Título: Livre-Arbítrio
Autor: Allen Halloween
Editora: Lua Eléctrica
Páginas: 266
Preço: 12,00€

Dois dias depois do Natal, Allen Halloween anunciou sem grande pompa ou circunstância o fim da sua carreira enquanto rapper, apagando as luzes e indo-se embora sem qualquer aparato. Ainda assim, se a Bruxa tentou sair de cena como entrou, discretamente, sem discursos, sem grandes palcos e sem que ninguém lhe prestasse atenção, a verdade é que o anúncio do fim trouxe consternação, pranto e ranger de dentes. Talvez a melhor maneira de se compreender os motivos para os lamentos que envolvem esta perda seja prestando atenção a quatro dos poemas de Livre-Arbítrio, o livro que foi publicado pela Lua Eléctrica quase ao mesmo tempo do comunicado de despedida (e do lançamento de Unplugueto), onde vêm compiladas as letras dos seus quatro álbuns.

“Mary Bu”

Projecto Mary Witch (2006)

“Mary Bu” é a música que Halloween escolheu como porta de entrada para o seu trabalho. Ainda que “Dia de Um Dread de 16 Anos” tenha sido o principal responsável pelo sucesso inicial da Bruxa, é “Mary Bu” que abre o seu primeiro álbum, Projecto Mary Witch, e é em “Mary Bu” que encontramos pela primeira vez muitas das que viriam a ser as maiores virtudes de Halloween. Na grande maioria das entrevistas que dá, Halloween aponta como um dos seus traços distintivos a recusa da egotrip. A insistência é justificada: nunca nas canções dos seus quatro álbuns encontramos o rapper a louvar os seus feitos, o seu talento ou a vida que leva e é exactamente esta recusa que marca também Mary Bu.

Logo ao quarto verso, Halloween avisa-nos que não devemos procurar nele um exemplo de nada:

“Não percas o teu tempo
Atrás de mim, tchau
Chaval, quem me segue é mau”

Os poucos elogios que faz a si mesmo têm sempre, aliás, uma de três justificações. Os mais pequenos indícios do que poderia ser uma glorificação de si mesmo ou uma tentativa de apontar para a sua virtude correspondem na verdade ou a uma demonstração do absoluto vazio desses feitos, cantada num tom que acentua a desilusão (“mais um degrau, uau, tou no céu” ou “eu sou o número um da drogaria/Ninguém vai onde eu vou/ Eu vou até ao fim da linha”); ou a um ataque aos que julgam ter valor e a quem Halloween lembra que o talento que julgam ter é infinitamente inferior ao da Bruxa:

“Dá meia volta, põe-t’a andar daqui pra fora
Nigga, eu escrevo o teu álbum em menos duma hora
Agora há tantos MCs
Hip-hop tá na moda
‘Eu sou real e verdadeiro’
És é o caralho que ta foda”

Ou são um elogio de virtudes relativamente pálidas e acerca das quais Halloween não parece ter uma confiança propriamente robusta (“Eu acho que nunca te enganei, ok, nigga?”).

Halloween decidiu chamar ao seu terceiro álbum de estúdio Híbrido porque pretendia que este, tal como os seres híbridos, não se reproduzisse, apontando em 2015 para o final da sua carreira que acreditava estar próximo. Esta ideia de uma absoluta esterilidade encontra-se bastante marcada em músicas anteriores, como vemos, por exemplo, nas letras de “Fly Nigga” em que Halloween canta:

“São muitos surfistas
Atrás da minha onda
A minha onda não vai a nenhum lado
Antes de chegar à praia
Sou um homem afogado”

Ou de “Debaixo da Ponte”, onde se descreve a si mesmo como ‘o rei do rio que não chega ao mar’. Esta impotência e esterilidade encontram-se patentes já neste pontapé inicial onde, ao contrário do discurso habitual no hip-hop em que os artistas com toda a facilidade fazem e acontecem, Halloween procura explicar à sua miúda que não podem ser amigos íntimos porque a erva (“Mary Bu” é exactamente um dos termos a que Halloween recorre para se referir à erva) ‘matou a minha líbido’.

