Devo admitir à partida duas grandes dificuldades em escrever este texto:

1. Foi difícil visionar os momentos de vil crueldade para com gatos quando estava a ver televisão com dois exemplares mimados ao colo.

2. É uma tarefa inglória tentar escrever sobre “Don’t F**k With Cats” sem estragar a experiência a quem ainda não o viu.

Os três capítulos do novo documentário da Netflix são uma viagem de montanha russa muito mais impressionante se não se souber onde estão os loops e as quedas vertiginosas. Descansem, vou tentar explicar o máximo contando o mínimo. Só o suficiente para ser palpável porque é que este documentário se tornou num fenómeno muito peculiar, numa altura em que episódios sobre crimes reais pululam como coelhos na época do cio.

Num total de cerca de três horas, “Don’t F**k With Cats” consegue simultaneamente ser talvez o melhor thriller que já vi (sim, contando com grandes blockbusters de ficção) e ser um tratado sobre redes sociais. A conversa sobre os social media e os seus perigos e benefícios, apesar de ter só pouco mais de uma década, cheira a bafio porque parece que a estamos a ter em repetição circular todos os dias. Aqui, não há círculo, há um novelo emaranhado sobre esse caos mais ou menos contido que é o ser humano e as suas particularidades.

[o trailer de “Don’t F**k with Cats”:]

O título remete para um dos clássicos de popularidade dos feeds de Facebook e Instagram: as fotografias de gatinhos, um maná para o qual também já contribuí, ali mesmo ao nível do cliché. E é exatamente por as redes sociais serem um local de adoração de felinos de pequeno porte que o criminoso sobre o qual se debruça este documentário opta por tê-los como vítimas. Um misterioso homem coloca online vídeos onde tortura gatinhos até à morte, sedento de iniciar uma caça ao homem com as forquilhas típicas do mundo digital. E consegue, claro, porque “you don’t fuck with cats” (numa tradução bem-comportada, “tu não te metes com os gatos”).

Os crimes hediondos são cometidos, filmados e disponibilizados pelo próprio por causa de uma busca por fama muito baseada nos virais de internet. A tal notoriedade chega, com comunidades digitais organizadas no encalço do criminoso, de modo mais empenhado e até mais eficaz que a própria polícia. Ao longo de dois anos, tudo são pistas, desde posters até à marca de um aspirador que surge com um abominável protagonismo. Só que talvez este jogo da apanhada – em que o apanhado é um fã assumido do filme “Catch Me If You Can”, baseado numa das maiores caças a um burlão de sempre – atice o criminoso a fazer sempre mais. Será que vai ficar pelos gatinhos? A resposta está num caso de polícia ocorrido em 2012, infame no Canadá mas menos conhecido por aqui. Vá, larguem o Google – é muito mais interessante irem descobrindo ao longo do documentário.

A ideia de uma milícia popular, especialmente se for online, é geralmente assustadora. A velocidade a que o ódio une pessoas atrás de um teclado nunca dá bom resultado – mas, aparentemente, deu aqui. Deanna Thompson e John Green são a face mais visível do grupo de Facebook que dedicou horas e horas a investigar o torturador de gatinhos, convictos de que este não poderia escapar sem punição. Em inglês existe o termo, sem tradução concreta para português, de cyber sleuths, uma espécie de investigadores anónimos agindo por conta e vontade próprias. Foi uma cavalgada pela justiça de tal forma obcecada que terá dado ainda mais pica ao criminoso, alguém que queria acima de tudo ser o centrinho do universo. No fim do documentário, Deanna e John encontram-se pessoalmente pela primeira vez, depois de tantos anos de intenso contacto online. E discutem entre si: resolvemos um crime ou regámos com gasolina as motivações narcisistas do seu perpetrador? Ao querer punir por causa de um vídeo, teremos causados mais três que equivaleram a outros tantos crimes?

Deanna usou durante todo o processo um nome falso, Baudi Moovan (uma referência fonética ao êxito dos Beastie Boys “Body Movin”), exatamente por conhecer bem o vortex perigoso no qual se pode tombar ao dar informações pessoais online. Mesmo assim, o autor dos crimes descobriu a sua identidade real e filmou-a no seu emprego, um casino de Las Vegas no qual era analista de dados. Foi apenas mais um susto num longo jogo de gato e rato – irónico, tendo em conta que, bom, tudo começou com gatos.

A força de “Don’t F**k With Cats” vem do facto de que, sendo cem por cento real, parece inventado. Se fosse um filme, alguns detalhes pareciam só absurdos, fruto da mente de um guionista particularmente canastrão – logo a começar no nome do matador, que não revelo. Lembra a célebre citação atribuída ao escritor Tom Clancy:

“A diferença entre a realidade e a ficção é que a ficção tem de fazer sentido”

Na verdade, o universo de “Don’t F**k With Cats” anda entre os dois mundos: sim, é tudo verdade – mas foi tudo orquestrado por um fã de cinema que se via como uma estrela mundial que merecia a sua grande produção. Não é um blockbuster estreado em IMAX com direito a passadeira vermelha, mas é um sucesso no Netflix. Vai ter de lhe chegar.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa