Terça-feira, fase de instrução do caso de Tancos. Quarta-feira, julgamento do caso de Alcochete. Quinta-feira, fase de instrução do caso de Tancos. Sexta-feira, julgamento do caso de Alcochete. O Tribunal de Monsanto, que até às férias judiciais teve como único processo mais mediático a invasão à Academia do Sporting, passou a dividir desde a semana passada os “holofotes” com outro caso que promete concentrar atenções em 2020 e também com isso existiu uma alteração nos dias normais do julgamento do caso de Alcochete. E neste caso nem foi o único ponto diferente: houve apenas uma testemunha do Ministério Público entre outras testemunhas abonatórias.

[O resumo do dia 19 do julgamento do caso de Alcochete]

Com o adiamento do testemunho de Piccini por Skype, pelo facto de o antigo lateral leonino hoje no Valencia se encontrar nesta altura em viagem, João Rollin foi a única testemunha do Ministério Público na 20.ª sessão do julgamento do caso de Alcochete. Secretário técnico adjunto da equipa principal do Sporting desde a chegada de Jorge Jesus ao clube, depois de ter começado a acompanhar no Sporting atletas de formação a partir de 2010 e de ter passado pela equipa B, foi uma das pessoas que no dia da invasão sabia de forma antecipada que adeptos se iriam deslocar a Alcochete (recordando depois outras idas ao local em anos anteriores, incluindo na era pré-Bruno de Carvalho) e explicou como tirou Bas Dost do balneário para o departamento médico, ao mesmo tempo que disse ter visto Acuña e Battaglia a responder aos insultos dos adeptos no exterior do estádio da Madeira.

[O resumo do dia 18 do julgamento do caso de Alcochete]

“Estava à entrada do campo número 2 e 3 depois de ter sido informado pelo Ricardo [Gonçalves, chefe de segurança] e pelo Vasco [Fernandes, secretário técnico principal] que viriam adeptos à Academia. Vi os indivíduos a correr, estava com Paulo Cintrão e pessoas da Sporting TV. Abri os braços, tentaram entrar no campo mas viram que só estava lá o Jesus”, começou por referir, numa primeira intervenção que por trazer um ponto pouco falado entre as testemunhas do Ministério Público ligadas ao Sporting foi depois escalpelizada.

[O resumo do dia 17 do julgamento do caso de Alcochete]

“Cheguei à Academia depois de almoço nesse dia. O Ricardo Gonçalves chamou-nos e disse que os adeptos iriam lá. Conversámos um bocado sobre isso. Foi quando estava no meu gabinete que nos chamou, disse que tinha recebido uma chamada do Bruno Jacinto [Oficial de Ligação dos Adeptos], que tinha informado a GNR e que iria fechar a porta. Já não era a primeira vez que isto acontecia na Academia”, recordou, prosseguindo: “Foi 20 minutos, meia hora antes de chegarem. Disse que o Bruno Jacinto lhe disse que os adeptos iam à Academia. O Vasco disse então que ia ligar ao André Geraldes, que estava com outras coisas. Não sei mesmo se falaram ou não… A minha preocupação? Não sabíamos se era a sério, a minha ideia foi trancar as portas do lado de fora”.

[O resumo do dia 16 do julgamento do caso de Alcochete]

João Rollin recordou depois outras idas de elementos das claques à Academia, em moldes ainda assim diferentes. “Desde que estou no Sporting lembro-me de pelo menos quatro vezes em que foram à Academia. Duas das visitas foram consertadas: chegaram à porta, foram recebidos pelo segurança, conversaram com o mister Jesus, foram recebidos numa salinha apesar de virem chateados. Porque fechei as portas? Porque nenhum de nós queria que eles entrassem no edifício. Da outra vez também quiseram porque iam à frente do segurança e não a acompanhar o segurança. Mas acabou tudo pacificamente”, salientou, antes de falar ainda nos tempos em que José Couceiro era diretor [antes de 2013] e Paulo Almeida estava como responsável pela segurança. Mais tarde, precisou que esses indivíduos quando iam à Academia “falavam alto e de uma forma intimidatória”.

