Portugal tem um caminho a percorrer no tratamento do acidente vascular cerebral (AVC) para alcançar a média da Europa Ocidental. Segundo o Atlas da Cardiologia da Sociedade Europeia de Cardiologia, a mortalidade por AVC por milhão de habitantes é — nos homens e mulheres — superior à de todos os países da Europa Ocidental, mas há boas notícias no que diz respeito, por exemplo, à mortalidade por doença coronária: Portugal é o 4.º país entre 51.

Ao Observador, o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Victor M. Gil explica o porquê dos números. “O AVC ainda é um problema entre nós. Só agora é que está a ser implementada uma rede nacional para tratamento do AVC em fase aguda”, esclarece comparando com a rede de tratamento de enfartes que existe em praticamente todo o país.

O responsável considera que o caminho a seguir para o tratamento do AVC deve ser semelhante ao que foi percorrido para criar uma rede nacional de tratamento de enfarte, embora leve vários anos de atraso. “Já se tratava o enfarte, com cardiologia de intervenção, e no AVC ainda não se fazia praticamente nada. Depois começaram a dar os mesmos medicamentos e, quando a medicação não resulta já se passa para a intervenção mecânica”, notou o cardiologista.

Mas também na especialização dos cardiologistas, nas subespecialidades, pode ser feito um planeamento essencial. “É necessário fazer o levantamento das necessidades das subespecialidades necessárias dentro de cada especialidade, planear e abrir as respetivas vagas”, diz acrescentando que a comunidade científica está disponível para “dar contributo” no levantamento das necessidades “região por região, zona por zona”.

“Só podemos saber para onde vamos se conhecermos a nossa realidade”, disse frisando que não há no país, por exemplo, uma avaliação de prevalência das doenças.

Ainda que se possa beneficiar de uma melhor distribuição das subespecialidades, o relatório dá conta também do número satisfatório de cardiologistas em Portugal. Entre os 44 países analisados neste ponto, Portugal ocupa a 10.ª posição, estando em linha com vários dos restantes países da Europa Ocidental.

Já no que diz respeito aos fatores de risco nas doenças cardiovasculares, Portugal tem “resultados razoáveis em termos de hábitos tabágicos, obesidade e incidência de dislipidemia [colesterol elevado]”, mas no polo oposto estão os resultados nos níveis de atividade física, incidência de hipertensão arterial e diabetes e hábitos alcoólicos. O documento sugere, aliás, que “estas devem ser áreas de atuação prioritárias em termos de prevenção cardiovascular”.

Victor M. Gil nota que também aqui há um “desafio muito importante”, mas que por exemplo no que diz respeito à hipertensão os tratamentos já “estão alinhados”.