“Não me apetece muito falar do jogo. Podia falar da pressão da nossa equipa (…) Podia falar de touradas e dizer que pegámos o touro pelos cornos mas não me apetece muito falar disso por respeito à instituição Benfica. Neste momento, o meu coração, o meu pensamento, está com a família do Emiliano Sala. Foi um jogador meu, do Nantes, um miúdo fantástico, e seguramente a família está a sofrer muito. Nós, equipa técnica, tínhamos uma relação muito boa com todos os jogadores. Sofremos muito hoje com a notícia deste desaparecimento. Não sabemos, neste momento, como estão as coisas, mas o meu pensamento mais forte agora é esse”. 

Há um ano, depois da meia-final da Taça da Liga onde o FC Porto eliminou o Benfica, Sérgio Conceição não quis falar sobre o jogo. Preferiu, como normalmente faz, falar sobre aquilo que lhe vai no coração. E tudo o que ia no coração do treinador português, no dia seguinte ao acidente que acabou por matar Emiliano Sala, era homenagear o avançado argentino que lhe passou pelas mãos no Nantes. Sérgio já tinha feito uma publicação nas redes sociais no dia anterior, já se tinha emocionado durante a habitual roda com os jogadores do FC Porto, já tinha deixado o relvado do Municipal de Braga em lágrimas: mas não evitou voltar a falar de tudo o que lhe ia no coração na conferência de imprensa.

Passou um ano desde que Emiliano Sala morreu. A 21 de janeiro de 2019, a Europa acordou com a notícia de que um jogador argentino, avançado do Nantes que tinha acabado de assinar pelo Cardiff, estava desaparecido depois de a avioneta onde seguia se ter despenhado no Canal da Mancha. Durante os dias seguintes, a esperança permaneceu: Sala estava, afinal, desaparecido, o que abria espaço à remota possibilidade de sobrevivência. No início de fevereiro, quando também já a esperança escasseava, o corpo do jogador foi encontrado.

“A família Sala vai assinalar o aniversário da morte do Emiliano em privado, numa contida contemplação da perda. A principal preocupação da família continua a ser que o inquérito seja realizado o mais depressa possível, para que possam finalmente conhecer a verdade sobre aquilo que aconteceu e garantir que nenhuma outra família tenha de sofrer uma perda similar e evitável de um ente querido”, pode ler-se no comunicado oficial da família do jogador argentino. Uma família que, no espaço de três meses, perdeu um filho e um pai: o pai de Emiliano, Horacio, morreu vítima de um ataque cardíaco três meses depois do acidente do filho. A mãe, Mercedes, continua a ser a principal intermediária da família e a figura que mais vezes surge na atualidade internacional a pedir maior celeridade das autoridades, da justiça e da investigação ao desastre que matou Sala aos 29 anos.

No primeiro jogo depois do acidente, todos os jogadores do Nantes jogaram com o nome de Sala nas costas

Esta terça-feira, tanto o Nantes como o Cardiff — que ainda não resolveram definitivamente como vão resolver a questão dos valores envolvidos na transferência do jogador, entre recursos e audiências no Tribunal Arbitral do Desporto — assinalaram a memória de Emiliano Sala nas redes sociais e anunciaram homenagens ao argentino. Os jogadores do Nantes vão utilizar camisolas comemorativas no jogo do próximo domingo, contra o Bordéus, e está previsto ainda um minuto de silêncio. O Cardiff convidou os adeptos para uma missa na capital do País de Gales, em memória do jogador e ainda do piloto da avioneta, David Ibbotson.

Piloto esse que acaba por ser um dos pontos de maior dúvida em toda a história. David Ibbotson, cujo corpo nunca apareceu, não estava autorizado a realizar voos internacionais e não tinha sido o piloto originalmente contratado pelo Nantes para levar o jogador de França para Gales. Este pormenor, que terá culminado na detenção ainda por explicar do piloto original — um homem de 64 anos foi detido em junho do ano passado por estar envolvido no acidente mas nunca confirmado que se trata de David Henderson, o indivíduo contratado pelo Nantes para o serviço –, é o ponto fulcral de um livro que chega precisamente esta terça-feira às bancas. “The Killing of Emiliano Sala”, O Assassinato de Emiliano Sala, foi escrito pelo jornalista Harry Harris e deixa seis perguntas ainda por responder sobre o desastre no Canal da Mancha.

Passou um ano desde que Emiliano Sala morreu. Um ano de memórias, de recordações e de tributos mas, e principalmente, de muitas dúvidas. E um ano depois, tal como Sérgio Conceição atirou na conferência de imprensa da meia-final da Taça da Liga da temporada passada, não apetece falar sobre o jogo. O jogo, o futebol, que é a coisa mais importante das menos importantes da vida. Uma vida onde Emiliano Sala deixou ainda quase tudo por fazer.