Existem três dados históricos que normalmente diferenciam Fernando Mendes e o tornam facilmente identificável. Antes de todos os outros, o facto de ser ainda o único jogador a ter representado os cinco clubes que foram campeões nacionais em Portugal (Benfica, FC Porto, Sporting, Belenenses e Boavista). Depois, o facto de ser um de apenas oito jogadores a ter estado nos três principais clubes portugueses. E por fim, num pormenor que acaba por ser mais mediático do que propriamente estatístico, o facto de ser um dos poucos jogadores que trocaram o Benfica pelo Sporting ou vice-versa. No caso de Fernando Mendes, o caminho fez-se de Alvalade para a Luz — ainda que o próprio admita que se arrependeu dias depois.

Foi campeão uma vez no Benfica, três no FC Porto e ainda guarda no currículo três Taças de Portugal e cinco Supertaças. Já depois de terminar a carreira, admitiu que utilizou doping, escreveu um livro sobre o lado sujo do futebol e tornou-se um dos mais assíduos comentadores desportivos da televisão portuguesa. Nunca escondeu, após deixar os relvados, que apoia o Sporting e é adepto do clube de Alvalade — tomando opiniões duras e concisas sobre a cíclica crise que os leões vêm vivendo há algumas temporadas. Em semana de dérbi entre Sporting e Benfica, o dérbi da primeira volta com maior diferença pontual entre os dois rivais de Lisboa na história do futebol português, Fernando Mendes esteve no programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador e explicou o porquê da atual décalage entre encarnados e leões.

[Fernando Mendes foi o convidado da segunda parte do programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador. Ouça aqui a partir do minuto 21:23]

O exemplo que Paulo Gonçalves deixou (e um dérbi)

“O Sporting regrediu nos últimos 10, 15 anos. Teve ali uma ligeira aparição há uns anos mas depois conseguiram, mais uma vez, dar cabo daquilo. É uma das coisas fortes que o Sporting também tem, é que os sportinguistas conseguem dar cabo do Sporting. É extraordinário, nunca vi um clube assim na minha vida e nem sei como é que aquele clube ainda consegue sobreviver. Quanto ao Benfica, cresceu com trabalho, mas muitas coisas ainda se vão saber, a forma como se consegue títulos… Anda muita coisa no ar. Acho que as coisas têm de ser, de uma vez por todas, postas em pratos limpos. E há provas disso, basta ver, andamos aqui há dois ou três anos, sistematicamente, a ver sair coisas e coisas e parece que tudo passa ao lado. Quando se tem essa capacidade de controlar e manobrar as coisas por fora, o sucesso começa a aparecer. É uma capacidade que o Benfica tem e o Sporting não tem, não tenho a mínima dúvida”, defendeu o antigo jogador, agora com 53 anos, que representou a Seleção Nacional em 11 ocasiões mas nunca disputou qualquer fase final de um Europeu ou Mundial.

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Quanto à rivalidade entre Benfica e Sporting, Fernando Mendes acredita que os ânimos têm vindo a serenar nos últimos anos porque os leões são “um concorrente que não aquece nem arrefece”, sendo o FC Porto o principal adversário dos encarnados. “A rivalidade entre Sporting e Benfica ficou vincada e foi forte enquanto o Sporting foi um concorrente e um candidato a conseguir objetivos, a ganhar títulos. E o Sporting há muitos anos que ficou, por culpa própria, afastado desses objetivos. A partir dos anos 80, acho que a rivalidade entre Benfica e FC Porto tornou-se a maior do futebol português. E posso dizer que quando fui para o Benfica, em 1989, o grande adversário já na altura era o FC Porto, o Sporting não contava. E quando fui para o FC Porto, em 1996, o grande adversário do FC Porto era o Benfica, o Sporting já não fazia parte das preocupações diárias. E eu, como sportinguista, a ter de jogar nestes dois adversários diretos do Sporting e estar a viver com isto diariamente, a saber que o Sporting não conta”, acrescentou o antigo jogador, que atuou pela última vez na Primeira Liga em 2001/02, ao serviço do V. Setúbal.

Fernando Mendes: “Se há coisa de que me arrependo foi de ter trocado o Sporting pelo Benfica”

Especificamente sobre o dérbi de sexta-feira (21h15), que cruza um Benfica líder e um Sporting em quarto lugar, atrás do Famalicão, Fernando Mendes não se esquece de atribuir “favoritismo” à equipa de Silas por jogar em casa mas não esconde a diferença na “qualidade” dos dois conjuntos. “Se formos olhar para a qualidade das equipas, o Benfica é superior ao Sporting, de longe. A qualidade de alguns e a capacidade de representar aquele clube é muito baixa. Muitos daqueles atletas, na minha opinião, não têm capacidade para vestir aquela camisola. É tão claro como isto. E a diferença é tremenda. Agora, se tem capacidade para ganhar? Acredito que sim”, atirou Fernando Mendes, explicando ainda que a ausência de referências no plantel “machuca” mas o problema do Sporting “é muito mais” do que isso.

Fernando Mendes fez parte da formação do Sporting e ficou nos leões até 1989, altura em que transferiu para o Benfica

“O Sporting tinha essas referências. A diferença é que enquanto os outros clubes tinham essas referências e ganhavam, iam crescendo com essas referências e tinham resultados em termos desportivos e financeiros, isso no Sporting não acontecia. E é diferente nós hoje chegarmos ali — e não estou a pôr em causa a capacidade do Bruno Fernandes como líder — e vermos um capitão que está lá há dois anos. Mas não vejo que o problema seja só esse, o das referências. É uma coisinha que machuca mas o problema do Sporting é muito mais do que as referências do clube”, concluiu, recordando ainda que quando chegou à equipa principal dos leões, com apenas 17 anos, “chegava ao balneário e tinha de cumprimentar os colegas, os Jordões, os Manuel Fernandes, os Oliveiras” graças a um “respeito que não existe hoje em dia”.

Na entrevista à Rádio Observador, Fernando Mendes defendeu ainda que era “mais complicado hoje em dia um jogador transferir-se para um rival”, como ele próprio fez no final dos anos 80, graças ao “ambiente criado à volta dos clubes”, e garantiu que Jorge Jesus foi “o melhor treinador” com quem trabalhou. “Se tenho apanhado o Jorge Jesus mais cedo, se calhar estava pouco tempo no futebol português. Aprendi muitas coisas com ele. As pessoas até podem dizer que é vaidoso, arrogante ou convencido, mas não. Fazemos coisas com ele que não fazemos com outros treinadores. Há trabalhos táticos e técnicos que não fazemos com outros treinadores”, disse o antigo lateral esquerdo, que se cruzou com o atual técnico do Flamengo já no final da carreira, no V. Setúbal.