[O resumo do dia 15 do julgamento do caso de Alcochete]

Peço desculpa mas normal… As pessoas entram em casa quando eu deixo, não chegam, sentam-se no sofá e depois perguntam”, atirou a juíza Sílvia Rosa Pires a propósito dessas idas à Academia.

[O resumo do dia 14 do julgamento do caso de Alcochete]

“Fechei as portas todas do exterior que permitem ser fechadas com chave, que são três portas. Fechei por dentro. O roupeiro, o João Reis, esteve comigo enquanto estava a fechar essas portas. Depois fui para o campo, onde costumo estar sempre que há treino por ser preciso alguma coisa, onde já estava o Jorge Jesus e o Paulinho. O vigilante que estava antes do campo recebeu a informação de que estavam a entrar na Academia através do seu rádio. Depois o Vasco ligou-me a dizer que estavam a entrar e que iam para a porta do campo. Liguei depois para o João Reis para fechar as portas. Vi os indivíduos a correr, da zona da formação. Abri os braços perante aquilo, uns passaram pela minha direita, outras pela esquerda, um acendeu uma tocha, disse para sair dali. E iam continuando a passar indivíduos enquanto isto estava a decorrer”, contou, antes de pormenorizar os movimentos do grupo.

[O resumo do dia 13 do julgamento do caso de Alcochete]

“O Ricardo depois passou com eles a dizer ‘Não façam isto, vão-se arrepender, isto não faz sentido’. Depois atiraram uma tocha para o descampado, outra para o carro do Nelson, duas para o relvado e uma para o teto da Academia. Começaram aos pontapés à porta da casa das botas e houve um com um cinto que disse ao Ricardo qualquer coisa do género ‘Sai daqui ou ainda levas’. Desistiram depois daquela porta e há um que diz para tentarem outra porta, que também não conseguiram abrir. Sabia que a probabilidade de a GNR chegar entretanto era elevada porque tinha sido chamada. A seguir foram para a entrada principal, que é elétrica, forçaram e conseguiram entrar. Essa estava trancada porque quando entrei vi que estava forçada. A porta do scouting estava aberta, passaram pelo Manuel Fernandes e não disseram nada”, recordou, detalhando os acontecimentos.

[O resumo do dia 12 do julgamento do caso de Alcochete]

“Entraram umas 30 pessoas, não sei dizer ao certo porque eram muitas. Eu provavelmente terei entrado no meio. Pensei que a porta de acesso ao balneário estaria fechada porque tinha ligado ao João Reis. Depois ouvi o alarme a tocar, ou porque alguém forçou ou porque tinham acendido uma tocha, e com isso as portas abrem de forma automática. Vi o Dost ferido, levei-o para a casa de banho, lavei aquela zona, vi a ferida e disse-lhe para ficar ali. Fui por dentro e entreguei o Bas Dost ao doutor Virgílio no departamento médico. Quando voltei só vi o alarme a tocar, muito fumo, o Mário Monteiro a mostrar a camisola queimada, tudo desolado… O Daniel [Podence] a dizer que queria ir embora, o Rafael Leão a dizer que conhecia um deles da escola… Alguém me disse depois que o Jorge Jesus tinha levado uma chapada ou um soco e vim cá fora ver. Estava o Jorge Jesus, William e uns quatro ou cinco, Fernando Mendes, o BA [Aleluia, Elton Camará]. Diziam ‘Isto não era para acontecer, estamos de cara destapada, não entrámos, não fizemos isto’ e o William a dizer que se tinha descontrolado. Fui depois a correr para a porta da Academia, encontro o Ricardo e vejo um carro da GNR”, acrescentou, antes de acompanhar os primeiros agentes à paisana que tinham chegado ao espaço. “A partir daqui já estava muito cansado…”.

