Djafar Ghazy era um comerciante de livros com raízes no Irão que guardava em casa centenas obras avaliadas em milhares de euros. Em 2007, quando morreu num lar para a terceira idade na cidade alemã de Munique, a família apercebeu-se que dezenas de relíquias tinham desaparecido da casa onde vivia antes de adoecer. Quase 200 delas foram recuperadas da casa de um burlão que, aproveitando-se do facto de também ser iraniano, se fez amigo de Ghazy. O livro mais importante, no entanto, estava desaparecido desde então. Até agora, conta a AFP.

Era o “Divã de Hafez”, uma obra redigida pelo poeta persa Shams al-Din Muhammad Hafiz Shirazi durante o século XIV e que ainda hoje sobrevive nas casas iranianas para ser lida durante o Noruz — o ano novo do calendário persa. Mas este era um exemplar importante, um dos mais antigos do mundo e dos mais parecidos ao original. A capa e algumas páginas tinham desenhos folhados a ouro. Era tão raro e precioso que as autoridades já o tinham avaliado em um milhão de euros, descreveu a agência de notícias francesa.

O detetive mostrou à obra que guarda num escritório em Amesterdão. Créditos: KENZO TRIBOUILLARD/AFP via Getty Images

A polícia alemã lançou uma verdadeira busca ao tesouro perdido e prometeu 50 mil euros a quem o encontrasse. Mas quando a investigação entrou num beco sem saída, a família de Ghazy contratou o detetive privado Arthur Brand, famoso por ter recuperado quadros de Salvador Dalí, mosaicos do século XVI e um quadro de São Marcos da era bizantina que esteve desaparecido durante quatro décadas. O currículo com 200 obras de arte recuperadas valeram uma alcunha sonante ao historiador de arte holandês: o “Indiana Jones do Mundo da Arte”.

Os anos passaram e nenhuma pista parecia conduzir Arthur Brand ao paradeiro do “Divã de Hafez”. Até que, em 2018, recebeu uma chamada, contou o próprio à AFP: “Preciso que venhas ter comigo à Holanda. É urgente”. Do outro lado da linha estava um dos informadores do detetive. E estava “claramente assustado”. Tinha sido procurado por dois homens que diziam ter ligações à embaixada do Irão e que o pressionaram a contar tudo o que soubesse sobre a localização do “Divã de Hafez”.

Eram dos serviços secretos do Irão, apurou o detetive. Desde que as notícias do desaparecimento do livro tinham dado a volta ao mundo que as autoridades iranianas tinham demonstrado interesse em participar nas buscas pelo “Divã de Hafez”. Mas agora, e depois de a polícia alemã lhes ter entregue duas outras obras de Ghazy, mas recusado a ceder mais, pareciam estar a agir sozinhos.

Arthur Brand sabia que tinha de agir rapidamente: “Comecei uma corrida contra o tempo para ver se conseguia encontrá-lo primeiro, pois o livro pertencia à família de Ghazy”, argumentou numa entrevista à AFP. Se deixasse o Irão adiantar-se, sabia que as autoridades iriam argumentar que a obra devia ficar com elas.

As pistas que obteve desde esse momento, embora sem revelar como à AFP, levaram-no até Londres, ao encontro de um homem que ficou “extremamente nervoso” quando viu uma fotografia do livro. Já tinha visto aquela imagem antes. Uns anos antes, um amigo dele tinha vendido aquela mesma obra a um grande comprador de livros. Arthur Brand estava mais perto do que nunca de recuperar o “Divã de Hafez”.

A capa do “Divã de Hafez”. Créditos: KENZO TRIBOUILLARD/AFP via Getty Images

Mas os serviços secretos iranianos estavam um passo à frente de Arthur Brand. Quando esse grande comprador soube que o Irão andava à procura da relíquia, voou até Paris para se encontrar com o homem que lhe havia vendido a obra. Nunca o chegou a encontrar. O “Indiana Jones do Mundo da Arte” conseguiu intercetá-lo antes disso e convenceu-o a regressar a Londres. Agora, as obras estão nas suas mãos, guardadas no escritório que tem em Amesterdão, nos Países Baixos. Na próxima quarta-feira, será entregue à polícia alemã. E daí regressará ao seio da família Ghazy.

E o ladrão? Foi detido, mas a polícia não revela como teve acesso à obra milionária do século XIV. Quanto a quem será o proprietário legítimo do livro, “os próximos passos estão a ser discutidos em conjunto com os herdeiros de Ghazi”, disse declarações oficiais, Ludwig Waldinger, porta-voz da polícia, à AFP.