“No Love”

Projecto Mary Witch (2006)

Na oitava faixa de Projecto Mary Witch, Halloween introduz uma tensão que viria a permear todo o seu discurso, particularmente a partir do segundo álbum. Em “No Love”, a Bruxa fala de uma busca por uma salvação que sente nunca ter chegado (“Procurei-te como um doido/ Mas nunca te vi”), e parece ciente de que foi a pressa e a velocidade da thug life, da vida da rua, que o impediu de se salvar, de encontrar um caminho redentor, encaminhando-o na direcção da morte e da perdição (“Quem me dera te conhecer, baby/ Mas tou com pressa/ Há uma velha vestida de noiva à minha espera”).

Como já seria de esperar, na hora da sua morte, Halloween não se imagina levado em ombros para a glória dos céus, deixando para trás uma multidão pesarosa rendida ao grande artista tão cedo partido. Para Halloween, imaginar a morte é ver o seu corpo ser atirado ao rio e ver as suas músicas a permanecerem apenas nos guetos de que nunca conseguiu escapar:

“Quando eu me casar com ela
Não chores, não
Ouve a minha voz a rimar no rio Trancão
E dorme, my love,

Enquanto eu canto o nosso som
Sonha connosco e como seria bom”

A velocidade da vida das ruas é reforçada pela capacidade impressionante (e que pertence muito mais à literatura do que ao hip-hop) que Halloween tem de criar imagens que funcionem sob várias leituras. Em “No Love”, Halloween diz que tudo o que fez, fez para ser feliz (na versão de 2019 inserida em Unplugueto, a Bruxa altera a letra para “tudo o que eu fiz, não me fez feliz”), mas acrescenta: “Mas são muitos cavalos a correrem atrás de mim”. Ao fazê-lo, está evidentemente a aludir à vida rápida que a street o obrigou a levar, mas também, como é relativamente claro, à heroína.

A imagem repete-se anos mais tarde em “Bandido Velho”, onde a inevitabilidade da criminalidade e da má vida para quem cresce onde Halloween cresceu é sugerida pelo extraordinário verso “E os pombos voam até ti/ Como se fosses milho”, sendo pombos usado aqui aparentemente como gíria para charros. A vida nos guetos, segundo Halloween, é uma vida de completa desprotecção, fomentada pelos donos do mundo (“No mundo dos Gs/ G-Bush é o patrão”) e para a qual não parece haver grande saída, uma vez que o mundo para onde Halloween se viu empurrado é, nas palavras do próprio, uma roleta de cinco balas no tambor em que todos os dias se paga a maçã que não comemos.

A solução parece, portanto, ser apenas uma: abandonar por completo a vida do hip-hop, das drogas, do álcool e do sexo e apegar-se à religião, como a Bruxa agora fez. Como Jesus Cristo diria: “O meu reino não é deste mundo”. Como Halloween diria, tentando expressar exactamente o mesmo mas por outras palavras: “Eu tou a correr no mundo/ Que sa foda o mundo, you know”.

“Aleluia, a Ressurreição do Kriminal”

Árvore Kriminal (2011)

Encontrada a porta de salvação e tendo já começado o caminho para se tornar Testemunha de Jeová, a estrada não se tornou, ainda assim, menos pedregosa, como Halloween mostra na segunda faixa de Árvore Kriminal. A Bruxa começa por ameaçar “No mercy for my enemies, brother” para depois fechar a canção num tom mais condigno com a mensagem de Cristo (“Deus tenha misericórdia dos meus inimigos, brother”).

Este itinerário que é trilhado em “Aleluia: a Ressurreição do Kriminal” espelha precisamente a constante oscilação entre duas forças. Por um lado, Halloween mostra a dificuldade que tem em resistir às seduções da grandeza e tende a equiparar-se a Jesus Cristo, tentado pelo Diabo com ouro e platina (Halloween mete desta forma ao mesmo nível o sucesso comercial dos seus discos e as ofertas feitas pelo Diabo a Cristo no deserto), enquanto vê os seus inimigos conspirarem para o matar (“Planearam-me matar/ Mas eu não morri”) e enquanto é traído pelos seus, metamorfoseados em Judas Iscariotes (“Eis como Judas caminhou e se infiltrou/ Entre nós/ Espalhou corrupção/ No meio dos meus Bros”). Por outro, entrega-se à devoção mais pia, arrepende-se da vida vã que viveu e suplica a Deus que o salve (“Segura-me, Senhor, eu estou a cair/ Salva o Halloween”).