[O resumo do dia 11 do julgamento do caso de Alcochete]

Quem agrediu o Bas Dost com o cinto tinha t-shirt preta, calça de ganga azul. Tinha uma coisa branca a tapar a cara. Depois de estar no chão ainda tentaram pontapear o Bas Dost. Dei um encontrão, ele tropeçou e depois entrou no vestiário. Diziam que tínhamos de ganhar o jogo da Taça”, frisou.

[O resumo do dia 10 do julgamento do caso de Alcochete]

Em paralelo, o secretário técnico adjunto do conjunto verde e branco referiu também que chegou a ver Battaglia e Acuña responderem aos adeptos, não no relvado mas no exterior do estádio da Madeira após a derrota com o Marítimo: “No final do jogo os nossos jogadores dirigiram-se aos elementos da claque e nesse dia não foram bem recebidos, quando o resultado não é bom é assim infelizmente. O Marcos [Acuña] acho que foi o primeiro a sair para o balneário. Vi os jogadores aborrecidos, o normal quando perdem. No campo não ouvi ninguém a insultar adeptos. Fora do campo, os adeptos estavam a chamar nomes na zona de cima em relação a onde estava o nosso autocarro. Lembro-me que o Battaglia e o Acuña responderam e agarrámos neles e fizemos com que fossem para o autocarro. No aeroporto não vi nada porque fiquei para trás por causa do controlo anti-doping e quando cheguei já se tinha passado. Na chegada, em Alvalade, quando estamos a sair da garagem, havia alguns adeptos a visar os jogadores e se calhar o mais visado foi o Rui [Patrício]”.

[O resumo do dia 9 do julgamento do caso de Alcochete]

João Rollin esteve também na última reunião realizada na véspera da invasão, que juntou os elementos do staff e Bruno de Carvalho. “O que nós pensávamos era que o treinador tinha sido despedido e que nos iam comunicar isso. Por causa da derrota, dos jornais, das notícias… O presidente perguntou se estávamos com ele, que havia um jogo para ganhar e se acontecesse o que acontecesse no dia a seguir estaríamos com ele. O que pensei? Que o treinador ia ser despedido, que viria o novo e que teríamos de estar com esse novo. Não me recordo das palavras mas disse que havia uma taça para disputar mas que não era aquele o jogo que ele queria. Disse no final da reunião ‘Então amanhã vemo-nos lá às quatro da tarde’. Calculei que, como houve duas reuniões antes, que tinha despedido o treinador e que de manhã iria estar a fazer a nota de culpa. Infelizmente no Sporting passam muitos treinadores e as coisas demoram”, contou sobre esse encontro ao final da tarde de 14 de maio de 2018.

[O resumo do dia 8 do julgamento do caso de Alcochete]

“Se tive receio? No dia do ataque, claro que fiquei assustado. Quando os vi a correr encapuzados fiquei, nunca os tinha visto assim. Receio que voltasse a acontecer? Claro. Levei só um encontrão quando estava a ajudar o Bas Dost mas não caí. Lembro-me da expressão de espanto do [Miguel] Quaresma e do Gil [Henriques]. Houve um deles de cara destapada que até pediu desculpa. Esses últimos adeptos a chegar também ficaram estupefactos com isso, com uma expressão de quem não fez nada”, rematou em resposta à procuradora do Ministério Público.

[O resumo do dia 7 do julgamento do caso de Alcochete]

Em resposta aos advogados, a começar por Miguel Coutinho que representa o Sporting (que é assistente no processo), João Rollin disse que ouviu o primeiro grupo dizer ainda fora do edifício “Vamos partir esta m**** toda” e que ameaçaram Ricardo Gonçalves com o cinto dizendo “Sai daqui car****, não é nada contigo ou ainda levas”. Ao mesmo tempo, recordou o momento em que esteve com Bas Dost: “Estava em pânico, agarrou-me a chorar, a perguntar ‘Como é que isto é possível?’. Tudo em inglês, porque falávamos sempre em inglês. Disse para ficar ali na casa de banho porque ia ajudar mais colegas e ele ‘Please don’t leave me’. Foi aí que o levei para o departamento médico, pelo tal caminho pelo interior do edifício da ala profissional”.

