Quem disser que Robert Sarah é um opositor do papa Francisco está a ser usado pelo “diabo” para “dividir as pessoas, prejudicar as relações humanas e pô-las umas contras as outras. A Igreja é representada na Terra pelo Vigário de Cristo, ou seja, o papa. E quem é contra o papa, é ipso facto contra a Igreja“, disse o polémico cardeal numa entrevista ao Corriere della Sera em outubro de 2019.

Até podem ser “especulações absurdas”, como acusa, mas Robert Sarah, guineense de 74 anos, cardeal da Igreja Católica desde 2010, é mesmo percecionado como o líder da oposição ao papa Francisco. No novo livro, “Do Fundo do Coração”,  que alegadamente escreveu com Bento XVI, o cardeal disserta sobre o celibato como “um dom para a Igreja”, admite estar contra que ele seja opcional e confessa ser contra a ordenação de homens casados. Tudo ideias que o papa Francisco defendeu antes de a obra chegar às bancas.

Embora relevante dentro do seio da Igreja, apontado como sucessor de Bergoglio pela ala mais conservadora, Robert Sarah tornou-se conhecido fora da instituição por alegadamente ter assinado esse livro com Bento XVI.  Mas o papa emérito exigiu que o nome dele desaparecesse da obra porque diz não ter participado nela.  As teorias vagueiam entre a possibilidade de Ratzinger ter sido manipulado e não ter tido influência no conteúdo do livro; e um cenário em que isso aconteceu mesmo, como sugerem as cartas alegadamente trocadas entre os Ratzinger e Sarah e tornadas públicas depois da polémica.

Migrantes, homossexualidade e celibato: as polémicas de Robert Sarah

Robert Sarah é uma referência por ter sido nomeado arcebispo com apenas 34 anos, nos tempos de João Paulo II. Critica a Igreja por viver numa “noite negra” de “padres infiéis, bispos e até cardeais que falham em trazer a verdade de Cristo” — numa referência aos casos de abuso sexual dentro da Igreja —, mas defende alguns dos princípios mais conservadores da instituição, contrariando as visões mais vanguardistas do papa.

Ainda antes da polémica com o livro assinado com Bento XVI, Robert Sarah já se tinha envolvido noutra, quando afirmou que a Igreja “não é uma ONG” e portanto devia “falar mais de Deus” do que de “migrantes marginalizados e pessoas sem-abrigo”.

As declarações foram proferidas durante a mesma entrevista em que negou ser opositor do papa Francisco. Afirmando primeiro que também Bergoglio defende que a Igreja não deve ser transformada “numa sociedade anónima”, Robert Sarah prossegue: “Os padres chegam ao ponto de não falar de Deus e do escândalo da cruz de Jesus, mas de se comprometerem de corpo e alma em questões sociais, como a agricultura, ecologia, diálogo, luta contra a pobreza, justiça e paz”.

E isso está errado, questionou o Corriere della Sera? “Estas são questões importantes e vitais contra as quais a Igreja não pode fechar os olhos”, começou por responder o cardeal, para depois rematar: “Mas ninguém está interessado em uma igreja assim“.

Neste tema, como na possível ordenação de homens casados em locais como a Amazónia, Robert Sarah defende: “Aproveitar a introdução de planos ideológicos seria uma manipulação indigna, um engano desonesto, um insulto a Deus que guia a sua Igreja e lhe confia o seu plano de salvação”.

Ainda sobre o tema da migração, numa entrevista à revista francesa Valeurs Actuelles, Robert Sarah disse que a Igreja estava a ser “enfeitiçada” pela política” — um feitiço que a levou a “interpretar mal” as palavras dos Evangelho sobre o assunto: “É melhor ajudar as pessoas a florescer na sua cultura do que incentivá-las a vir para a Europa em plena decadência”, defendeu.

Noutra ocasião, numa entrevista ao La Repubblica, apelidou as relações entre pessoas do mesmo sexo de “retrógradas para a cultura e para a civilização”: “Nenhuma cultura não ocidental está a mover-se na direção de aprovar uniões homossexuais. Ninguém na cultura africana vê isso com aprovação, porque esta é uma união que não está aberta à vida”, afirmou em 2015.

Mais: nessa mesma entrevista, o cardeal sugeriu que as relações homossexuais “estão contra os planos de Deus”. “As uniões homossexuais são completamente contra o plano de Deus, que era criar homem e mulher que se complementam perfeitamente. E a família e o futuro da sociedade vêm dessa união. Uma união homossexual não tem futuro, não cria vida”, afirmou.