Na busca pela salvação, então, Allen Sanhá Pires encontrará o seu rosto espelhado não no maior dos santos nem no asceta mais rigoroso, mas precisamente na figura do pobre criminoso que, apesar de evidenciar uma devoção sincera, só não peca mais porque lhe prenderam os braços e as pernas à cruz:

“Tou na street Killa
Com uma garrafa de tara perdida

Té às tantas da madruga

Como o criminoso que morreu
à direita do nazareno Jesus Christ
Espero que o meu Senhor

Se lembre de mim”

Porque Halloween, tal como o criminoso morto na cruz, não é bravo nem é G. O Halloween é o Halloween, motherfuckas.

“Youth”

Híbrido (2015)

O título da canção resume exactamente o tipo de ambiguidade que Halloween procura sempre, uma vez que, tal como em todo o álbum, em “Youth”, a Bruxa está a despedir-se simultaneamente da sua juventude, vivida na street life, e da Youth Kriminal, o conjunto de rapazes com quem o rapper ia a mil lugares. À semelhança de São João da Cruz, Halloween apresenta-se desde os primeiros versos como alguém com vontade de se despojar de tudo o que o constituiu até aí e que o impedia de seguir Cristo, mostrando que até as letras do seu próprio nome estão prestes a cair para se poder tornar em barro nas mãos do oleiro que é o seu Deus (“Meu nome é Allen/ Meu nome é A/ Meu nome é Homem”).

No entanto, ainda que de início, enquanto brinda à sua partida, a despedida soe a irrevogável, cedo percebemos que não é exactamente assim, que o Halloween que nos habituáramos a conhecer continua completamente entranhado em Allen, ou em A, ou em Homem ou em como lhe quisermos chamar. Não espanta, por isso, que o ódio do qual Halloween jura repetidas vezes estar a tentar livrar-se surja ao longo da canção, primeiro subtilmente (que é como quem diz), ao referir-se aos seus inimigos como “faggot asses” e, perto do fim, na violência chocante com que ataca as forças policiais (a que se refere como Babilu), que Halloween acusa de serem racistas e de se concentrarem em perseguir os pequenos e soltar os grandes. Apenas para citar um exemplo deste ataque:

“Babi, Babilu, quem és tu?
Vai tomar no cu
Namoras esses putos
Até prendê-los e vê-los na kuzu [cadeia]
Nunca quiseste os velhos criminosos
Que governam o mundo”

É precisamente por o ódio estar completamente entranhado em alguém que cresceu onde a Bruxa cresceu, que viveu o que a Bruxa viveu que, enquanto desejamos que Halloween siga a vida que escolheu para si, continuamos a ter fé no regresso de um dos maiores músicos a surgir em Portugal nos últimos vinte anos. Porque, apesar de ter visto a luz, versos como os que concluem Marmita Boy continuam, decerto, absolutamente verdadeiros:

“A minha mãe tá certa
My nigga, a minha cabeça não presta
Eu vejo o gang a rolar
E a vontade que a mim me dá
É voltar para lá”

[É apenas de lamentar em Livre-Arbítrio não haver o cuidado que a obra de Allen Halloween mereceria, uma vez que encontramos no livro um número inaceitável de gralhas quando se pretendia que este servisse para estabilizar as letras, guardando-as para a posteridade agora que a Bruxa não está mais entre nós. Nesse sentido, é triste, ainda que possamos dar o desconto merecido a uma editora pequena que se dedica a um trabalho tão meritório como o de publicar a poesia de Halloween, ver tantas deturpações das letras, alterando-lhes radicalmente o sentido. Apontando apenas três de entre estas falhas, frise-se que, em “Coração Digra”, onde se lê “Mulher para mim, é a minha carne. É o meu melhor amigo/ Eu divido com nenhum indivíduo” devemos ler “Mulher, para mim, a minha carne/ É o meu melhor amigo/ Eu não divido com nenhum indivíduo”, onde se lê, em “O Grande Gentio” “Traz a tua glória/ Tua cultura que deu tudo/para a história dum povo sem memória” deveríamos ler “Traz a tua glória/ A tua cultura que deturpa/ A história dum povo sem memória” e onde se lê, em “Aleluia, a Ressurreição do Kriminal” “E a minha alma voltou a pobre/ Só ao longe eu vi” deveria ler-se “E a minha alma voltou ao pó/ Do solo donde eu vim”]

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