A diretora do Programa Nacional para a Infeção VIH/Sida admitiu esta sexta-feira que o medicamento que previne o VIH e que é de uso exclusivo dos hospitais possa vir a estar disponível nas farmácias para poder chegar a mais pessoas.

Cerca de 1.200 pessoas estão a fazer profilaxia pré-exposição da infeção por VIH (PrEP) em Portugal, mas para se atingir um valor desejável será preciso aumentar por dez o número destas pessoas, defendeu Isabel Aldir, num evento na Câmara de Lisboa, no qual o presidente da autarquia, Fernando Medina, anunciou que a capital portuguesa vai acolher em setembro a conferência internacional Fast-Track Cities 2020.

A médica infeciologista explicou que a PrEP, que consiste na toma de medicação antirretroviral por pessoas que não vivem com o VIH, mas que se encontram em situação de elevada vulnerabilidade à infeção, “funciona de uma forma muito robusta”, mas para tirar “todos os dividendos em termos de saúde pública” seria necessário abranger entre 10 mil e 15 mil pessoas.

Para alcançar este objetivo, defendeu algumas estratégias como rever a forma como é disponibilizado este medicamento classificado pelo Infarmed como de uso exclusivo das farmácias hospitalares.

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“Isso pode passar por alterar essa classificação para que possa também existir na farmácia comunitária como tantos outros”, disse Isabel Aldir à agência Lusa no final do evento.

A diretora do Programa Nacional para a Infeção VIH/Sida e Hepatites Virais explicou que a profilaxia de pré-exposição assenta atualmente apenas na rede e nos clínicos que recebem as pessoas com infeção por VIH.

“Só que estamos a falar de uma prevenção e a prevenção deve estar o mais próximo possível da população e temos ainda de ter consciência de que estamos a tratar, por vezes, de populações que, por múltiplas razões, têm um acesso mais dificultado às estruturas formais de saúde”, salientou

Para a infeciologista, uma das “formas mais rápidas” e eficazes de chegar a estas pessoas é “trabalhar com organizações de base comunitária que conhecem essas populações” e que têm “uma facilidade muito grande” no contacto com elas.

“Não se exclui aqui os cuidados de saúde primários, nem os cuidados hospitalares, que também têm um papel muito importante a fazer, mas este trabalho conjunto com a organizações de base comunitária será certamente” fundamental.

No seu entender, é também necessário aumentar a literacia dos profissionais de saúde para que poderem identificar e disseminar a informação junto das suas populações.

“E eventualmente se virmos que estão esgotadas todas as capacidades de resposta dentro do SNS equacionar a possibilidade de poder haver acesso à PrEP em termos de medicina privada”, uma realidade que existe em muitos países, admitiu.

Neste caso, sublinhou que a sua única reserva é garantir que a utilização e os dados referentes a essa utilização sejam obrigatoriamente monitorizados.

“O que me importa é qualquer pessoa que precise de PrEP tenha acesso a ela e isso é que deve ser de facto o nosso objetivo”, disse, rematando: “Temos ainda um longo caminho a percorrer, mas temos que o percorrer de uma forma rápida porque se não o fizermos todo o beneficio que poderíamos tirar da PrEP não vai ser conseguido da forma como poderia ser feito”.~

Segundo o relatório “Infeção VIH e SIDA – situação em Portugal em 2019”, a maioria das pessoas que estão a fazer profilaxia PrEP são homens, muito escolarizados e que vivem nas grandes cidades.