[O resumo do dia 6 do julgamento do caso de Alcochete]

“Se não pensaram fechar mesmo o portão da Academia? Não sei, isso é o departamento de segurança… Eu pensava que eles iam lá protestar como das outras vezes. Fechei as portas porque concordámos os três que se entrassem na Academia as portas do edifício estariam fechadas”, respondeu mais tarde a um dos advogados dos arguidos. “O Ricardo [Gonçalves] disse que ia ligar para a GNR e eu fui trancar as portas”, repetiu a Paulo Camoesas, advogado de Bruno Jacinto, então Oficial de Ligação aos Adeptos, já depois de algumas interrupções para visualização de imagens e fotogramas e antes das questões de Miguel A. Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho.

[O resumo do dia 5 do julgamento do caso de Alcochete]

– Desculpe, o seu nome é Rollin ou Rolin?
–Rollin .
– Pronto… É porque este cidadão faço questão de nunca esquecer o nome mesmo.

[O resumo do dia 4 do julgamento do caso de Alcochete]

“Era uma algazarra generalizada quando houve essa aproximação dos jogadores aos adeptos. O que disseram em particular não sei mas os nomes que chamavam ouviam-se bem, mesmo estando eu a 50 metros, à entrada do túnel de acesso à zona dos balneários. Cá fora do estádio, vi o William a ir à zona limite do cordão policial e a falar ao ouvido com alguns adeptos que ali estavam. Perceção? A minha ideia era tirar dali o William, essa era a minha perceção. Depois na chegada a Alvalade, os spotters tiveram de tirar duas pessoas da frente do carro do Rui [Patrício] e ele seguiu. O grupo devia ter umas sete, oito, dez pessoas no máximo. Um bateu no carro”, explicou sobre os acontecimentos depois do jogo na Madeira frente ao Marítimo, antes de uma pergunta “estranha” de Miguel A. Fonseca que levou à interrupção da juíza sem que se percebesse o sentido da mesma.

[O resumo do dia 3 do julgamento do caso de Alcochete]

– Já viu um treinador dirigir um jogo do Sporting deitado?
– Mas qual é a relevância?, perguntou a juíza.
– Costuma estar de pé ou sentado não é? Não é deitado, certo?

[O resumo do dia 2 do julgamento do caso de Alcochete]

“Desculpe, deixe-me só fazer uma interrupção: ninguém me disse para fechar as portas, eu é que disse que ia fechar as portas”, esclareceu também, numa fase em que a juíza tentava acelerar as perguntas “à testemunha 49”, como fez questão de dizer contando com os elementos chamados pelo Ministério Público e de defesa. “Quando me dirigi para a portaria estava a chegar um carro da GNR e ainda vi indivíduos a correr na estrada”, especificou também no final de um depoimento que de forma inesperada demorou cerca de três horas e meia e que terminou com João Rollin a recordar a assobiadela a Bruno de Carvalho após o jogo com o P. Ferreira em Alvalade, no seguimento da derrota de Madrid frente ao Atlético e da polémica pelos posts no Facebook.

[O resumo do dia 1 do julgamento do caso de Alcochete]

De manhã e depois à tarde, foram ainda ouvidas mais testemunhas abonatórias, respondendo a perguntas dos respetivos advogados de defesa. O julgamento do caso de Alcochete regressa na próxima quarta-feira, dia 22, para a 21.ª sessão. Lumor, antigo lateral esquerdo que chegara em janeiro de 2018 ao Sporting vindo do Portimonense e que joga hoje nos espanhóis do Maiorca por empréstimo, será ouvido por Skype na parte da tarde.