“Temos uma ideia, uma filosofia, se não sair é porque o adversário não deixa”.

Rúben Amorim tinha prometido na antevisão da partida: no Estádio do Dragão, o Sporting de Braga ia tentar jogar como ele ambiciona, com a bola em sua posse, fazendo-a circular e procurando espaços. Se não conseguisse, ou melhor dizendo quando não o conseguisse, era porque o FC Porto não deixava e não porque os minhotos abdicassem de tentar. No final da partida, saiu sorridente, com uma vitória por 1-2 no Estádio do Dragão: a primeira dos arsenalistas no reduto do FC Porto nos últimos 15 anos.

A aposta no técnico do SC Braga, que substituiu Ricardo Sá Pinto no comando — o antigo treinador do Sporting tinha tido uma prestação exemplar na Taça da Liga e Liga Europa, mas caiu pelos maus resultados no campeonato —, foi também ela uma aposta numa “ideia” e “filosofia”. O currículo do treinador é curto, já que Rúben Amorim foi apenas treinador estagiário no Casa Pia e liderou o SC Braga B somente durante 11 jogos (ainda que com oito vitórias conquistas) antes de ascender à equipa principal. A formação técnica também não é a maior: tem apenas o nível II, quando o nível exigido é o IV.

Rúben Amorim não foi contratado pela formação técnica mas talvez seja injusto dizer que não foi contratado pela experiência. Foi-o, nomeadamente pela experiência que teve com Jorge Jesus como jogador: é verdade que teve outros treinadores (e de renome) como Leonardo Jardim, Carlos Queiroz, Paulo Bento e José Peseiro, mas foi com Jesus que Rúben Amorim passou mais anos. Nenhum jogador passou tantos anos a treinar e a ouvir o em tempos denominado “mestre da tática”, hoje rei do Brasileirão e da América do Sul.

O momento de promoção de Rúben Amorim à equipa principal do SC Braga talvez não seja alheio ao momento de consagração de Jorge Jesus como grande treinador português, por mais que Amorim recuse o estatuto de simples “discípulo” de JJ e diga que foi “influenciado por muitos treinadores”. Como não será alheio à aposta do Sporting em Silas (também com formação técnica insuficiente), que disse numa conferência de imprensa que não trocava “uma semana como jogador por todos os cursos do mundo”.

Se em tempos o modelo treinador formado nas universidades e pensador de futebol era o novo paradigma no futebol português, graças ao impacto de Mourinho, hoje o modelo de treinador formado nos treinos e nos jogos vai ganhando adeptos. Isso vê-se até no exterior, também: Xavi foi falado para o Barcelona e mostra nas Arábias que a experiência como jogador é muito útil, Arteta foi contratado pelo Arsenal, no FCP que até há pouco tempo tinha como treinador um André Villas Boas está agora o ex-símbolo dos dragões Sérgio Conceição — que por sua vez sucedeu já a Nuno Espírito Santo, antigo guarda-redes portista que mostra agora os seus argumentos ao serviço do Wolverhampton, da Premier League.

Só pela fé na experiência adquirida como jogador é possível explicar que o SC Braga tenha escolhido para treinador principal um técnico que — nessa função — está a dar os primeiros passos no futebol profissional. Para já, a aposta está a resultar na plenitude: Rúben Amorim leva três vitórias em três jogos pela equipa principal dos bracarenses. Depois de uma goleada por 1-7 no reduto do Belenenses e de uma vitória caseira (pela margem mínima) com o Tondela, surpreendeu esta sexta-feira o FC Porto.

Ao canal SportTV, no final da partida, o avançado Paulinho, instado a comentar o que mudou na equipa com a entrada de Rúben Amorim, afirmou: “Veio com ideia diferente, que todos nós rapidamente assimilámos e comungamos. É um futebol muito positivo, de risco. No último jogo sofremos golos mas é assim”.