Rui Rio tem feito gala de que todos os militantes que votaram nele nas diretas do sábado passado fizeram-no por convicção, já que ele não ofereceu lugares a ninguém. A crítica é velada mas é direcionada ao seu adversário direto, Luís Montenegro, que, esta quarta-feira, em entrevista à Antena 1, fez ricochete com a acusação. “Eu não ofereci lugares a ninguém (…) e não aceito estar a ser alvo dessas insinuações e assistir àqueles que lançam as suspeitas para o ar a fazer precisamente o que acusam os outros de fazer”, disse, acusando diretamente “membros da direção de Rui Rio” de abordarem militantes que têm manifestado apoio à candidatura de Montenegro no sentido de lhes oferecer lugares autárquicos ou em estruturas autónomas do partido.

“Têm-me sido relatado conversas de membros da direção política do PSD, membros da comissão permanente e da comissão política, que estão a abordar pessoas que têm manifestado apoio à minha candidatura no sentido de lhes falar de opções em relação às autárquicas, ou mesmo em relação a estruturas autónomas, numa tentativa de tentar correlacionar esses posicionamentos com decisões que vão estar nas mãos da nova direção política”, disse, deixando no ar a acusação, mas sem dizer nomes.

Para Luís Montenegro, não há vencedores e vencidos à partida, nesta segunda volta, uma vez que há ainda 9 mil militantes inscritos nos cadernos que não votaram no sábado passado e podem votar agora, e uma vez que “Rui Rio perdeu sete mil votos desde as diretas de há dois anos”. Logo, diz, “a eleição está em aberto”. Luís Montenegro invocou ainda um dos argumentos que já tinha usado no discurso da noite eleitoral: que a mudança foi “maioritária” na primeira volta, ou seja, “há um espaço onde se permite ambicionar uma mudança no PSD”. Sem Pinto Luz na jogada, Montenegro aposta tudo na junção de esforços do voto anti-Rio.

Mudança é, de resto, aquilo que o ex-líder parlamentar se propõe a fazer não só no PSD como na política portuguesa em geral. “Eu venho para mudar o PSD, não venho para deixar tudo na mesma”, diz na mesma entrevista, sugerindo que “está tudo muito acomodado no PSD e na política portuguesa”, e que as pessoas no geral, e o PS em particular, querem que Rui Rio se mantenha na liderança dos sociais-democratas. “Eu venho para mudar o xadrez partidário português, venho para fazer mexer a peça que falta mexer, porque o PS anda demasiado à solta na política portuguesa”, afirma.

Questionado sobre se tem o apoio de ex-líderes do partido, o ex-líder parlamentar de Passos Coelho recusou dizer nomes, a não ser o de Rui Machete, que o apoia publicamente, mas deixou uma certeza: “Eu sei que há muitos antigos líderes do PSD que votam em mim e que me apoiam, não tenho nenhuma dúvida sobre isso”.  Já sobre as eleições autárquicas, que Montenegro tem dito que a meta é a vitória, desta vez prefere ser mais cauteloso: “Se me pergunta se é fácil recuperar a diferença [de câmaras face ao PS], eu diria que não, que é difícil. Mas se me perguntar se temos capacidade, dentro do PSD e fora, de corporizar candidaturas ambiciosas, eu digo que sim”. Para Luís Montenegro é “exequível ganhar as autárquicas”, e é “possível”. “Eu vou fazer tudo para as ganhar, e considero que é possível ganhar”, disse.

Na mesma entrevista à Antena 1, Luís Montenegro afirma que o que mais o distingue de Rui Rio é a “forma de gerir o partido”. “Ele está em permanente conflito com o seu próprio partido, eu sou mais apologista de que devemos estar unidos e coesos na nossa diversidade”, disse, resumindo as diferenças numa só frase: “Eu não sou um divisionista, sou um agregador, a atual direção é absolutamente divisionista e continua a fazer convites ao conflito, à divisão”.