, algo que nestes dias não se verificou, o mar estava espelho“.

O rio Sado está desde o passado mês de dezembro a ser sujeita a uma operação de dragagem que visa retirar do fundo do leito do rio cerca de 3,5 milhões de metros cúbicos de areia. O objetivo é aprofundar o rio para melhorar as acessibilidades ao porto de Setúbal, aumentando a capacidade da zona portuária para receber navios de maior dimensão.

O projeto tem sido alvo de duras críticas por parte das associações ambientalistas, que alertam para os perigos da dragagem para os habitats de várias espécies que vivem na região. A obra já foi contestada em tribunal por diversas vezes por organizações que interpuseram várias providências cautelares, mas nenhuma teve força suficiente para travar o projeto.

Sandra Duarte Cardoso explica que o processo de dragagem — que é levado a cabo por uma embarcação (a draga) equipada com pás que escavam o fundo do rio e com um mecanismo de sucção que aspira os sedimentos — tem inúmeros riscos para os ecossistemas.

Por um lado, o ruído dos motores e do mecanismo de sucção provoca “interferência com a comunicação e a alimentação dos golfinhos”, uma vez que “a zona onde estão a ser feitas as dragagens é uma zona de alimentação para estes animais, quer para golfinhos de colónias residentes quer para outros golfinhos“.

Ao mesmo tempo, há problemas causados na zona onde são depositados os sedimentos. As areias que não são aproveitadas “podem ser consideradas venenosas” devido à presença de elementos como metais pesados provenientes do fundo do rio — e que ao serem ingeridos pelos animais, nomeadamente pelas gaivotas, podem causar-lhes a morte.

O depósito dos sedimentos em regiões das margens provoca, além disso, a “asfixia” das chamadas “pradarias marinhas”, acabando por aniquilar os habitats de espécies como o cavalo-marinho.

O processo de escavação do fundo do rio também tem fortes impactos na qualidade da água, uma vez que não é a totalidade dos sedimentos que é aspirada pelos mecanismos de sucção.

“Estamos a falar da suspensão de partículas e da turvação da água. Quando falo de sedimentos, falo da dispersão pela água de contaminantes e de poluentes presentes nos sedimentos, como o crómio e muitos outros metais pesados“, exemplificou a ambientalista.

Fora de água, as principais vítimas serão as aves. “Têm sido reportados grandes grupos de gaivotas mortas, mas aquela zona é uma maternidade onde invernam mais de 200 espécies de aves”, afirmou Sandra Duarte Cardoso, acrescentando que os bandos de gaivotas que têm surgido têm “sintomatologia compatível com o envenenamento”.

Pode estar ligado à ingestão dos sedimentos. As aves andam muito de volta da draga a comer o que sai dali“, explicou. Porém, só depois de analisar um relatório toxicológico é que a relação pode ser estabelecida com certezas.

“Benefícios económicos para quem?”

A obra de alargamento das capacidades do porto de Setúbal tem sido alvo de várias providências cautelares. “Infelizmente, o entendimento do juiz é sobre se aquilo está contra a lei ou não. De facto, os trâmites legais foram cumpridos. O que temos de discutir é se foi avaliado ou não o real impacto das dragagens na zona”, lamentou Sandra Duarte Cardoso.

“Todos os estudos, mesmo os que foram encomendados pela empresa para que reverteu a dragagem, falam em destruição irreversível dos habitats. Os cientistas alertaram para os impactos neste ecossistema, que é muito singular e é uma das maiores maternidades da Europa”, considerou a ambientalista.

A draga que se encontrava a conduzir o processo deixou Setúbal nesta semana, já tendo chegado uma nova embarcação destinada a continuar a empreitada. “Nunca houve nenhuma suspensão da dragagem para avaliação ambiental, nem pela recomendação que passou na Assembleia da República”, afirmou Sandra Duarte Cardoso.

No final de dezembro, o Parlamento aprovou duas recomendações — uma apresentada pelos Verdes e outra pelo PCP — que pediam a suspensão das dragagens no Sado para avaliação do impacto ambiental do projeto. Só PS e CDS votaram contra. Iniciativa Liberal e Chega abstiveram-se. O PSD juntou-se à esquerda e ao PAN para aprovar a recomendação.

As recomendações estão na gaveta“, destacou a ambientalista, lamentando que a dimensão económica se tenha sobreposto à ambiental na avaliação do impacto do projeto.

Mas mesmo os benefícios económicos são “discutíveis”, considerou. “Vamos impossibilitar a atividade piscatória. E o impacto nas águas, que quando for verão e começarmos a ir para a praia é que vamos perceber. Depois de o mal estar feito é que vamos avaliar esta situação.”

Benefícios económicos para quem?“, perguntou Sandra Duarte Cardoso. “Destroem um destino verde. Toda aquela comunidade, que tem o seu ganha-pão no turismo, vai desaparecer. Quantos postos de trabalho vamos perder para entrarem mais exportações?”

ICNF fala em “acontecimento comum”

O Observador questionou o Governo sobre a situação e sobre as eventuais relações com a obra da dragagem do Sado, tendo sido remetido para um comunicado do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), emitido na terça-feira em reação a uma notícia da TVI sobre o assunto, também focada no aparecimento de animais mortos no estuário do Sado.

Argumentando que o golfinho que surge nas imagens divulgadas pela SOS Animal “não corresponde a um Golfinho Roaz”, o ICNF diz que aquele animal “não pertenceria à comunidade de Golfinhos do Estuário do Sado“.

“A reportagem refere-se por um lado a golfinhos mortos no estuário do Sado sendo que, por outro lado as legendas mencionam golfinhos mortos entre a Comporta e o Carvalhal, pelo que importa clarificar que existe uma diferença significativa entre as 2 áreas de distribuição e as espécies de cetáceos que as frequentam”, diz o comunicado.

Sem abordar os impactos da dragagem nos ecossistemas e nos animais, o ICNF afirma que “existe uma rede nacional de resposta a arrojamentos — fenómeno de arrastamento de animais nas zonas de costa por efeito das marés — de mamíferos marinhos coordenada pelo ICNF que articula a intervenção das diferentes entidades com competência na matéria”.

Além disso, sublinha o ICNF, “o arrojamento de mamíferos marinhos na costa portuguesa é um acontecimento comum que ocorre durante todo o ano e ao longo de toda a orla costeira e tem diversas origens, desde a morte natural dos animais à captura acidental em artes de pesca, ou devido a fenómenos meteorológicos extremos; a situação descrita será avaliada em conjunto com as entidades que fazem parte da rede de arrojamentos e dessa avaliação será dada nota pública.”

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